
Direto ao assunto
- Resumo rápido
- O que é contexto e por que ele muda o sentido
- O produtor: quem fala importa
- O destinatário: para quem o texto se dirige
- A finalidade: o que o texto quer conseguir
- Época e lugar: quando e onde o texto circula
- Suporte e gênero: onde o texto aparece e em que forma
- Intertextualidade: nenhum texto é uma ilha
- Contexto histórico e social, intencionalidade e inferência
- Como o ENEM cobra os fatores de contextualização
- Tabelas de revisão
- Mapa mental
- SAQ — Perguntas e respostas rápidas
- Questões comentadas
- Dica do professor
- Atenção / cuidado
- Conexão com outras áreas
- Incidência
Fatores de contextualização: o que cai no ENEM e nos vestibulares
Resumo rápido
Nenhum texto nasce no vazio. Uma mesma frase pode ser um elogio, uma ironia ou uma ofensa — tudo depende do contexto em que ela aparece. É por isso que o ENEM e os vestibulares cobram tanto os fatores de contextualização: os elementos que cercam a produção e a recepção de um texto e que determinam o seu sentido. Quem escreveu? Para quem? Com que intenção? Em que época e lugar? Em que suporte e em que gênero? Responder a essas perguntas é o primeiro passo para interpretar qualquer texto — e é exatamente isso que as questões de Língua Portuguesa pedem.
Os principais fatores de contextualização são: o produtor (quem escreve ou fala), o destinatário (para quem o texto se dirige), a finalidade (o objetivo do texto), a época e o lugar (quando e onde ele circula), o suporte (onde ele aparece: jornal, livro, rede social, cartaz), o gênero textual (notícia, crônica, charge, anúncio) e a intertextualidade (o diálogo com outros textos). Somam-se a eles o contexto histórico e social, a intencionalidade e a inferência, que é o que o leitor precisa deduzir a partir das pistas do texto.
Se você guardar uma ideia, guarde esta: o sentido não está só nas palavras — ele está na relação entre as palavras e o contexto. Quem lê sem considerar o contexto corre o risco de entender o contrário do que o texto quis dizer.
O que é contexto e por que ele muda o sentido
Imagine a frase “Que ótimo!”. Dita por alguém que acaba de ganhar um presente, ela é um elogio sincero. Dita por alguém que acaba de furar o pneu do carro na chuva, ela é pura ironia. As palavras são as mesmas; o que muda é o contexto. Por isso, os estudiosos da linguagem dizem que todo texto é situado: ele só ganha sentido completo quando levamos em conta a situação em que foi produzido e em que é lido.
Contextualizar um texto é, portanto, reconstruir essa situação: identificar quem fala, para quem fala, com que objetivo, em que momento histórico, em que lugar, em que veículo e em que gênero. O ENEM trabalha muito com essa habilidade porque ela é a base da leitura crítica. Uma questão pode trazer uma charge de 1960 sobre a televisão, um anúncio atual de refrigerante e um trecho de crônica — e, em todos os casos, o que se pede é que o estudante perceba como o contexto molda o sentido.
Vale distinguir dois tipos de contexto que aparecem nas provas. O contexto de produção é a situação em que o texto foi criado: o autor, a época, o lugar, o suporte e a intenção original. O contexto de recepção é a situação em que o texto é lido: quem lê, quando lê e com que repertório lê. Um texto antigo lido hoje, por exemplo, pode ganhar sentidos que o autor nem imaginou — é o caso de poemas e músicas que viram hinos de protesto décadas depois de escritos. Nas questões, preste atenção: às vezes o enunciado pergunta sobre a produção, às vezes sobre a recepção, e confundir as duas coisas leva ao erro.
Outra distinção útil é entre contexto linguístico e contexto extralinguístico. O contexto linguístico, também chamado de cotexto, é o que está ao redor da palavra dentro do próprio texto: as frases antes e depois dela. O contexto extralinguístico é tudo o que está fora do texto: a época, o lugar, os costumes, os conhecimentos compartilhados entre autor e leitor. Os dois trabalham juntos na construção do sentido, e as questões do ENEM exploram os dois.
O produtor: quem fala importa
O produtor é quem elabora o texto: o autor, o jornalista, o publicitário, o chargista, o internauta. A identidade do produtor — sua profissão, sua posição social, sua visão de mundo, sua instituição — influencia o que ele diz e como ele diz. Um editorial de jornal não tem o mesmo tom de uma postagem pessoal em rede social, e um texto assinado por um cientista não carrega a mesma autoridade de um texto anônimo.
