“Última moda” é uma coletânea de contos que mergulha nas profundezas da existência humana, explorando o grotesco, o absurdo e a solidão. A obra, publicada em 1970, marca um período de transição e experimentação na prosa de Hilda Hilst, onde a autora já demonstra a força de sua linguagem e a densidade temática que caracterizariam sua produção posterior. Cada conto apresenta um universo particular, mas todos ecoam a atmosfera de estranhamento e a busca por sentido em um mundo que parece tê-lo perdido.
Os personagens de “Última moda” são frequentemente figuras marginalizadas, excêntricas ou em estados de profunda crise existencial. Eles se debatem com dilemas internos, com a incompreensão alheia e com a própria percepção distorcida da realidade. Não há heróis convencionais; ao invés disso, a autora nos convida a observar as fissuras na psique humana, os medos latentes e as manifestações do irracional que habitam o cotidiano.
Os conflitos são predominantemente psicológicos e existenciais. A luta contra a própria loucura, a aceitação da morte, a busca por um amor que transcenda o trivial ou a simples tentativa de decifrar o comportamento do outro são recorrentes. Hilda Hilst constrói narrativas onde a fronteira entre o real e o onírico é tênue, convidando o leitor a questionar suas próprias certezas e a confrontar o incômodo.
A obra se destaca pela construção de cenários que, embora muitas vezes mundanos, são impregnados de uma aura de estranheza. A banalidade do dia a dia é subvertida por eventos inusitados ou por descrições detalhadas de pensamentos e sensações perturbadoras. “Última moda” é um convite à reflexão sobre a fragilidade da condição humana e sobre as múltiplas facetas da experiência individual em um mundo em constante desordem.
A solidão, o absurdo da existência e a busca por sentido na fragilidade humana.
Hilda Hilst (1930-2004) foi uma das mais importantes e singulares vozes da literatura brasileira. Nascida em Jaú, São Paulo, Hilda dedicou sua vida à escrita, produzindo uma obra vasta e multifacetada que abrange poesia, prosa e dramaturgia. Formada em Direito, abandonou a carreira para se dedicar integralmente à literatura e à vida em sua chácara, Casa do Sol, em Campinas, onde viveu reclusa por grande parte de sua vida, criando um universo literário próprio e inconfundível. Sua obra é marcada pela intensidade, pela profundidade filosófica e pela exploração de temas como o amor, a morte, o corpo, o misticismo e a loucura, desafiando convenções e provocando o leitor. Reconhecida tardiamente por muitos, Hilda Hilst é hoje estudada e celebrada como um cânone da literatura mundial.
“Última moda”, publicada em 1970, representa um momento crucial na trajetória de Hilda Hilst como prosadora. Esta coletânea de contos se distancia das narrativas mais lineares para adentrar um terreno de experimentação formal e temática, características que se aprofundariam em obras posteriores da autora. A obra serve como um vislumbre das preocupações filosóficas e existencialistas de Hilst, já apresentando a complexidade psicológica de seus personagens e a peculiaridade de sua linguagem. É um livro que desafia o leitor a confrontar o incomum e a mergulhar em atmosferas muitas vezes inquietantes.
Em “Última moda”, os personagens secundários servem principalmente para realçar as idiossincrasias dos protagonistas ou para criar o ambiente opressivo ou estranho que permeia os contos.
Vizinhos curiosos, transeuntes indiferentes, familiares distantes ou figuras que aparecem brevemente, contribuindo para a atmosfera de isolamento ou para o desenvolvimento de eventos inesperados. Muitas vezes, a presença de outros personagens serve para acentuar a solidão do protagonista ou para contrastar com sua intensidade interna.
| Tempo | O tempo nas histórias de “Última moda” é frequentemente subjetivo e psicológico. Embora haja uma progressão cronológica em alguns contos, a percepção dos personagens sobre o tempo e a duração dos eventos são mais importantes, criando uma atmosfera atemporal ou de suspensão. |
| Espaço | Os espaços variam bastante entre os contos, indo de ambientes urbanos, casas isoladas, cômodos claustrofóbicos a paisagens oníricas. O espaço não é apenas um pano de fundo, mas um elemento ativo que reflete e amplifica os estados psicológicos dos personagens, contribuindo para a atmosfera de estranhamento e confinamento. |
| Narrador | Predominantemente narrador em terceira pessoa, onisciente, que penetra na psique dos personagens, revelando seus pensamentos mais íntimos, angústias e delírios. Em alguns casos, pode haver a primeira pessoa, aprofundando a subjetividade e o tom confessional. |
| Linguagem | A linguagem de Hilda Hilst é densa, poética e altamente elaborada. Rica em metáforas, simbolismos e imagens sensoriais, ela é capaz de criar uma atmosfera de lirismo e perturbação. O vocabulário é sofisticado, e a sintaxe muitas vezes complexa, exigindo uma leitura atenta. Há uma exploração das potencialidades da palavra para expressar o inefável e o grotesco. |
O estilo de Hilda Hilst em “Última moda” é marcado por sua originalidade e intensidade. A autora emprega uma prosa que beira o poético, com frases muitas vezes longas e complexas, repletas de inversões sintáticas e um vocabulário erudito. A intertextualidade, embora sutil, pode aparecer em referências filosóficas ou religiosas, enriquecendo o tecido narrativo. A ambiguidade é um recurso constante, deixando abertas múltiplas interpretações e convidando o leitor a preencher lacunas. A fragmentação da narrativa e a desconstrução de uma lógica linear contribuem para a sensação de estranhamento e para a exploração de múltiplos pontos de vista sobre a realidade. Há um uso intenso de figuras de linguagem como metáforas, comparações e hipérboles, que constroem imagens vívidas e perturbadoras, essenciais para a atmosfera dos contos. O fluxo de consciência permite ao leitor adentrar os pensamentos mais profundos e desordenados dos personagens, revelando suas crises e delírios. O grotesco e o surreal são explorados para desestabilizar as convenções e expor as tensões da existência humana.
“Última moda” foi publicada em 1970, em plena ditadura militar no Brasil. Embora a obra de Hilda Hilst não seja diretamente engajada em protestos políticos explícitos, seu mergulho no universo psicológico e na crise existencial pode ser lido como uma forma de resistência indireta. Em um período de censura e repressão, a autora explorava a liberdade do pensamento, as angústias individuais e as fissuras da sociedade, muitas vezes através do insólito e do perturbador.
As críticas sociais na obra são mais veladas e se manifestam na observação da superficialidade das relações humanas, na alienação do indivíduo na sociedade moderna e na busca vazia por aparências (sugerida pelo título “Última moda”). Hilst expõe a desumanização, a solidão intrínseca ao ser e a falência de certos valores em um mundo que privilegia o material em detrimento do espiritual e do profundo. A obra questiona a normalidade, revelando o quão tênue é a linha entre a sanidade e a loucura, e desafia o leitor a confrontar as verdades incômodas sobre a condição humana em qualquer contexto.
Confira um resumo em vídeo sobre esta obra:
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