“O Mandarim” narra a história de Teodoro, um funcionário público lisboeta, pacato e de vida medíocre, que se depara com uma proposta inusitada em um livro antigo. O texto descreve um método para alcançar a riqueza instantânea: basta desejar a morte de um mandarim chinês desconhecido, e todo o seu patrimônio será transferido ao desejante. A única condição é que o mandarim, de fato, morra.
Inicialmente, Teodoro hesita, pois a ideia de tirar uma vida, mesmo que remotamente e de alguém que nunca conheceu, o perturba. No entanto, a tentação da fortuna fala mais alto, e, após um período de intensa deliberação, ele decide realizar o desejo. Pouco depois, recebe a notícia da morte de Tchi-King, o mandarim em questão, e, com ela, uma herança colossal.
Contrário às suas expectativas, a riqueza não traz a felicidade ou a paz desejada. Teodoro é assolado por um profundo sentimento de culpa e remorso. A sombra do mandarim morto persegue-o em seus pensamentos e alucinações, transformando sua existência em um tormento. Ele tenta fugir de sua consciência viajando pela Europa, envolvendo-se em luxos e prazeres, mas nada consegue aplacar o peso de seu ato.
Em sua busca infrutífera por redenção e paz interior, Teodoro chega a desejar devolver a fortuna e até mesmo ressuscitar o mandarim, buscando um alívio para sua aflição. A obra se aprofunda na psicologia do protagonista, explorando a futilidade do materialismo e a inerente e intransferível responsabilidade moral por nossas ações, mesmo as mais indiretas.
A futilidade da riqueza ilícita e o peso intransferível da consciência.
José Maria Eça de Queirós (1845-1900) foi um dos maiores escritores da língua portuguesa e uma figura central do Realismo em Portugal. Nascido na Póvoa de Varzim, Eça dedicou-se à advocacia e à carreira diplomática, o que o levou a viver em diversos países, como Cuba, Inglaterra e França. Sua obra, marcada pela aguçada observação social, ironia fina e um estilo literário impecável, criticou veementemente a sociedade portuguesa de sua época, expondo suas hipocrisias e vícios. Entre suas obras mais célebres estão “O Crime do Padre Amaro”, “O Primo Basílio” e “Os Maias”.
Publicado inicialmente em folhetim em 1879 e em volume em 1880, “O Mandarim” é uma novela de Eça de Queirós que se destaca por sua mistura singular de elementos do Realismo com o Fantástico e o Moralismo. A obra apresenta uma premissa aparentemente simples, mas profundamente filosófica, para explorar as complexidades da moral humana, a ilusão da riqueza e a inevitabilidade da culpa. Longe de ser apenas uma narrativa de aventura ou um conto de fadas, “O Mandarim” é uma parábola moderna sobre a ética individual e as consequências das escolhas.
| Tempo | Espaço | Narrador | Linguagem |
| Principalmente cronológico, mas com importantes passagens de reflexão e alucinações que distorcem a percepção temporal do protagonista. | Predominantemente Lisboa (no início e fim), com a China (imaginária) e diversas capitais e cidades europeias (durante as viagens de Teodoro). | Em 3ª pessoa, onisciente, com intervenções diretas e irônicas de um “narrador-diabo” que se dirige ao leitor e ao personagem. | Rica, irônica, descritiva, com um estilo elegante e preciso característico de Eça de Queirós, misturando elementos realistas e fantásticos. |
O estilo de Eça de Queirós em “O Mandarim” é uma demonstração de sua mestria, combinando a acidez crítica do Realismo com a liberdade narrativa do Fantástico. A obra é permeada por uma ironia fina e um humor sutil, utilizados para desnudar as convenções sociais e a hipocrisia da época. O autor emprega a descrição detalhada de ambientes e a análise psicológica aprofundada para revelar o tormento interior de Teodoro. Recursos como a metáfora, a hipérbole e a personificação contribuem para a atmosfera quase onírica em que se encontra o protagonista, especialmente em suas alucinações. A linguagem é sofisticada, mas acessível, revelando a preocupação de Eça com a forma e a fluidez do texto.
Publicado no final do século XIX, “O Mandarim” insere-se no período de efervescência cultural e crítica social impulsionado pelo Realismo em Portugal. A obra de Eça reflete as tensões de uma sociedade em transformação, onde os valores burgueses e o materialismo começavam a predominar. A crítica central da novela reside na futilidade da busca desenfreada por riqueza e na ilusão de que o dinheiro pode comprar a felicidade ou apaziguar a consciência. Eça expõe a hipocrisia social, a superficialidade das relações humanas e a incapacidade do dinheiro em preencher o vazio existencial. A obra questiona a moralidade individual e coletiva, sugerindo que certas culpas são intransferíveis e inescapáveis, independentemente do sucesso material alcançado.
A FURG antecipou a data do vestibular 2027 para 22 de novembro de 2026. A medida visa evitar conflitos com outros processos seletivos da região.