Na leitura, vale perguntar: quem está falando? Essa pessoa ou instituição tem interesse no assunto? Ela fala como especialista, como testemunha, como porta-voz de um grupo? Um texto de uma empresa sobre o próprio produto, por exemplo, tende a destacar qualidades e esconder defeitos — é a lógica da propaganda. Já um texto de um órgão de defesa do consumidor sobre o mesmo produto tende a destacar riscos e direitos. O produtor, portanto, é a primeira pista sobre a confiabilidade e a intenção do texto.
Cuidado com um detalhe: em muitos textos, quem fala não é uma pessoa, mas uma voz construída dentro do texto, como o narrador de um conto ou o eu lírico de um poema. Nesses casos, não confunda o narrador com o autor real: o narrador é uma criação do texto, e o ENEM adora testar essa diferença, sobretudo em questões de Literatura.
O destinatário: para quem o texto se dirige
Todo texto é escrito para alguém — e esse alguém molda o texto. O destinatário, ou interlocutor, é o público-alvo: pode ser uma criança, um especialista, um consumidor, um eleitor, a população em geral. O autor escolhe o vocabulário, o tom, os exemplos e até o tamanho das frases pensando em quem vai ler.
Compare: uma bula de remédio usa linguagem técnica e impessoal, porque se dirige a profissionais e pacientes que precisam de precisão; um folheto de campanha de vacinação usa linguagem simples, direta e afetiva, porque precisa convencer toda a população, inclusive quem tem pouca escolaridade. O mesmo conteúdo — “tome o remédio assim” — ganha formas completamente diferentes conforme o destinatário.
As questões do ENEM exploram muito essa relação. Um enunciado clássico pede que se identifique “a quem se destina” um texto, ou pergunta qual recurso linguístico foi usado “considerando o público-alvo”. Quando você vir uma questão assim, procure as marcas do texto: o uso de “você”, de gírias, de termos técnicos, de imperativos (“faça”, “participe”, “vote”) — todas são pistas sobre quem o autor imaginou do outro lado.
A finalidade: o que o texto quer conseguir
A finalidade, ou objetivo, é o que o produtor pretende com o texto: informar, convencer, emocionar, ensinar, divertir, vender, denunciar. Ela está ligada às funções da linguagem e, sobretudo, ao gênero textual escolhido. Uma notícia tem a finalidade de informar; um anúncio, de persuadir; uma crônica, de entreter e refletir; um manual, de instruir.
Identificar a finalidade é um dos comandos mais frequentes do ENEM: “o texto tem como objetivo…”, “a intenção do autor é…”, “o propósito comunicativo do texto é…”. Para acertar, não se prenda a uma única palavra do texto: leia o conjunto. Um texto que apresenta dados, cita especialistas e usa linguagem neutra provavelmente quer informar; um texto que usa adjetivos elogiosos, imperativos e promessas provavelmente quer vender ou convencer.
Atenção: um texto pode ter mais de uma finalidade. Uma campanha publicitária de um banco, por exemplo, quer vender um produto, mas também quer construir uma imagem positiva da marca. Uma charge quer divertir, mas também criticar. Quando a questão pedir a finalidade predominante, escolha a que organiza o texto inteiro, não um detalhe isolado.
Época e lugar: quando e onde o texto circula
A época em que um texto foi produzido marca profundamente o seu sentido. Palavras mudam de significado com o tempo, costumes mudam, e referências que eram óbvias para os leitores da época podem ser opacas para nós. Um anúncio dos anos 1950 que mostra uma mulher apenas como dona de casa, por exemplo, só é compreendido — e criticado — quando lembramos dos papéis de gênero daquela época. Sem a época, o texto vira anacronismo, ou seja, um julgamento do passado com os olhos do presente, sem considerar o contexto histórico.
O lugar também conta: o local de produção e de circulação do texto, a região, o país, o ambiente (uma escola, um hospital, uma praça). Um cartaz colado na porta de uma escola tem um público e um efeito diferentes do mesmo cartaz colado em um estádio. E as variedades regionais da língua — o vocabulário, a pronúncia, as expressões de cada região — são marcas de lugar que o ENEM valoriza, sempre na perspectiva de que não existe variedade “certa” ou “errada”, mas variedades adequadas a cada contexto.
Na prática, quando a questão trouxer a data ou o local de publicação do texto no cabeçalho, não ignore essa informação: ela quase sempre é a chave da resposta. O ENEM costuma colocar a fonte e a data justamente para que o estudante use esses dados na interpretação.
