A obra “São Bernardo”, de Graciliano Ramos, narra a história de Paulo Honório, um fazendeiro rude e ambicioso que decide relatar sua própria trajetória de vida. Desde a infância, marcada pela ausência de memórias sobre suas origens e a criação pela doceira Margarida, até a juventude violenta que o levou à prisão, onde aprendeu a ler e escrever, Paulo Honório é impulsionado por um desejo insaciável de ascensão social e material. Seu grande objetivo, que se torna uma obsessão, é adquirir a fazenda São Bernardo.
Para concretizar seu sonho, Paulo Honório não hesita em usar de todos os meios, lícitos e ilícitos. Através de trabalho árduo, empréstimos a juros extorsivos e manobras astutas, como a que envolveu Luís Padilha, o jovem herdeiro da fazenda, ele consegue assumir a posse de São Bernardo. Acompanhado de seu fiel e violento capanga, Casimiro Lopes, ele expande sua influência, resolvendo conflitos de divisa com brutalidade e corrompendo figuras do poder para garantir seus interesses, chegando a instalar uma escola na fazenda para agradar ao governo e contratando o falido Luís Padilha como professor.
Com a posse da terra consolidada, Paulo Honório busca um herdeiro para suas posses e decide se casar. Aproxima-se da jovem professora Madalena, inicialmente com a intenção de contratá-la para a escola, mas logo revela suas verdadeiras intenções. Madalena, após alguma hesitação, aceita a proposta de casamento, mudando-se para a fazenda. Contudo, a independência de pensamento de Madalena e sua inclinação a intervir nos negócios em favor dos empregados geram constantes atritos com Paulo Honório, que vê sua autoridade questionada.
O nascimento do filho do casal, um menino, não apazigua as tensões. Os ciúmes doentios e a desconfiança de Paulo Honório em relação à esposa, que ele não consegue controlar como um objeto, transformam a vida de Madalena em um tormento insuportável, culminando em seu trágico suicídio. Após a morte de Madalena, Paulo Honório se vê cada vez mais isolado. Os empregados se afastam, os amigos desaparecem e os negócios da fazenda declinam. Mergulhado na solidão e na decadência, ele reflete sobre sua vida, reconhecendo o vazio e o embrutecimento de sua alma, autodenominando-se um “monstro” e percebendo que sua busca obsessiva por posse o desumanizou.
A posse da terra e o poder sobre as pessoas são motores da desumanização e do isolamento do indivíduo.
Graciliano Ramos (Quebrangulo, Alagoas, 27 de outubro de 1892 – Rio de Janeiro, 20 de março de 1953) foi um dos maiores expoentes da literatura brasileira do século XX e um dos principais nomes do Modernismo, pertencente à Geração de 30. Nascido no agreste alagoano, sua experiência de vida no interior nordestino marcou profundamente sua obra, que explora temas como a miséria social, a aridez da terra e da alma humana, a opressão e a complexidade psicológica de seus personagens. Conhecido por seu estilo seco, conciso e objetivo, Graciliano foi autor de romances aclamados como “Vidas Secas”, “São Bernardo”, “Angústia” e “Caetés”, além de contos e memórias como “Infância”. Sua escrita é caracterizada pela análise profunda do comportamento humano em face das adversidades sociais e existenciais, consolidando-o como um mestre do realismo psicológico e social brasileiro.
“São Bernardo” é um dos romances mais importantes de Graciliano Ramos, publicado em 1934, durante a efervescência do Modernismo brasileiro e o período conhecido como Geração de 30. A obra se insere em um contexto de grandes transformações sociais e políticas no Brasil, vivendo a Era Vargas, um período de instabilidade e autoritarismo. Graciliano, com sua aguçada percepção, conseguiu traduzir em sua ficção o clima de tensão social e os desdobramentos psicológicos que a acompanhavam.
