“Roque Santeiro”, a célebre obra de Dias Gomes, apresenta-se como uma incisiva comédia satírica que mergulha nas profundezas da hipocrisia e da exploração da fé em uma pequena cidade do interior. A trama se desenrola em Asa Branca, um vilarejo fictício que prospera e se organiza em torno do mito de um herói local, Roque Santeiro, que supostamente morreu defendendo a cidade de um cangaceiro. Este evento o elevou à categoria de santo popular, tornando-se o pilar econômico e cultural do local.
O grande conflito da narrativa surge quando, após anos de sua glorificação póstuma, Roque Santeiro reaparece vivo. Seu retorno abala as estruturas de Asa Branca, expondo a grande farsa que sustentava a identidade e a economia da cidade. A descoberta de que o “santo” está vivo ameaça desmascarar todos que se beneficiaram de seu culto, desde líderes religiosos e políticos até comerciantes e a própria “viúva” do santo, Viúva Porcina.
Os personagens se veem em um embate entre a manutenção da lenda, lucrativa e cômoda, e a dura realidade da verdade. A obra explora com maestria a manipulação da fé, a força dos mitos na construção social e a complexa relação entre o sagrado e o profano. O retorno de Roque força a comunidade a confrontar suas próprias mentiras e a ressignificar seus valores, revelando o quão profunda pode ser a conveniência humana.
Dias Gomes constrói um enredo envolvente que, por meio do humor e da ironia, critica as mazelas sociais brasileiras, como o coronelismo, o clientelismo e a forma como a fé pode ser instrumentalizada para interesses pessoais e econômicos. A peça é um espelho da sociedade, mostrando como mitos podem ser mais poderosos do que a própria verdade para manter a ordem e o poder estabelecidos.
Alfredo de Freitas Dias Gomes (1922-1999) foi um dos mais importantes dramaturgos, romancistas e roteiristas brasileiros. Nascido em Salvador, Bahia, Dias Gomes teve uma carreira prolífica e de grande impacto tanto no teatro quanto na televisão. Sua obra é marcada por um forte engajamento social e por uma aguda capacidade de retratar os costumes e as contradições da sociedade brasileira. Foi membro da Academia Brasileira de Letras e autor de peças icônicas como “O Pagador de Promessas” (adaptada para o cinema e vencedora da Palma de Ouro em Cannes) e “O Berço do Herói”, que deu origem a “Roque Santeiro”. Sua linguagem, muitas vezes permeada por regionalismos e humor ácido, conquistou o público e a crítica, consolidando-o como um mestre da dramaturgia nacional.
“Roque Santeiro” é uma das obras mais emblemáticas de Dias Gomes, inicialmente concebida como a peça teatral “O Berço do Herói”, escrita em 1965. No entanto, devido à forte censura imposta pela ditadura militar brasileira, a peça foi proibida de ser encenada por muitos anos. Somente em 1976, com algumas adaptações e o título de “Roque Santeiro”, a obra finalmente chegou aos palcos. A trama ganhou notoriedade massiva ao ser adaptada para uma telenovela de enorme sucesso pela Rede Globo em 1985, tornando-se um fenômeno cultural e popular. A versão teatral, assim como a televisiva, é um retrato irônico e crítico da sociedade brasileira, que usa o humor para expor a manipulação de símbolos e crenças populares.
| Tempo | Espaço | Narrador | Linguagem |
| Contemporâneo à época da escrita (anos 60/70), com flashbacks que constroem a lenda de Roque Santeiro. | Asa Branca, uma cidade fictícia no interior do Nordeste brasileiro, que personifica as características de muitos povoados rurais. | Principalmente dramático (diálogos e ações dos personagens), com poucas indicações cênicas do autor. | Coloquial, permeada por regionalismos e expressões populares, rica em humor irônico e subentendido, característica do estilo de Dias Gomes. |
O estilo de Dias Gomes em “Roque Santeiro” é marcado pela verve satírica e pela agudeza na observação social. A obra se enquadra na comédia de costumes, expondo as convenções, os vícios e a hipocrisia de uma pequena comunidade. Um dos recursos literários mais proeminentes é o uso da ironia e do humor ácido para tecer críticas contundentes à manipulação da fé e aos mecanismos de poder. A construção dos personagens, muitos deles arquetípicos do universo nordestino, contribui para a identificação e o aprofundamento da crítica.
A linguagem é direta e acessível, incorporando regionalismos e o linguajar popular, o que confere autenticidade e vivacidade aos diálogos. Há também elementos de um certo realismo fantástico, na medida em que a lenda de Roque Santeiro, embora falsa, adquire uma realidade palpável na vida da cidade. A intertextualidade com a cultura popular e religiosa brasileira é constante, reforçando a crítica à exploração de símbolos e crenças. A obra explora o contraste entre a aparência e a essência, entre o mito e a verdade, como pilares de sua construção dramática.
“Roque Santeiro“, em sua gênese como “O Berço do Herói”, surgiu em um período de intensa repressão política no Brasil, durante a ditadura militar (1964-1985). A censura à peça original por sua crítica velada à fabricação de heróis e à manipulação da opinião pública é um testemunho direto do contexto histórico. A obra de Dias Gomes oferece uma crítica contundente a diversos aspectos da sociedade brasileira.
Entre as críticas sociais, destacam-se a exploração da fé popular e a credulidade para fins econômicos e políticos. A peça denuncia o coronelismo e o clientelismo, representados pelos poderosos locais que se beneficiam da manutenção do mito. Há também uma reflexão sobre a construção da identidade nacional e a forma como a verdade pode ser distorcida para atender a interesses estabelecidos. A obra, ao retratar uma comunidade que se recusa a abandonar uma mentira conveniente em favor de uma verdade incômoda, espelha as dificuldades de um país em confrontar suas próprias contradições e mitos fundadores. É uma análise perspicaz sobre o poder da manipulação e a inércia social frente à realidade.
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