Suporte e gênero: onde o texto aparece e em que forma
O suporte é o meio físico ou virtual em que o texto circula: o jornal, a revista, o livro, o cartaz, o outdoor, o site, a rede social, o rádio, a televisão. O suporte limita e possibilita: um tuíte precisa ser curto; um cartaz precisa chamar a atenção à distância; um artigo científico precisa de referências e de linguagem formal. O mesmo conteúdo muda de forma quando muda de suporte — compare uma notícia de jornal com um vídeo curto sobre o mesmo fato em uma rede social.
Já o gênero textual é a forma relativamente estável que o texto assume em cada situação social: notícia, reportagem, editorial, carta, e-mail, receita, bula, charge, tirinha, anúncio, crônica, conto, poema. Cada gênero tem uma estrutura, um estilo e uma finalidade próprios, que os leitores reconhecem de imediato. Quando você abre um jornal e vê um texto com título, subtítulo, lide e foto, já sabe que é uma notícia — antes mesmo de ler a primeira linha.
As provas exploram o gênero de duas maneiras: pedindo que se identifique o gênero a partir de suas marcas, ou pedindo que se perceba como as características do gênero servem à finalidade do texto. Um exemplo clássico: uma charge usa humor e exagero para criticar um fato político — o humor não é “só piada”, é o recurso argumentativo do gênero. Outro: um anúncio usa imagens atraentes e frases curtas de efeito porque precisa convencer rápido quem passa correndo pelo outdoor.
Intertextualidade: nenhum texto é uma ilha
A intertextualidade é o diálogo de um texto com outros textos. Quase todo texto cita, imita, parodia ou responde a textos anteriores, e reconhecer esse diálogo é parte da interpretação. A intertextualidade pode ser explícita, quando o texto cita diretamente outro texto, com aspas ou referência, ou implícita, quando o diálogo acontece sem citação, por alusão, paródia ou imitação de estilo — e o leitor precisa ter repertório para percebê-lo.
Um exemplo famoso: propagandas que parodiam contos de fadas, músicas que citam versos de outros compositores, charges que recriam pinturas clássicas com personagens atuais. Em todos esses casos, o sentido só se completa para quem reconhece o texto original. É por isso que a intertextualidade está ligada ao repertório do leitor: quanto mais textos você conhece, mais camadas de sentido você percebe.
No ENEM, a intertextualidade aparece com força em questões que colocam dois textos lado a lado — um texto-base e um texto que o retoma — e perguntam qual é a relação entre eles: se o segundo confirma, critica, ironiza ou atualiza o primeiro. Preste atenção aos verbos do enunciado: “retoma”, “dialoga com”, “parodia”, “faz referência a” são sinais de que a questão é de intertextualidade.
Contexto histórico e social, intencionalidade e inferência
O contexto histórico e social é o pano de fundo mais amplo: os acontecimentos, os valores, os conflitos e as condições de vida da sociedade em que o texto foi produzido. Um discurso sobre direitos civis nos anos 1960, uma campanha de saúde pública durante uma epidemia, um poema escrito durante uma ditadura — todos ganham sentidos que só se abrem quando conhecemos o momento histórico. É aqui que a História e a Sociologia se encontram com a Língua Portuguesa, e é por isso que o repertório sociocultural conta tanto na prova e na Redação.
A intencionalidade é a intenção do produtor, aquilo que ele quis comunicar — que nem sempre coincide com o que o leitor entendeu. Um texto irônico, por exemplo, diz o contrário do que parece dizer, e só quem percebe a intenção irônica entende o texto corretamente. A intencionalidade se revela por marcas linguísticas: a escolha das palavras, o tom, a pontuação, o exagero, o uso de aspas. Perder a intencionalidade é perder o texto.
Por fim, a inferência é o que o leitor deduz a partir das pistas do texto e do seu conhecimento de mundo, sem que esteja dito explicitamente. Quando um texto diz que “a sala ficou em silêncio quando o diretor entrou”, inferimos que o diretor impõe respeito ou medo — o texto não diz isso, mas sugere. O ENEM cobra inferência o tempo todo: questões que pedem o que se pode “depreender”, “inferir” ou “concluir” do texto exigem que você junte as pistas textuais com o contexto, sem inventar informações que o texto não autoriza.
