“Olhos D’Água”, obra aclamada da escritora Conceição Evaristo, é uma coletânea de quinze contos publicada em 2014 que mergulha nas profundezas da experiência de personagens negras no Brasil. O livro, que conquistou o 3º lugar na categoria Contos e Crônicas do Prêmio Jabuti em 2015 e integra as leituras obrigatórias da Unicamp, oferece um olhar sensível e crítico sobre as vidas silenciadas pelo racismo e pelas desigualdades sociais.
A narrativa se desenrola através de histórias curtas que abordam temas pungentes como as imposições econômicas, as condições degradantes de trabalho, a fome, o abandono e a violência. Conceição Evaristo constrói um panorama multifacetado da realidade dessas pessoas, destacando a complexidade de suas existências e a constante luta pela dignidade em um contexto adverso.
Um dos aspectos mais marcantes de “Olhos D’Água” é o protagonismo feminino. Mulheres de diferentes idades e vivências – mães, idosas, crianças, ex-prostitutas e domésticas – ocupam o centro das narrativas, revelando suas forças, fragilidades e, sobretudo, sua capacidade de resistência. Os nove primeiros contos, em particular, apresentam mulheres que, de alguma forma, mantêm o controle sobre suas vidas, mesmo diante de grandes desafios.
A obra também explora a marginalização social vivida por homens negros, que em alguns contos são retratados em suas mortes violentas, evidenciando a brutalidade do racismo estrutural. Contudo, Conceição Evaristo não se limita à denúncia; ela tece narrativas de afeto, esperança e valorização da cultura de matriz africana, culminando no conto final com o nascimento de Ayoluwa, a “alegria de nosso povo”, que simboliza a renovação da esperança e a continuidade da luta.
A denúncia do racismo e da desigualdade social, com o foco na experiência de mulheres negras e na sua resistência.
Nascida em 1946 em uma favela na cidade de Belo Horizonte, Minas Gerais, Maria da Conceição Evaristo de Brito é uma das vozes mais importantes da literatura contemporânea brasileira. Sua vivência como mulher negra impacta profundamente sua produção literária, que se dedica a ecoar as vozes daqueles que foram historicamente marginalizados e excluídos da vida socioeconômica do país. Doutora em Literatura Comparada pela Universidade Federal Fluminense (UFF), Conceição Evaristo é reconhecida por sua escrita engajada, que transita entre contos, romances, poemas e ensaios, sempre com o objetivo de dar visibilidade e dignidade às narrativas afro-brasileiras.
Publicado em 2014, “Olhos D’Água” é uma coletânea de quinze contos que se destacou no cenário literário nacional ao abordar de forma crua e poética as complexidades da vida de personagens negras no Brasil. O livro não apenas consolidou Conceição Evaristo como uma voz essencial da literatura contemporânea, mas também se tornou um marco ao ser incluído na lista de leituras obrigatórias do vestibular da Unicamp a partir de 2024, além de ter sido cobrado em outras provas como a da UESB e ser constantemente cotado para o Enem. A obra foi merecidamente premiada com o 3º lugar na categoria Contos e Crônicas do Prêmio Jabuti em 2015, um reconhecimento de sua relevância e impacto. Por meio de uma linguagem rica e acessível, a autora convida o leitor a uma reflexão profunda sobre as diversas formas de opressão e as infinitas possibilidades de resistência e afeto.
A obra de Conceição Evaristo é rica em personagens secundários que compõem o tecido social das narrativas. São crianças, homens marginalizados, idosas que carregam a memória e a sabedoria ancestral, ex-prostitutas que buscam ressignificar suas vidas e domésticas que enfrentam a invisibilidade social. Embora não nomeados individualmente no resumo da obra, esses personagens coletivos são fundamentais para construir o panorama das experiências das comunidades afro-brasileiras, revelando a multiplicidade de vozes da periferia e a complexidade de suas subjetividades. Eles complementam as histórias dos protagonistas, enriquecendo o contexto e aprofundando a crítica social presente em cada conto.
