“Pronominais” é um conciso e impactante poema de Oswald de Andrade, publicado em sua coletânea “Pau-Brasil” (1925), que se tornou um dos manifestos poéticos mais claros do Modernismo Brasileiro. A obra, com sua estrutura aparentemente simples, estabelece um confronto direto entre a norma culta da língua portuguesa, especialmente a sintaxe de colocação pronominal (ênclise e mesóclise), e a fala coloquial do povo brasileiro.
O poema inicia com a frase imperativa “Dê-me um cigarro”, atribuída à “gramática”, ao “professor”, ao “aluno” e ao “mulato sabichão”, simbolizando a adesão às regras formais da língua. Essa locução, que posiciona o pronome átono antes do verbo (próclise) ou no meio (mesóclise) quando a gramática “manda” a ênclise, é apresentada como a norma imposta e estudada, mas distante da realidade linguística cotidiana.
O conflito surge na contraposição imediata a essa regra. A voz popular, representada pelos “bom negro e o bom branco / Da Nação Brasileira”, surge com a fala espontânea e genuína: “Me dá um cigarro”. Essa alternância é o cerne da poesia, evidenciando a tensão entre a gramática normativa europeia e a forma como o português é efetivamente falado no Brasil, com a preferência pela próclise.
Não há um enredo tradicional ou personagens com desenvolvimento psicológico. O “conflito” é puramente linguístico e cultural, refletindo a busca do modernismo por uma identidade nacional autêntica, desvinculada de modelos estrangeiros. A obra critica o pedantismo e a artificialidade da imposição gramatical, celebrando a espontaneidade e a riqueza da fala brasileira como um pilar da identidade do país.
A crítica à gramática normativa e a celebração da linguagem coloquial brasileira como expressão de identidade nacional.
Oswald de Andrade (1890-1954) foi um dos mais importantes e provocadores intelectuais do Modernismo Brasileiro. Nascido em São Paulo, foi escritor, ensaísta e dramaturgo, com uma atuação fundamental na Semana de Arte Moderna de 1922. Ao lado de Mário de Andrade, Tarsila do Amaral e outros, Oswald foi um dos idealizadores do movimento que buscava romper com as tradições artísticas e literárias europeias para forjar uma arte genuinamente brasileira. Seus manifestos, como o “Manifesto da Poesia Pau-Brasil” (1924) e o “Manifesto Antropófago” (1928), propunham a “degustação” cultural das influências estrangeiras e sua transformação em algo novo e original, sem submissão. Sua obra poética, em especial “Pau-Brasil”, e sua prosa, como “Memórias Sentimentais de João Miramar”, são marcos na literatura nacional pela irreverência, pela síntese e pela linguagem coloquial. Oswald de Andrade foi uma figura central na renovação estética e intelectual do Brasil no século XX.
“Pronominais” é um poema breve e icônico que figura na obra “Pau-Brasil”, de 1925, considerada uma das pedras fundamentais da poesia modernista brasileira. A obra de Oswald de Andrade, neste caso, serve como um microcosmo das propostas do “Manifesto da Poesia Pau-Brasil”, que buscava uma literatura livre de academicismo, ancorada na realidade brasileira, na linguagem direta e na síntese. “Pronominais” exemplifica perfeitamente essa busca ao confrontar de maneira direta e irônica a norma culta da colocação pronominal com a fala popular, expondo a artificialidade de certas regras gramaticais em face do uso corrente da língua no Brasil. É uma obra que resume o espírito de transgressão e a valorização da brasilidade que permeavam o projeto modernista de Oswald.
No poema “Pronominais”, não há personagens secundários no sentido tradicional de uma narrativa. Os termos “professor”, “aluno” e “mulato sabichão” são mencionados não como indivíduos com papel de destaque, mas como exemplares de grupos que reproduzem a norma gramatical, servindo para ilustrar a extensão da influência da gramática formal. Eles são, portanto, mais representações de tipos do que personagens propriamente ditos.
| Tempo | Contemporâneo ao modernismo (década de 1920), com foco no presente da fala cotidiana. |
| Espaço | Não há um espaço físico delimitado, mas a “Nação Brasileira” como palco do conflito linguístico. |
| Narrador | Um eu lírico que se manifesta de forma observadora, irônica e crítica, atuando como um “registrador” do embate entre a norma e o uso. |
| Linguagem | Direta, concisa, coloquial, com uso de interjeições e pontuação expressiva. Busca a espontaneidade da fala, subvertendo a norma padrão. |
O poema “Pronominais” é um exemplo primoroso do estilo sintético e irônico de Oswald de Andrade, características marcantes do Modernismo Brasileiro. Entre os recursos literários empregados, destacam-se:
“Pronominais” emerge no efervescente cenário do Modernismo Brasileiro, logo após a Semana de Arte Moderna de 1922. Este período foi marcado por uma intensa busca por uma identidade nacional autêntica na arte e na cultura, rompendo com o academicismo e o passadismo europeu. A obra de Oswald de Andrade se insere nesse contexto de redescoberta do Brasil e de valorização das suas particularidades.
As críticas sociais do poema são multifacetadas:
Confira um resumo em vídeo sobre esta obra:
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