Como o ENEM cobra os fatores de contextualização
As questões de Linguagens do ENEM raramente pedem a definição decorada de um fator. O padrão é outro: a prova apresenta um texto — uma charge, um anúncio, uma crônica, um trecho de romance, uma campanha — acompanhado de sua fonte e data, e pergunta sobre a finalidade, o público-alvo, o efeito de sentido de um recurso, a relação entre dois textos ou a adequação da linguagem ao contexto. Ou seja: a teoria só serve se virar ferramenta de leitura.
Alguns comandos são recorrentes e vale reconhecê-los de imediato. “Considerando o contexto de produção, o texto…” pede que você use autor, época, lugar e suporte. “O uso de [tal recurso] tem como objetivo…” pede finalidade e efeito de sentido. “O texto se dirige a…” pede destinatário. “A linguagem empregada é adequada porque…” pede a relação entre registro linguístico e contexto. E “o segundo texto, em relação ao primeiro…” pede intertextualidade.
Um treino eficiente é ler textos variados sempre com as mesmas perguntas na cabeça: quem escreveu, para quem, com que intenção, quando, onde, em que suporte, em que gênero e com que outros textos ele dialoga. Depois de algumas semanas fazendo isso, a contextualização vira reflexo — e as questões de interpretação, que assustam tantos estudantes, passam a ser as mais rápidas da prova.
Tabelas de revisão
| Fator de contextualização | O que observar | Pergunta-guia |
|---|---|---|
| Produtor | Quem escreve ou fala; sua posição, instituição e interesse no assunto | Quem está falando e com que autoridade? |
| Destinatário | Para quem o texto se dirige; o público-alvo imaginado pelo autor | Para quem o texto foi escrito? |
| Finalidade | O objetivo do texto: informar, convencer, emocionar, instruir, divertir | O que o texto quer conseguir? |
| Época | Quando o texto foi produzido; os valores e fatos daquele momento | Quando isso foi escrito e o que isso muda no sentido? |
| Lugar | Onde o texto circula; a região, o ambiente e as marcas regionais da língua | Onde o texto aparece e para qual comunidade? |
| Suporte | O meio em que o texto circula: jornal, livro, cartaz, rede social | Onde o texto foi publicado e o que isso impõe à sua forma? |
| Gênero textual | A forma do texto: notícia, crônica, charge, anúncio, carta, poema | Que gênero é esse e quais são suas marcas? |
| Intertextualidade | O diálogo com outros textos: citação, alusão, paródia, imitação | Com que outros textos este texto conversa? |
| Contexto histórico e social | Os acontecimentos e valores da sociedade em que o texto surgiu | Que momento histórico explica este texto? |
| Intencionalidade | A intenção do produtor, revelada por marcas como tom, ironia e exagero | O que o autor realmente quis dizer? |
| Inferência | O que o leitor deduz das pistas do texto e do seu conhecimento de mundo | O que se pode concluir, mesmo sem estar escrito? |
| Comando do ENEM | O que a questão pede | Fator principal |
|---|---|---|
| “O texto tem como objetivo…” | Identificar o propósito comunicativo do texto | Finalidade |
| “O texto se dirige a…” | Identificar o público-alvo | Destinatário |
| “Considerando o contexto de produção…” | Usar autor, época, lugar e suporte na interpretação | Produtor, época, lugar e suporte |
| “O uso de [recurso] tem como efeito…” | Relacionar um recurso linguístico ao sentido que ele produz | Intencionalidade |
| “O segundo texto, em relação ao primeiro…” | Identificar a relação entre dois textos | Intertextualidade |
| “A linguagem é adequada porque…” | Relacionar o registro linguístico ao contexto e ao público | Destinatário e gênero |
| “Depreende-se / infere-se do texto que…” | Deduzir o que está sugerido, sem estar explícito | Inferência |
| “O humor / a ironia do texto decorre de…” | Perceber o contraste entre o dito e o pretendido | Intencionalidade e contexto |


Mapa mental
- Fatores de contextualização
- Contexto — a situação que envolve o texto e determina seu sentido
- Contexto de produção (quem criou, quando, onde, com que intenção)
- Contexto de recepção (quem lê, quando lê, com que repertório)
- Contexto linguístico (o que está ao redor da palavra no texto) e extralinguístico (época, lugar, costumes)
- Produtor — quem fala; sua posição, instituição e interesse influenciam o texto; não confundir autor com narrador
- Destinatário — para quem o texto se dirige; molda vocabulário, tom e exemplos; pistas: “você”, gírias, termos técnicos, imperativos
- Finalidade — o que o texto quer conseguir: informar, convencer, emocionar, instruir, divertir, vender, denunciar
- Época e lugar — quando e onde o texto circula; palavras e costumes mudam com o tempo; atenção à data e à fonte no cabeçalho
- Suporte — o meio: jornal, livro, cartaz, rede social; cada suporte impõe limites e possibilidades à forma
- Gênero textual — notícia, crônica, charge, anúncio, carta, poema; cada gênero tem estrutura, estilo e finalidade próprios
- Intertextualidade — diálogo com outros textos: explícita (citação) ou implícita (alusão, paródia); exige repertório do leitor
- Contexto histórico e social — o pano de fundo: acontecimentos, valores e conflitos da sociedade em que o texto surgiu
- Intencionalidade — a intenção do produtor; revela-se por tom, ironia, exagero, pontuação e escolha das palavras
- Inferência — o que o leitor deduz das pistas do texto e do seu conhecimento de mundo, sem estar escrito
- Como o ENEM cobra — finalidade, público-alvo, efeito de sentido, relação entre textos, adequação da linguagem; nunca definição decorada, sempre leitura do texto no contexto