Diferente de “Vidas Secas”, que foca na perspectiva do oprimido, “São Bernardo” mergulha na mente do opressor. O romance é um estudo profundo sobre a ambição desmedida, o poder e a desumanização, apresentando um narrador, Paulo Honório, complexo e cheio de contradições. A trama se desenrola em um ambiente rural, típico das obras de Graciliano, e utiliza a fazenda que dá nome ao livro como um símbolo da obsessão e da derrocada moral de seu protagonista.
| Tempo | A narrativa se desenvolve em um tempo psicológico, predominantemente linear (passado para presente), com reminiscências e flashbacks constantes do narrador Paulo Honório sobre sua vida e a fazenda, abrangendo um período de sua infância até a velhice. |
| Espaço | O principal cenário é a fazenda São Bernardo, no sertão de Alagoas, que se torna um microcosmo das relações de poder e opressão. Outros espaços incluem a cadeia e os arredores da fazenda. |
| Narrador | O narrador é o próprio protagonista, Paulo Honório, em primeira pessoa (autodiegético). Ele relata os fatos de sua vida e os próprios sentimentos de forma retrospectiva e marcada por sua personalidade rude e analítica. |
| Linguagem | A linguagem é seca, concisa, econômica e objetiva, característica do estilo de Graciliano Ramos. Frases curtas, pouca adjetivação e um tom quase jornalístico refletem a mentalidade pragmática e embrutecida do narrador. |
O estilo de Graciliano Ramos em “São Bernardo” é um dos pilares da obra. Caracteriza-se pela sua notável linguagem seca e despojada, com frases curtas e uma adjetivação precisa e impactante, elementos que contribuem para a construção da personalidade rude e objetiva de Paulo Honório. Essa secura, longe de ser uma limitação, torna-se um poderoso recurso para expressar a frieza e o pragmatismo do protagonista, bem como seu progressivo embrutecimento.
Um dos recursos mais marcantes é a narrativa em primeira pessoa, que permite ao leitor adentrar a mente complexa de Paulo Honório. Através de seu relato retrospectivo, Graciliano Ramos explora o realismo psicológico, revelando as contradições, medos e angústias de um homem que, apesar de sua brutalidade, não está isento de tormentos internos. A capacidade do autor de conferir sensibilidade e sentimentos a um “monstro” autoproclamado é um testemunho de sua maestria.
A própria estrutura do romance, com a escrita de uma autobiografia por um narrador que se considera incapaz de grandes elaborações, é uma metalinguagem que reflete o estilo e a condição de Paulo Honório. A forma como a fazenda São Bernardo se confunde com a identidade do protagonista e sua decadência é um exemplo de simbolismo, onde o espaço físico espelha o estado da alma. Além disso, a presença de uma voz interior, que por vezes contradiz as ações e a autopercepção do personagem, enriquece a análise psicológica.
“São Bernardo” é profundamente enraizado no contexto histórico do Brasil dos anos 1930, período da Era Vargas. A obra de Graciliano Ramos reflete as tensões sociais, a concentração de terras e o coronelismo que marcavam o cenário rural brasileiro. Paulo Honório, com suas práticas violentas e corruptas para adquirir e manter a fazenda, personifica o poder dos grandes proprietários de terra e a fragilidade das leis e instituições frente aos interesses de uma elite agrária.
O romance tece uma crítica social contundente à lógica capitalista e à forma como a busca incessante por propriedade e lucro pode desumanizar o indivíduo. A exploração dos empregados, a manipulação política e a indiferença moral de Paulo Honório são espelhos de uma sociedade onde os valores humanos são subjugados aos bens materiais. A figura de Madalena, com sua preocupação social e sua sensibilidade, contrasta violentamente com a mentalidade do fazendeiro, expondo as fissuras sociais e as desigualdades do período.
Além disso, a obra também aborda a crítica à estrutura familiar patriarcal e à submissão feminina. Madalena não se encaixa no papel de esposa submissa esperado por Paulo Honório, e sua independência é percebida como uma ameaça, o que culmina na tragédia. Desse modo, “São Bernardo” não é apenas uma história individual, mas um poderoso painel das mazelas sociais e psicológicas de um Brasil em transformação, onde o poder e a posse corrompem e isolam.
A FURG antecipou a data do vestibular 2027 para 22 de novembro de 2026. A medida visa evitar conflitos com outros processos seletivos da região.