Ambientado entre o Oriente e o Amazonas, este relato é a busca de um mundo perdido, que se reconstrói nas falas alternadas das personagens, ecos longínquos da tradição oral dos narradores orientais. Livro de estreia do autor, recebeu o Jabuti 1990 de melhor romance.
Após um longo período de ausência, uma mulher regressa a Manaus, cidade de sua infância. Deseja encontrar Emilie, a extraordinária matriarca de uma família libanesa há muito radicada ali. Encontra a casa desfeita - como desfeitas para sempre estão as casas da infância.
Situado entre o Oriente e o Amazonas, este relato é a busca de um mundo perdido, que se reconstrói nas falas alternadas das personagens, longínquos ecos da tradição oral dos narradores orientais.
Com o sopro das obras que vieram para ficar, Relato de um certo Oriente apresenta ao público o talento de um escritor, a força de seu texto envolvente e, sobretudo, lírico.
"Não se resiste ao fascínio dessa prosa evocativa, traçada com raro senso plástico e pendor lírico: viagem encantatória por meandros de frases longas e límpidas, num ritmo de recorrências e remansos." — Davi Arrigucci Jr.
“Relato de um Certo Oriente”, a aclamada obra de Milton Hatoum, transporta o leitor para a vibrante e enigmática cidade de Manaus, onde a memória e a identidade se entrelaçam em uma complexa tapeçaria de narrativas. A trama se inicia com o retorno de uma mulher à sua cidade natal após quase vinte anos de ausência, impulsionada pela iminente morte de Emilie, sua mãe adotiva. Sua chegada coincide com a noite que precede o falecimento de Emilie, lançando-a em uma intrincada busca por recordar e compreender o passado.
A partir deste ponto, a narradora embarca em uma verdadeira arqueologia da memória, não apenas a sua própria, mas também a de outros personagens que tiveram suas vidas profundamente conectadas à família. O objetivo inicial, o de escrever uma carta ao irmão em Barcelona para noticiá-lo da morte de Emilie, transforma-se em um extenso relato composto por depoimentos, lembranças e perspectivas múltiplas. Esses testemunhos se tornam fragmentos de um mosaico que, ao ser montado, revela uma Manaus marcada pelo hibridismo cultural, pela diversidade de línguas e costumes, e pela convivência de diferentes nacionalidades.
Os conflitos centrais da obra emergem das dificuldades e possibilidades do trabalho com a memória. As histórias contadas pelos diversos personagens, muitas vezes divergentes ou complementares, expõem as tensões inerentes à convivência de culturas, religiões e sentimentos distintos. A casa de Emilie, a matriarca da família, serve como um microcosmo onde essas tensões são vividas cotidianamente, refletindo as complexidades de uma cidade que é ao mesmo tempo fronteira e ponto de trânsito cultural.
O romance oscila entre a oralidade, característica dos relatos populares e da tradição de contar histórias, e a forma escrita do romance, que tenta preservar e organizar essas memórias. Incidentes como o atropelamento de Soraya Ângela e o afogamento de Emir mantêm a tensão narrativa, enquanto a busca pela verdade sobre Emilie e o passado familiar propulsiona a trama, revelando os desafios da rememoração e a fluidez da identidade em um cenário tão particular.
A obra explora a complexa construção da memória e da identidade através de múltiplas perspectivas em um cenário de intenso hibridismo cultural.
Milton Hatoum, nascido em Manaus em 1952, é um dos mais proeminentes escritores contemporâneos do Brasil. Formado em arquitetura pela Universidade de Brasília e em letras pela Sorbonne, em Paris, Hatoum é conhecido por sua prosa lírica e densa, que frequentemente explora temas como memória, identidade, exílio, relações familiares e a realidade da Amazônia. Sua obra é caracterizada por uma profunda investigação psicológica dos personagens e uma linguagem refinada. Recebeu diversos prêmios literários de prestígio, incluindo o Prêmio Jabuti, e seus livros foram traduzidos para vários idiomas, consolidando sua reputação internacional.