- Contexto — a situação que envolve o texto e determina seu sentido
SAQ — Perguntas e respostas rápidas
1. O que são fatores de contextualização?
São os elementos que cercam a produção e a recepção de um texto — produtor, destinatário, finalidade, época, lugar, suporte, gênero, intertextualidade e contexto histórico e social — e que determinam o seu sentido.
2. Qual a diferença entre contexto de produção e contexto de recepção?
O contexto de produção é a situação em que o texto foi criado (autor, época, lugar, intenção original). O contexto de recepção é a situação em que o texto é lido (quem lê, quando lê e com que repertório). Um texto antigo lido hoje pode ganhar sentidos novos.
3. Por que o destinatário muda a forma do texto?
Porque o autor escolhe vocabulário, tom, exemplos e estrutura pensando em quem vai ler: uma bula usa linguagem técnica e precisa; um folheto de vacinação usa linguagem simples e afetiva para alcançar toda a população.
4. O que é suporte e como ele influencia o texto?
Suporte é o meio em que o texto circula — jornal, livro, cartaz, rede social. Cada suporte impõe limites e possibilidades: um tuíte precisa ser curto, um cartaz precisa chamar a atenção à distância, um artigo científico exige referências e linguagem formal.
5. Qual a diferença entre intertextualidade explícita e implícita?
A explícita cita diretamente outro texto, com aspas ou referência. A implícita dialoga sem citar, por alusão ou paródia, e só é percebida por quem conhece o texto original.
6. O que é inferência na leitura?
É o que o leitor deduz a partir das pistas do texto e do seu conhecimento de mundo, sem que esteja dito explicitamente. Por exemplo: se o texto diz que a sala silenciou quando o diretor entrou, inferimos que ele impõe respeito.
7. Por que a ironia depende da intencionalidade?
Porque na ironia o autor diz o contrário do que pretende comunicar, e só quem percebe essa intenção — por marcas como tom, exagero e contexto — entende o texto corretamente. Sem a intenção, a ironia vira elogio ou ofensa literal.
8. Como reconhecer uma questão de contextualização no ENEM?
Pelos comandos: “o texto tem como objetivo”, “o texto se dirige a”, “considerando o contexto de produção”, “o segundo texto, em relação ao primeiro” e “depreende-se do texto” — todos pedem que se leia o texto dentro da sua situação, e não palavra por palavra.
Questões comentadas
Questão 1. Um cartaz afixado na entrada de uma escola pública anuncia, com letras grandes e coloridas e uma ilustração de crianças sorrindo: “Vacinação neste sábado, das 8h às 17h. Traga a carteirinha!”. Considerando o contexto de produção do texto, é correto afirmar que:
a) o texto se dirige a especialistas em saúde, pois usa termos técnicos da medicina.
b) o texto se dirige às famílias da comunidade escolar, pois usa linguagem simples e direta e está afixado na escola.
c) o texto tem como finalidade entreter os alunos, pois usa cores e ilustrações.
d) o texto é um anúncio comercial, pois divulga um serviço.
e) o texto se dirige apenas aos professores, pois está dentro da escola.
Gabarito: B. O suporte (cartaz na escola), a linguagem simples e o conteúdo (vacinação de crianças, com carteirinha) indicam que o destinatário são as famílias da comunidade escolar. As cores e ilustrações servem para chamar a atenção, não para entreter (C), e o serviço divulgado é público, não comercial (D).
