“Relíquias da Casa Velha” é uma coletânea póstuma de crônicas de Machado de Assis, publicada em 1921. Diferente de seus romances, esta obra não apresenta uma trama linear ou personagens fixos que se desenvolvem ao longo de um enredo. Pelo contrário, é um mosaico de observações perspicazes sobre o cotidiano carioca do final do século XIX e início do século XX. O autor, em sua voz inconfundível, atua como um observador arguto da sociedade, dos costumes e da alma humana.
As crônicas abordam uma vasta gama de temas, desde pequenas situações do dia a dia, como a espera por um bonde ou a leitura de um jornal, até reflexões mais profundas sobre a vida, a morte, o tempo e a condição humana. Machado de Assis utiliza seu olhar irônico e cético para dissecar as aparências sociais, revelando as contradições e hipocrisias que permeiam as relações entre as pessoas. Não há conflitos dramáticos no sentido tradicional, mas sim a tensão constante entre o que é dito e o que é pensado, entre a fachada e a essência.
Os “personagens” que surgem nessas crônicas são, muitas vezes, figuras anônimas da cidade, flagradas em momentos banais, ou o próprio narrador-cronista, que se expõe em suas dúvidas, lembranças e divagações. Há um senso de intimidade com o leitor, como se Machado convidasse a uma conversa particular sobre as miudezas e grandezas da existência. A “casa velha” do título pode ser interpretada metaforicamente como a mente do autor, um repositório de memórias, ideias e “relíquias” do pensamento.
A obra se destaca pela sua capacidade de transformar o trivial em objeto de profunda meditação. Através de uma linguagem elegante e precisa, Machado de Assis demonstra sua maestria em extrair significados profundos das cenas mais simples, convidando o leitor a uma leitura atenta e reflexiva sobre o tempo que passa e as verdades eternas que se escondem nas particularidades da vida. É um convite à introspecção e à compreensão das complexidades da sociedade e do indivíduo.
A observação sagaz das minúcias do cotidiano e das complexidades da alma humana.
Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908) é considerado o maior escritor da literatura brasileira. Nasceu no Rio de Janeiro, filho de um pintor de paredes e uma lavadeira, de origem humilde. Autodidata, superou as adversidades da época para se tornar jornalista, contista, romancista, cronista e poeta. Sua obra atravessou fases literárias, do Romantismo ao Realismo, sendo um dos maiores expoentes deste último no Brasil. Fundador e primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras, sua produção literária é marcada por uma profunda análise psicológica, ironia fina e um ceticismo em relação às convenções sociais, temas que continuam a ressoar e a ser estudados por sua atemporalidade e relevância.
“Relíquias da Casa Velha” é uma importante coletânea de crônicas machadianas, publicada postumamente em 1921, reunindo textos que o autor escreveu para jornais e revistas ao longo de sua vida. A obra oferece um panorama rico do pensamento de Machado de Assis fora do formato de romance, revelando sua perspicácia em comentar os fatos e costumes de sua época de forma concisa e envolvente. Cada crônica é uma pequena janela para o universo machadiano, onde o leitor encontra a essência de seu estilo e suas reflexões sobre a vida urbana carioca e as intrincadas relações humanas. É uma porta de entrada para a profundidade de um autor que sabia como poucos transformar o efêmero em eterno.
| Tempo | O tempo nas crônicas é predominantemente cronológico e psicológico. A cronologia refere-se ao momento de escrita e aos eventos contemporâneos da época (final do século XIX e início do XX). O tempo psicológico manifesta-se nas reflexões, lembranças e digressões do narrador, que transcendem o presente imediato. |
| Espaço | O cenário principal é o Rio de Janeiro urbano da virada do século. Ruas, praças, bondes, teatros, residências e outros espaços da capital imperial/republicana servem como pano de fundo para as observações do cronista, refletindo a efervescência e as transformações da cidade. |
| Narrador | O narrador é majoritariamente em primeira pessoa, geralmente o próprio Machado de Assis ou um alter ego que se posiciona como um observador participante do cotidiano. Sua voz é onipresente, carregada de subjetividade, ironia e um tom confessional. |
| Linguagem | A linguagem é refinada, culta e, ao mesmo tempo, acessível. Machado demonstra grande domínio da norma padrão do português, utilizando-se de um vocabulário preciso, estruturas sintáticas elaboradas e um tom que mescla seriedade, humor e uma inconfundível ironia. A prosa é fluida e convidativa à reflexão. |
O estilo de Machado de Assis em “Relíquias da Casa Velha” é a marca registrada de sua genialidade. Ele emprega uma prosa concisa e elegante, pontuada por ironia e um humor sutil que, por vezes, beira o sarcasmo. A intertextualidade e as referências culturais são comuns, demonstrando a erudição do autor. Um recurso fundamental é a metaficção, onde o próprio ato de escrever e a relação com o leitor são tematizados. A reflexão filosófica sobre a existência, o tempo e as contradições humanas é constante, muitas vezes disfarçada sob a aparente simplicidade das situações do cotidiano. A análise psicológica, característica do Realismo machadiano, permeia as crônicas, revelando as motivações e as complexidades dos indivíduos e da sociedade.
Publicada postumamente, as crônicas de “Relíquias da Casa Velha” abrangem um período de significativas transformações no Brasil, do final do Segundo Reinado à República Velha. O Rio de Janeiro, capital do país, passava por um intenso processo de urbanização e modernização, com a chegada de novas tecnologias e a consolidação de uma burguesia emergente. Machado de Assis, com seu olhar perspicaz, registra essas mudanças e, implicitamente, tece críticas sociais. Ele satiriza os costumes, a futilidade das classes dominantes, a superficialidade das relações humanas e as hipocrisias da sociedade da época. As crônicas, embora focadas no cotidiano, são um espelho do Brasil imperial e republicano, expondo as nuances da vida política, social e cultural com uma profundidade que transcende o tempo.
| Título Original | Relíquias da Casa Velha |
| Autor | Machado de Assis |
| Gênero | Crônicas |
| Ano de Publicação (póstuma) | 1921 |
| País | Brasil |
| Período Literário | Pós-Realismo (crônicas escritas ao longo do período realista e pré-modernista) |
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