“Relato de um Certo Oriente”, publicado em 1989, marca a estreia de Milton Hatoum no cenário literário brasileiro e estabelece de imediato as bases de seu estilo singular. O romance foi aclamado pela crítica e pelo público, consolidando Hatoum como uma das vozes mais originais da literatura contemporânea. A obra se destaca por sua estrutura fragmentada e polifônica, onde diferentes vozes se revezam para narrar a história de uma família em Manaus, criando um mosaico de memórias e impressões. O título já sugere a atmosfera de mistério e a influência cultural oriental que perpassam a narrativa, elementos que se tornariam uma marca registrada do autor. É uma obra fundamental para compreender a poética de Hatoum e a riqueza da literatura amazônica.
| Tempo | Não-linear, com predominância de flashbacks e uma reconstrução do passado através da memória e de relatos fragmentados. |
| Espaço | Principalmente Manaus, uma cidade marcada por sua diversidade cultural e pela geografia amazônica, com referências pontuais a São Paulo e Barcelona. A casa de Emilie é um espaço simbólico central. |
| Narrador | Principalmente em primeira pessoa (a filha adotiva), mas com a incorporação de múltiplas vozes e perspectivas de outros personagens, criando um narrador polifônico. |
| Linguagem | Poética, evocativa, rica em detalhes e descrições sensoriais. Reflete uma oralidade estilizada, com frases longas e um ritmo envolvente. |
Milton Hatoum emprega em “Relato de um Certo Oriente” um estilo literário sofisticado e profundamente lírico. A prosa é marcada por frases elaboradas e um vocabulário rico, que constrói imagens vívidas da Amazônia e da cultura oriental presente em Manaus. Um dos recursos mais notáveis é a narrativa polifônica, que se manifesta através das múltiplas vozes e pontos de vista dos personagens. Essa escolha desafia a ideia de uma única verdade, sugerindo que a memória é uma construção coletiva e, muitas vezes, fragmentada.
O autor utiliza a estrutura não-linear para mimetizar o funcionamento da memória, com idas e vindas no tempo que revelam camadas do passado gradualmente. A simbologia é outro elemento chave, com objetos de arte oriental, tapetes e a própria casa de Emilie carregando significados profundos sobre identidade, pertencimento e exílio. A intertextualidade e a referência a tradições orais de contação de histórias são perceptíveis, fundindo a sabedoria ancestral com a forma do romance moderno. A ambientação em Manaus, com seu hibridismo cultural, torna-se quase um personagem, refletindo a mistura de origens e a fluidez das identidades dos habitantes.
“Relato de um Certo Oriente” não se prende a um evento histórico específico, mas sim a um contexto mais amplo de globalização cultural e as suas implicações na formação da identidade. A obra aborda indiretamente as transformações sociais e urbanas de Manaus, uma cidade que, apesar de sua localização geográfica, é um caldeirão de culturas e etnias, especialmente de imigrantes de origem árabe e oriental. A convivência e as tensões entre diferentes costumes e religiões são um pano de fundo para as relações familiares e a busca por raízes.
A crítica social pode ser percebida na maneira como Hatoum explora a dificuldade de preservar a memória e a tradição oral em uma sociedade cada vez mais dominada pela escrita e pela lógica capitalista. Há uma reflexão sobre como a modernidade pode diluir as experiências comuns e as narrativas pessoais, tornando a recuperação do passado um trabalho árduo e complexo. O romance questiona a ideia de uma identidade fixa, mostrando como ela é construída e constantemente renegociada em meio a deslocamentos geográficos e culturais.
Título: Relato de um Certo Oriente
Autor: Milton Hatoum
Ano de Publicação: 1989
Gênero: Romance
Editora: Companhia das Letras (edição mais comum)
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Confira um resumo em vídeo sobre esta obra:
resumo RELATO DE UM CERTO ORIENTE – Milton Hatoum
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