A aclamada obra “O Pagador de Promessas”, escrita por Dias Gomes, transporta o leitor para a Bahia da década de 60, imersa em profundos conflitos sociais e culturais. A trama tem início com a promessa de Zé do Burro, um homem simples e devoto do sertão baiano, que suplica a Santa Bárbara (sincretizada com Iansã no candomblé) pela vida de seu amado burro, Nicolau, ferido por um galho de árvore. Como gratidão pela cura, Zé decide cumprir sua promessa, que consiste em levar uma pesada cruz de madeira por sete léguas, do sertão até a Igreja de Santa Bárbara em Salvador.
Acompanhado de sua esposa, Rosa, Zé do Burro chega à capital baiana, mas sua fé inabalável logo se choca com a rigidez institucional da Igreja Católica. Ao revelar que a promessa foi feita em um terreiro de candomblé, ele é impedido de entrar no templo pelo Padre Olavo, que vê no ato de Zé uma afronta aos dogmas católicos. A recusa do padre desencadeia uma série de eventos que expõem as tensões entre o sagrado e o profano, a fé popular e a doutrina oficial, o rural e o urbano.
A obstinação de Zé do Burro em cumprir sua palavra o transforma em um espetáculo público e o coloca no centro das atenções da cidade. Um repórter sensacionalista, distorcendo os fatos e movido por interesses próprios, o retrata como um líder subversivo que apoia a reforma agrária, um tema em efervescência na época. Enquanto isso, Rosa, cansada da situação e da ingenuidade do marido, sucumbe à sedução de Bonitão, um malandro local, adicionando uma camada de drama pessoal à tragédia de Zé.
Os conflitos se intensificam com a revelação do adultério de Rosa, o que agrava a indignação de Zé. Diante da inflexibilidade da Igreja e da manipulação da imprensa e da polícia, Zé do Burro é confrontado com a incompreensão e a violência da sociedade. Sua tentativa desesperada de entrar na igreja com a cruz para finalmente cumprir sua promessa resulta em seu trágico assassinato pelo policial Secreta, que age sob a influência das versões distorcidas da mídia. A obra culmina com o corpo de Zé sendo carregado pelos capoeiristas, sobre a própria cruz, para dentro da igreja, simbolizando a vitória póstuma de sua fé e a denúncia da intransigência.
A obstinação da fé popular versus o dogmatismo religioso e a repressão social em um Brasil em transformação.
Alfredo de Freitas Dias Gomes (1922-1999) foi um dos mais importantes dramaturgos brasileiros, sendo o autor nacional mais traduzido e encenado no exterior. Nascido em Salvador, Bahia, Dias Gomes destacou-se por sua capacidade de mesclar o retrato da cultura brasileira marginalizada com profundas reflexões sobre a condição humana, a obstinação, os sacrifícios e a veia heroica da vida. Sua obra é um marco do Modernismo brasileiro, especialmente da Geração de 45, e se notabilizou pela crítica social contundente, abordando temas como a corrupção, o autoritarismo e as desigualdades. Além de “O Pagador de Promessas”, sua produção inclui peças teatrais, radionovelas e novelas televisivas de grande impacto, como “Roque Santeiro”, que foi censurada durante a ditadura militar e só pôde ser exibida integralmente em 1985.
“O Pagador de Promessas” é um dos dramas mais significativos da renovação do teatro nacional que floresceu nos anos 60. Encenada em 1960, a peça ganhou notoriedade por sua abordagem perspicaz dos contrastes do Brasil, especialmente a cisão entre a cultura rural e urbana e os choques entre diferentes realidades que pareciam incomunicáveis. A obra se insere na onda de reativação do nacionalismo crítico, valorizando a cultura genuinamente brasileira e sua capacidade de gerar transformações sociais. Sua adaptação cinematográfica, em 1962, fez história ao conquistar a primeira indicação ao Oscar de um filme brasileiro, solidificando ainda mais sua relevância e reconhecimento internacional. A peça não apenas entretém, mas também provoca uma reflexão profunda sobre a fé, a intolerância e o papel das instituições na vida do indivíduo.
| Tempo | A narrativa se desenvolve em um tempo linear e concentrado, abrangendo poucos dias, desde a chegada de Zé do Burro e Rosa a Salvador até o desfecho trágico. |
| Espaço | O principal cenário é a cidade de Salvador, Bahia, especificamente as escadarias e o entorno da Igreja de Santa Bárbara. Há um contraste implícito com o sertão baiano, de onde Zé do Burro provém. |
| Narrador | Por ser uma peça teatral, a história é apresentada através dos diálogos e ações dos personagens, sem um narrador tradicional onisciente. O espectador e o leitor acompanham os eventos em tempo presente. |
| Linguagem | A linguagem é predominantemente popular e regionalista, com diálogos que espelham a fala do povo baiano, contrastando com a formalidade e o dogmatismo da linguagem da Igreja e da imprensa. |
A obra “O Pagador de Promessas” é um exemplar notável do realismo crítico e do drama social. Dias Gomes emprega uma linguagem que capta a sonoridade e as expressões do povo nordestino, conferindo autenticidade e profundidade aos diálogos. O autor faz uso intenso de símbolos: a cruz carregada por Zé do Burro representa o sacrifício e a penitência; o burro Nicolau, a lealdade e a simplicidade; a igreja e o terreiro de candomblé, o embate entre o dogmatismo e o sincretismo religioso.
Os conflitos são construídos de forma a expor as tensões sociais e culturais da época, utilizando o personagem Zé do Burro como um catalisador das reações da sociedade. O estilo é direto, porém carregado de lirismo e uma forte dose de tragédia, culminando em um desfecho que choca e leva à reflexão sobre a intolerância e a repressão. A peça é rica em alegorias e metáforas que amplificam a crítica social e política, tornando-a uma obra atemporal.
“O Pagador de Promessas” surge em um período de intensa efervescência política e social no Brasil, na década de 1960, pouco antes do golpe militar de 1964. O país vivia um processo de modernização e urbanização acelerada, o que acentuava o contraste e os conflitos entre o Brasil rural, tradicional e de fortes raízes populares, e o Brasil urbano, industrializado e muitas vezes excludente.
Dias Gomes tece uma crítica mordaz a diversas instâncias de poder. A Igreja Católica é retratada em seu dogmatismo e burocracia, incapaz de compreender ou acolher a fé sincrética e a religiosidade popular de Zé do Burro. O Estado, por sua vez, aparece como uma força repressora, que não auxilia, mas oprime o povo por meio da polícia e de um aparelho burocrático que se distancia das necessidades dos cidadãos. A imprensa é duramente criticada pela sensacionalismo, pela distorção dos fatos e pela manipulação da opinião pública, exemplificada na forma como o repórter transforma Zé em um “subversivo” por suas supostas ligações com a reforma agrária. Essa abordagem denuncia a responsabilidade política da mídia na construção de narrativas que podem levar a tragédias pessoais e coletivas. A obra é, portanto, um espelho das contradições e injustiças de uma sociedade em transição.
A FURG antecipou a data do vestibular 2027 para 22 de novembro de 2026. A medida visa evitar conflitos com outros processos seletivos da região.