“O Homem de Furo na Mão e Outras Histórias”, de Dalton Trevisan, é uma coletânea de contos que mergulha nas profundezas da existência humana, especialmente na vida urbana e seus habitantes marginalizados. A obra é um retrato implacável da solidão, do desespero e da futilidade que permeiam as relações e as rotinas em ambientes citadinos. Trevisan, com sua prosa afiada e concisa, expõe as fragilidades e as depravações morais de personagens anônimos, que se movem em um cenário de opressão e falta de perspectiva.
Os enredos, muitas vezes despidos de um clímax tradicional, focam em momentos decisivos ou reveladores na vida de indivíduos comuns. Conflitos internos, frustrações amorosas, pequenas violências cotidianas e a busca por um sentido em meio ao vazio são temas recorrentes. Os personagens enfrentam suas próprias limitações e a crueldade do mundo ao redor, sem grandes dramas, mas com uma intensidade psicológica que ressoa com o leitor. A atmosfera é invariavelmente sombria, pontuada por um humor ácido e uma ironia mordaz.
Os personagens, em sua maioria, são anti-heróis: homens e mulheres comuns, muitas vezes solitários, que vivem à margem da sociedade ou em situações de profunda alienação. Prostitutas, bêbados, burocratas entediados, amantes frustrados e indivíduos com pequenos desvios de conduta populam as páginas. Eles são figuras que representam a desilusão e a impossibilidade de redenção em um mundo que parece tê-los esquecido ou condenado.
A obra explora a banalidade do mal e a complexidade das relações humanas, desnudando os impulsos mais primitivos e as pequenas hipocrisias. Trevisan não oferece respostas fáceis ou finais felizes; em vez disso, ele confronta o leitor com a crueza da realidade, forçando uma reflexão sobre a condição humana e os aspectos mais sombrios da vida em sociedade. É um convite à introspecção sobre a alienação e a busca incessante por algo que escape à mediocridade do dia a dia.
A alienação e o desespero existencial na vida urbana contemporânea, explorados através de personagens marginalizados.
Dalton Trevisan, nascido em Curitiba em 1925, é um dos mais importantes contistas da literatura brasileira contemporânea. Conhecido como “O Vampiro de Curitiba” devido à sua reclusão e à temática sombria e urbana de suas obras, Trevisan construiu uma carreira literária marcada pela originalidade e pelo rigor estilístico. Avesso a entrevistas e aparições públicas, ele dedicou-se integralmente à escrita, produzindo uma vasta e consistente obra que o consagrou como mestre do conto. Sua influência é notável na forma como retrata a sociedade brasileira, especialmente a de sua cidade natal, com um olhar crítico e muitas vezes desencantado. Recebeu diversos prêmios literários de prestígio, solidificando seu lugar no cânone literário nacional.
“O Homem de Furo na Mão e Outras Histórias” é uma coleção emblemática na bibliografia de Dalton Trevisan, representativa de seu estilo único e de sua visão perspicaz sobre a condição humana. Publicada originalmente em 1972, a obra solidificou a reputação do autor como um observador implacável das mazelas sociais e psicológicas. Cada conto é um microcosmo da vida urbana, revelando os dramas silenciosos e as pequenas tragédias de indivíduos anônimos. A coletânea é um convite para adentrar o universo particular de Trevisan, onde a Curitiba de suas histórias se torna um palco universal para as misérias e grandezas da existência humana.
| Tempo | Os contos de Dalton Trevisan frequentemente se desenrolam em um tempo cronológico linear, mas focam em recortes específicos, momentos pontuais e epifânicos na vida dos personagens, dando uma sensação de fragmentação e imediatismo. O passado é frequentemente invocado por meio de memórias ou reflexões, mas o presente é o foco principal. |
| Espaço | O cenário predominante é a Curitiba urbana (muitas vezes não nomeada explicitamente, mas reconhecível), com seus bares, ruas escuras, quartos de pensão, edifícios antigos e ambientes claustrofóbicos. O espaço é quase um personagem, refletindo a opressão e a frieza da vida moderna. |
| Narrador | O narrador é predominantemente em terceira pessoa, geralmente onisciente, que penetra nos pensamentos e emoções dos personagens. Por vezes, assume um tom irônico, sarcástico ou distanciado, reforçando a objetividade e a crítica social implícita. |
| Linguagem | A linguagem de Trevisan é seca, concisa e econômica, desprovida de floreios. Predominam frases curtas, diálogos realistas e diretos, muitas vezes chocantes em sua crueza. Há um uso intenso da ironia e do sarcasmo, e a coloquialidade se mistura a uma precisão vocabular que confere grande impacto aos textos. |
O estilo de Dalton Trevisan é inconfundível, marcado pela economia de palavras e pela intensidade dramática. Ele emprega uma linguagem seca e cortante, que vai direto ao ponto, eliminando o supérfluo para focar na essência dos conflitos humanos. A ironia e o sarcasmo são recursos constantes, utilizados para expor as hipocrisias sociais e a pequenez da existência. A fragmentação narrativa é outra característica, onde os contos são como instantâneos da vida, deixando lacunas que o leitor precisa preencher.
A elipse é frequentemente empregada, deixando subentendidos detalhes e acontecimentos, o que confere um tom enigmático e provocador às histórias. Trevisan é mestre em construir subtextos ricos, onde o não dito é tão importante quanto o dito. Sua prosa é minimalista, mas de grande profundidade psicológica, utilizando um vocabulário preciso para evocar sensações de angústia, solidão e estranhamento. A descrição de ambientes e personagens é feita com pinceladas rápidas e eficazes, criando imagens vívidas e impactantes.
Publicado em 1972, “O Homem de Furo na Mão e Outras Histórias” insere-se em um período de profundas transformações no Brasil, marcado pela urbanização acelerada e pelas tensões sociais e políticas, mesmo que o autor se mantenha distante de um engajamento político explícito. A obra reflete o mal-estar da modernidade e as consequências da vida em grandes centros urbanos, como a alienação, a solidão e a despersonalização. Trevisan tece uma crítica mordaz à sociedade burguesa e seus valores, expondo a hipocrisia, a mediocridade e a brutalidade que se escondem por trás da fachada de normalidade.
Os contos funcionam como espelhos da condição humana em um mundo em crise, onde a busca por afeto e sentido frequentemente resulta em frustração e desilusão. Há uma forte presença de questões existenciais, como a inevitabilidade da morte, a passagem do tempo e a busca por um propósito. A obra de Trevisan, portanto, dialoga com o contexto de uma sociedade em ebulição, mas o faz de uma maneira atemporal, focando em dilemas humanos universais que transcendem as especificidades de seu tempo, revelando a perversidade humana e a degradação moral inerente ao progresso desordenado.
A FURG antecipou a data do vestibular 2027 para 22 de novembro de 2026. A medida visa evitar conflitos com outros processos seletivos da região.