“O Pirotécnico Zacarias“, um dos contos mais célebres de Murilo Rubião, imerge o leitor em um universo onde a linha entre a vida e a morte, a realidade e o absurdo, é tênue e constantemente borrada. A narrativa acompanha Zacarias, um meticuloso e obcecado pirotécnico, que se vê em uma situação inusitada após sua própria morte. Longe de ser um fim, a morte para Zacarias é o início de uma experiência burocrática e fantástica, onde ele se torna espectador e protagonista de seu próprio funeral e dos ritos subsequentes.
O conflito central da obra reside na tentativa de Zacarias de manter a ordem e o controle sobre os eventos que se seguem à sua morte, algo que ele tanto prezava em vida. No entanto, o universo pós-morte apresentado por Rubião é caótico, regido por lógicas desconexas e uma burocracia sem sentido, que desvirtua qualquer tentativa de organização. Zacarias interage com seu próprio corpo em decomposição, que se torna um entrave físico para suas aspirações e para um novo afeto que surge.
Entre os personagens, Zacarias destaca-se por sua persistência e sua gradual aceitação do insólito. Ele se apaixona por uma mulher misteriosa, uma figura etérea que parece compartilhar seu limbo particular. Esse relacionamento é um dos pontos altos da história, pois revela a humanidade e a capacidade de conexão de Zacarias mesmo diante da dissolução física e da estranheza da sua nova condição.
O conto explora a angústia da perda de identidade e a dificuldade de transcender as amarras terrenas, mesmo após a morte. A luta de Zacarias para conciliar seu “eu” consciente com a degradação de seu corpo e as exigências do além-vida burocrático, perpassa toda a narrativa, convidando o leitor a refletir sobre a existência e a futilidade de certas preocupações humanas.
A burocracia da morte e a estranha persistência da consciência humana diante do absurdo pós-vida.
Murilo Rubião (1916-1991) foi um escritor mineiro, figura singular na literatura brasileira, conhecido por sua contribuição ao gênero fantástico. Sua obra, embora não muito extensa, é de profunda originalidade e marcou época ao introduzir uma vertente de realismo mágico no país, que dialoga com autores como Franz Kafka e Jorge Luis Borges. Nascido em Carmo de Minas, Rubião formou-se em Direito, mas dedicou grande parte de sua vida ao jornalismo e à vida pública, sendo um dos fundadores da revista “Edifício”, que reunia jovens intelectuais. Publicou seu primeiro livro, “O Ex-Mágico”, em 1947, solidificando seu estilo conciso e irônico, permeado por elementos do absurdo e do onírico. Sua escrita é caracterizada pela precisão da linguagem e pela construção de situações inverossímeis que, paradoxalmente, revelam profundas reflexões sobre a condição humana e a sociedade.
“O Pirotécnico Zacarias” é um dos contos mais representativos de Murilo Rubião, publicado originalmente em 1957. A obra é um primor do conto fantástico brasileiro, caracterizando-se por apresentar um evento extraordinário – a persistência da consciência de um homem após sua morte física – em um cenário que, de início, se apresenta como cotidiano e burocrático. A história desafia as convenções sobre a vida e a morte, convidando o leitor a suspender a descrença e a mergulhar em uma realidade onde o ilógico se torna a regra. O texto é um convite à reflexão sobre a absurdidade da existência e a maneira como lidamos com os ritos de passagem, mesmo os mais definitivos.
| Tempo | O tempo da narrativa é em grande parte psicológico e subjetivo, misturando a temporalidade da vida terrena de Zacarias com o tempo peculiar e distorcido do além. Há uma progressão linear dos eventos pós-morte (funeral, burocracia), mas o ritmo é onírico. |
| Espaço | O espaço inicia-se no ambiente familiar de Zacarias e se expande para locais como o cemitério, salas de espera de repartições burocráticas no além e um ambiente etéreo onde se encontra com a moça. Esses espaços, embora por vezes cotidianos, são subvertidos pela lógica do fantástico. |
| Narrador | O narrador é em terceira pessoa, onisciente, que acompanha Zacarias em sua experiência pós-morte, revelando seus pensamentos e percepções de forma detalhada e, por vezes, irônica. |
| Linguagem | A linguagem de Murilo Rubião é precisa, econômica e formal, contrastando com a estranheza dos eventos narrados. Há um uso cuidadoso das palavras, contribuindo para a atmosfera de verossimilhança do inacreditável, característica do realismo fantástico. |
O estilo de Murilo Rubião em “O Pirotécnico Zacarias” é a marca registrada do realismo fantástico, onde o sobrenatural e o absurdo são apresentados com uma naturalidade que os integra à realidade. A prosa é concisa, objetiva e desprovida de sentimentalismos excessivos, o que acentua o impacto das situações bizarras. Entre os principais recursos literários, destacam-se:
“O Pirotécnico Zacarias” reflete o período em que foi escrito, mas transcende as especificidades de seu tempo para abordar questões universais. A obra de Murilo Rubião não se alinha diretamente às correntes de realismo social ou regionalismo que predominavam na literatura brasileira em meados do século XX. Em vez disso, ela se volta para uma crítica mais velada e atemporal. A burocracia excessiva e a desumanização dos processos administrativos são alvos claros da sátira de Rubião. A forma como a morte é tratada, reduzida a papéis e trâmites, aponta para uma crítica à despersonalização do indivíduo em sistemas que valorizam mais as normas do que a condição humana. Embora não seja um texto diretamente engajado em movimentos políticos, a obra sublinha as falhas de um sistema que impede a individualidade e a transcendência, mesmo diante do mistério da morte.
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