| Tempo | Contemporâneo, sem uma linearidade rígida, com as histórias se desenvolvendo em diferentes momentos da vida das personagens no Brasil. |
| Espaço | Principalmente a periferia e os contextos urbanos marcados pela marginalização social, sem especificar locais geográficos exatos, permitindo uma universalização das experiências. |
| Narrador | Varia entre a primeira pessoa (narrador-personagem, como em “Olhos d’Água”) e a terceira pessoa (narrador onisciente, que conhece pensamentos e sentimentos das personagens, como em “Ana Davenga”, “Duzu-Querença” e “Maria”). |
| Linguagem | Caracterizada por um intenso uso da oralidade e de coloquialismos, como exemplificado no título “A gente combinamos de não morrer”. Apresenta uma prosa altamente poética, repleta de metáforas e uma notável expressividade sonora das palavras, combinando lirismo com a crueza da realidade. |
O estilo de Conceição Evaristo em “Olhos D’Água” é distintivo e profundamente engajado. A autora se utiliza de uma prosa poética, que se manifesta através de metáforas e de uma musicalidade intrínseca às palavras, mesmo ao abordar temas de grande peso social. A oralidade é um pilar fundamental de sua escrita, permeando as narrativas e conferindo autenticidade às vozes das personagens, que frequentemente utilizam coloquialismos, como visto no conto “A gente combinamos de não morrer”.
Um dos conceitos mais centrais e inovadores desenvolvidos por Conceição Evaristo é o da escrevivência. Este termo, uma fusão de “escrever” e “vivência”, descreve uma prática literária que emerge da memória pessoal e coletiva, transformando a experiência vivida, especialmente a de mulheres negras, em matéria-prima para a criação. A escrevivência não é apenas um estilo, mas uma filosofia que posiciona a escrita como um ato de resistência e de recontar a história a partir de um ponto de vista historicamente silenciado.
Além disso, a obra demonstra uma profunda valorização de elementos das culturas de matriz africana, seja nos nomes de personagens, que carregam significados ancestrais, ou na espiritualidade que permeia algumas histórias. Esses recursos não apenas enriquecem a tessitura literária, mas também reforçam a identidade cultural afro-brasileira e combatem a invisibilidade histórica dessas tradições. A linguagem, portanto, não é apenas um veículo para a história, mas um instrumento de poder e ressignificação cultural.
“Olhos D’Água” está inserido em um contexto histórico de persistente desigualdade racial e social no Brasil, herança de séculos de escravidão e de um racismo estrutural que ainda marginaliza profundamente as comunidades afrodescendentes. A obra de Conceição Evaristo emerge como uma potente crítica social, desvelando sem sentimentalismos a realidade da população negra no país.
Os contos abordam frontalmente questões como a fome, o abandono, a violência e as condições degradantes de trabalho, que são consequências diretas de um sistema que historicamente nega oportunidades e dignidade a essa parcela da população. A autora, através de suas narrativas, desmistifica a ideia de uma “democracia racial” e expõe as devastadoras consequências do racismo em todos os âmbitos da vida das personagens.
Apesar de focar na denúncia, a obra também é um hino à resistência e ao afeto. Conceição Evaristo dá voz a personagens que, mesmo diante de tanta opressão, encontram formas de sobreviver, amar e manter viva sua cultura. A valorização de elementos da cultura e das religiões de matriz africana nas narrativas serve como um contraponto à hegemonia eurocêntrica, afirmando a riqueza e a resiliência dessas tradições. A literatura, para Evaristo, é um espaço de visibilidade e de afirmação de identidades, transformando a dor em força e a marginalização em protagonismo.
“Olhos D’Água”, sendo uma obra de leitura obrigatória em importantes vestibulares como o da Unicamp e com forte cotação para o Enem, frequentemente gera questões que exploram os seguintes aspectos:
| Título original | Olhos D’Água |
| Autora | Conceição Evaristo |
| Ano de publicação | 2014 |
| Gênero literário | Contos |
| Número de contos | 15 |
| Prêmio | 3º lugar no Prêmio Jabuti de Literatura (categoria Contos e Crônicas, 2015) |
| Editora (original) | Pallas Editora |
Confira um resumo em vídeo sobre esta obra:
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