O Uraguai é um poema épico de 1769 de Basílio da Gama, ambientado no que hoje é o estado brasileiro do Rio Grande do Sul. O poema é notavelmente curto para os padrões épicos, consistindo em 1.377 versos hendecassílabos sem rima em cinco cantos.
A obra se passa no final da Guerra Guaranítica (1754-1756) e foca na escravidão do povo Guarani imposta pela Companhia de Jesus (representada pelo padre Balda), o que contradizia a própria ordem da Igreja Católica. O poema é um exemplo notável de Arcadismo e Indianismo na literatura brasileira do século XVIII.
O poema é considerado único pelo tratamento dado aos personagens. Na maioria dos poemas épicos, há um herói que é, geralmente, corajoso e sempre vitorioso no final. Nesta epopeia, não vemos tal coisa. Os índios são exaltados, mas quase todos morrem no final do poema, e o autor critica as guerras movidas por interesses econômicos.
“O Uraguai” é uma obra-prima do poeta brasileiro Basílio da Gama, publicada em 1769, que se insere no contexto do Arcadismo. O poema épico utiliza a Guerra Guaranítica como pano de fundo histórico para tecer uma forte crítica aos jesuítas e exaltar a política do Marquês de Pombal. A narrativa se desenrola em um povoado indígena, onde a ação principal gira em torno dos conflitos entre os nativos, os colonizadores portugueses e espanhóis, e a influência jesuítica.
No centro da trama estão Cacambo, um valente chefe indígena que simboliza a coragem, e Lindóia, sua esposa, que representa a delicadeza e a beleza nativa. O casal vive em uma aldeia catequizada pelo padre Balda, um jesuíta espanhol que é retratado de forma pérfida. Balda, um antagonista crucial, engravida uma nativa, e sua filha, Baldeta, é vista como uma figura de má índole na comunidade. Para tentar melhorar a situação social de Baldeta, o padre trama seu casamento com Lindóia.
As maquinações de Balda contra Cacambo são um ponto central do enredo. O padre envia o guerreiro para missões perigosas, esperando sua morte, mas Cacambo sempre retorna ileso. Em uma dessas missões, Cacambo é capturado pelas tropas do General Gomes Freire de Andrade, chefe das forças portuguesas. É nesse ponto que a verdadeira natureza vil do padre jesuíta é revelada aos portugueses, que permitem que Cacambo retorne à sua aldeia para alertar sobre os perigos representados pelos jesuítas.
Ao tentar desmascarar os jesuítas em seu retorno, Cacambo é traiçoeiramente envenenado por Balda e morre. Lindóia, devastada pela perda, inicialmente reluta em aceitar a morte do marido, mas, ao se convencer de que foi o padre quem o assassinou, ela se vê forçada a concordar com o casamento com Baldeta. No dia de sua união forçada, Lindóia escolhe a morte, permitindo que uma cobra peçonhenta a pique, em uma cena descrita com traços bucólicos e fantasiosos, característicos do Arcadismo.
A exaltação da política pombalina e a condenação da Companhia de Jesus, usando a Guerra Guaranítica como pano de fundo.
José Basílio da Gama (1741-1795) foi um importante poeta brasileiro do período colonial, um dos principais nomes do Arcadismo em Portugal e no Brasil. Nascido em Tiradentes, Minas Gerais, foi educado em um colégio jesuíta, mas, paradoxalmente, tornou-se um crítico ferrenho da ordem religiosa após seu banimento do Brasil. Sua vida foi marcada por viagens e uma forte ligação com a corte portuguesa, especialmente com o Marquês de Pombal, de quem se tornou protegido. Basílio da Gama é celebrado por sua capacidade de adaptar as convenções clássicas do poema épico aos temas e paisagens brasileiros, consolidando seu lugar como uma figura central na literatura luso-brasileira.
“O Uraguai” é um poema épico em cinco cantos, publicado em 1769, que marca uma importante fase do Arcadismo brasileiro. A obra é notável por sua estrutura inovadora, escrita em decassílabos brancos (sem rima) e pela ausência de divisões estróficas rígidas, características que a diferenciam das epopeias clássicas tradicionais. O livro foi concebido com um claro objetivo político: apoiar as reformas do Marquês de Pombal e justificar a expulsão dos jesuítas, atribuindo a eles a culpa pelos conflitos entre índios e colonizadores. Para isso, Basílio da Gama utiliza a Guerra Guaranítica (1754-1756), um conflito histórico entre as tropas luso-espanholas e os índios guaranis das missões jesuíticas, como cenário para sua narrativa.
| Tempo | Espaço | Narrador | Linguagem |
| Meados do século XVIII (período da Guerra Guaranítica) | Povoado indígena nas regiões do Rio Grande do Sul e Uruguai (Sete Povos das Missões) | Terceira pessoa, onisciente e objetivo | Cultista, elevada, em decassílabos brancos, com inversões sintáticas típicas do Arcadismo. |
“O Uraguai” é um exemplo claro do Arcadismo, embora apresente inovações que o distinguem. O poema é escrito em decassílabos brancos, ou seja, versos de dez sílabas poéticas sem rima, o que confere uma sonoridade mais fluida e próxima da prosa, em contraste com as rimas complexas do Barroco. Uma característica marcante é a ausência de divisões estróficas tradicionais, o que reflete a busca arcádica pela “naturalidade” e pela quebra de formalismos excessivos. As quebras são indicadas por elementos como o epílogo, a narrativa, a dedicatória, a invocação e a proposição.
O estilo de Basílio da Gama é marcado pela descrição “fantasiosa e bucólica” de cenas, como a morte de Lindóia, que evoca um cenário campestre idealizado (locus amoenus), típico do Arcadismo, mesmo em meio à tragédia. Há um claro didatismo e uma intenção persuasiva na obra, utilizando a arte para defender uma visão política. Embora seja um poema épico, o autor evita o excesso de aparatos mitológicos greco-romanos, buscando inspiração na “mitologia dos índios” para a base do enredo, embora os elementos formais ainda sigam a tradição clássica. A linguagem é clara, concisa e racional, em oposição ao rebuscamento barroco.
A obra “O Uraguai” surge em um período de profundas transformações em Portugal e suas colônias, sob a influência do Iluminismo e das reformas implementadas pelo Marquês de Pombal. O poema reflete a política antijesuítica de Pombal, que culminou na expulsão da Companhia de Jesus de Portugal e seus domínios em 1759. A Guerra Guaranítica, ocorrida alguns anos antes, foi um conflito resultante do Tratado de Madri (1750), que redefinia as fronteiras entre os domínios espanhóis e portugueses na América do Sul e previa a entrega dos Sete Povos das Missões (território jesuítico-guarani) a Portugal.
Basílio da Gama utiliza a narrativa épica para justificar a intervenção portuguesa e a condenação dos jesuítas, retratando-os como manipuladores e inimigos do progresso e da coroa. Os índios, embora vítimas do conflito, são apresentados sob uma ótica que reforça a visão pombalina de que a influência jesuítica os impedia de se integrar à civilização luso-brasileira. A obra, portanto, é um documento literário que se alinha aos interesses da metrópole e reflete as complexas relações de poder, religião e colonização na América Portuguesa do século XVIII.
Confira um resumo em vídeo sobre esta obra:
UFPR 2021 | O URAGUAI de BASÍLIO DA GAMA
A FURG antecipou a data do vestibular 2027 para 22 de novembro de 2026. A medida visa evitar conflitos com outros processos seletivos da região.