O Bem-Amado, obra do renomado dramaturgo e escritor Dias Gomes, inicialmente uma peça teatral e posteriormente adaptada para a televisão, narra a excêntrica e cômica busca do prefeito Odorico Paraguaçu pelo primeiro cemitério em Sucupira. Sua administração tem como meta maior inaugurar o tão sonhado campo-santo, acreditando que isso trará prestígio e modernidade à pequena cidade litorânea. Contudo, para que a inauguração seja de fato concretizada, é necessário que haja um defunto, o que gera uma série de situações hilárias e, por vezes, macabras.
O enredo se desenrola em torno da obsessão de Odorico em encontrar um corpo para estrear o cemitério. Ele e seus correligionários armam planos mirabolantes para garantir que alguém morra, chegando ao ponto de tentar induzir a morte de moradores de idade avançada ou fragilizados pela saúde. Essa procura incessante por um falecido expõe o oportunismo político e a farsa por trás das promessas e projetos eleitoreiros, mostrando como a vaidade e o poder podem distorcer a realidade e os valores de uma comunidade.
Os conflitos principais giram em torno da oposição entre os interesses do prefeito e a vida cotidiana dos moradores de Sucupira, que, ironicamente, persistem em não morrer. A trama é enriquecida pela presença das irmãs Cajazeiras – Doroteia, Dulcineia e Consuelo – que representam um contraponto moralista e fofoqueiro, além de serem figuras cômicas que agitam a vida social da cidade. Seus conservadorismos e intervenções adicionam camadas de humor e crítica aos eventos.
A obra explora a essência do populismo e da manipulação das massas. Odorico Paraguaçu, com seu discurso empolado e repleto de neologismos, personifica o político demagogo que promete o que não pode cumprir, ou que constrói algo sem utilidade imediata, apenas para ganho pessoal e político. A falta de um morto para o cemitério é uma metáfora poderosa da inutilidade de certas obras públicas e da inversão de prioridades na gestão pública.
A crítica ao populismo e à corrupção política através do humor e do absurdo.
Dias Gomes, cujo nome completo era Alfredo de Freitas Dias Gomes, foi um dos mais importantes dramaturgos e autores de telenovelas do Brasil. Nascido em Salvador, Bahia, em 1922, e falecido no Rio de Janeiro em 1999, Dias Gomes deixou um legado vasto e influente na cultura brasileira. Sua obra é marcada pela aguda observação social, pelo humor ácido e pela capacidade de transformar temas complexos em narrativas acessíveis e envolventes. Foi membro da Academia Brasileira de Letras e recebeu diversos prêmios por sua contribuição à dramaturgia, sendo um mestre na arte de satirizar a realidade brasileira, especialmente a política e os costumes.
O Bem-Amado é uma das peças teatrais mais icônicas de Dias Gomes, escrita em 1962 e encenada pela primeira vez em 1967. A peça ganhou notoriedade nacional e internacional, sendo adaptada para a televisão brasileira em 1973, transformando-se na primeira novela em cores do país e um marco na teledramaturgia. A obra se destaca por seu caráter farsesco e satírico, abordando temas universais como a corrupção, o populismo e a hipocrisia social, ambientados na fictícia cidade de Sucupira. Sua relevância perdura até hoje, sendo frequentemente revisitada e estudada em contextos acadêmicos e artísticos pela sua atemporalidade na crítica política e social.
| Tempo | Indeterminado, mas sugere a década de 1960/70. Linear, acompanhando a busca pelo primeiro defunto. |
| Espaço | Fictícia cidade litorânea de Sucupira, um cenário que simboliza o Brasil provinciano e seus vícios políticos. |
| Narrador | Na versão teatral, a narração se dá através dos diálogos e da encenação. Na versão televisiva, há um narrador onisciente. |
| Linguagem | Coloquial, com regionalismos e neologismos criados por Odorico. Linguagem rica em ironia, sarcasmo e humor. |
Dias Gomes emprega em O Bem-Amado um estilo que combina o realismo crítico com elementos da farsa e do teatro do absurdo. O humor é a ferramenta principal para a crítica social e política, disfarçando a seriedade dos temas abordados sob uma camada de comicidade. O autor utiliza a ironia e o sarcasmo de forma abundante, especialmente nos discursos empolados de Odorico Paraguaçu, que são repletos de palavras inventadas e um estilo rebuscado que esconde a falta de conteúdo real.
A personificação de vícios políticos em figuras caricatas como Odorico é um recurso literário central. As irmãs Cajazeiras, por sua vez, servem como coro grego e reforçam a crítica à hipocrisia e ao moralismo da sociedade provinciana. A metáfora do cemitério sem defunto é poderosa, simbolizando a inutilidade de obras públicas construídas por vaidade e não por necessidade. A linguagem popular misturada com o formalismo pretensioso do prefeito cria um contraste que intensifica o tom satírico da obra.
O Bem-Amado foi escrito e encenado em um período de grande efervescência política e social no Brasil, marcado pela ascensão e consolidação da Ditadura Militar. Embora a peça não faça uma crítica direta ao regime vigente na época de sua publicação, ela se utiliza de um contexto mais amplo para satirizar a política brasileira e seus vícios históricos. A figura de Odorico Paraguaçu é um arquétipo do político populista e demagogo, que promete o irrealizável e manipula as massas com discursos vazios e projetos sem sentido prático.
A obra de Dias Gomes critica a corrupção, o clientelismo e a falta de ética na gestão pública. A obsessão por um cemitério sem utilidade imediata, mas com grande apelo midiático para o prefeito, espelha a inversão de prioridades e o descaso com as reais necessidades da população. Além da crítica política, a peça aborda a hipocrisia social e o conservadorismo das pequenas cidades, representados pelas irmãs Cajazeiras, que fiscalizam a moral alheia enquanto vivem suas próprias contradições. A atemporalidade de suas críticas garante que a obra continue relevante, ecoando os debates sobre a política e a sociedade brasileiras em diferentes épocas.
Confira um resumo em vídeo sobre esta obra:
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