Questão 2. Um estudante lê a frase “Que maravilha de trânsito!” dita por um motorista parado há uma hora em um engarrafamento, sob chuva forte. O sentido correto da frase só é compreendido se o leitor considerar, sobretudo:
a) o dicionário, pois o sentido das palavras nunca muda.
b) a intencionalidade e o contexto da situação, pois o motorista diz o contrário do que pensa, em tom irônico.
c) a gramática normativa, pois a frase está construída segundo a norma culta.
d) o suporte, pois a frase foi dita em um carro.
e) a época, pois engarrafamentos só existiam no passado.
Gabarito: B. As palavras são elogiosas, mas a situação — uma hora parado, sob chuva — revela a intenção irônica: o motorista diz o contrário do que pensa. Sem o contexto e a intencionalidade, o leitor entenderia um elogio sincero, o oposto do pretendido.
Questão 3. Uma propaganda de suco de laranja mostra uma família tomando café da manhã ao sol, com o slogan “O sabor da manhã em família”. Meses depois, outra marca lança uma propaganda com a mesma cena — a mesma mesa, o mesmo sol — mas com o slogan “O sabor da manhã, sem a família por perto, porque você merece silêncio”. A relação entre a segunda propaganda e a primeira é de:
a) intertextualidade por paródia, pois a segunda retoma a cena da primeira para inverter o seu sentido.
b) plágio, pois toda retomada de outro texto é proibida.
c) coincidência, pois propagandas não dialogam entre si.
d) tradução, pois a segunda propaganda foi escrita em outra língua.
e) resumo, pois a segunda propaganda apenas repete a primeira.
Gabarito: A. A segunda propaganda retoma deliberadamente a cena da primeira e inverte o seu sentido — de “família” para “silêncio” —, o que caracteriza a paródia, uma forma de intertextualidade implícita. Não se trata de mera repetição (E) nem de coincidência (C).
Questão 4. Um jornal publica, na mesma edição, duas matérias sobre a construção de uma praça: uma na seção de esportes, destacando a nova quadra, e outra na seção de economia, destacando os empregos gerados pela obra. A diferença de enfoque entre as duas matérias se explica, principalmente:
a) pela época, pois as matérias foram publicadas em anos diferentes.
b) pelo destinatário e pela finalidade de cada seção, pois cada texto seleciona os aspectos do fato que interessam ao seu público.
c) pelo gênero, pois uma matéria é notícia e a outra é poema.
d) pela intertextualidade, pois as matérias copiam uma à outra.
e) pelo suporte, pois as matérias foram publicadas em jornais diferentes.
Gabarito: B. As duas matérias tratam do mesmo fato, mas cada seção se dirige a um público com interesses diferentes e, por isso, seleciona e destaca aspectos diferentes do fato. O suporte é o mesmo jornal (E), e o gênero é o mesmo (C).
Questão 5. Uma crônica publicada em 1950 descreve, com naturalidade, uma mulher que passa o dia inteiro cuidando da casa enquanto o marido trabalha fora. Um estudante de hoje, ao ler a crônica, estranha essa naturalidade. Para interpretar corretamente o texto, o estudante deve considerar, em primeiro lugar:
a) que o texto está errado, pois a situação descrita nunca existiu.
b) a época e o contexto histórico e social de produção, pois os papéis de gênero de 1950 eram diferentes dos atuais.
c) o suporte, pois crônicas só circulam em livros.
d) a intertextualidade, pois a crônica copia outro texto.
e) que a crônica deve ser julgada apenas pelas regras gramaticais de hoje.
Gabarito: B. O estranhamento do leitor de hoje se explica pela distância histórica: em 1950, a divisão de papéis descrita era a norma social. Julgar o texto apenas com os olhos do presente seria anacronismo. A informação da data de publicação, no cabeçalho, é a chave da questão.
Questão 6. Um manual de instruções de um eletrodoméstico usa frases curtas no imperativo — “Desligue da tomada”, “Não molhe o aparelho”, “Leia antes de usar” — e nenhuma figura de linguagem. Essa escolha linguística se justifica, sobretudo, porque:
a) o gênero manual tem finalidade instrucional e se dirige a usuários que precisam de clareza e segurança.
b) o autor do manual não conhece figuras de linguagem.
c) o suporte do manual é o papel, que não comporta metáforas.
d) o manual foi escrito em outra época, quando não existiam metáforas.
e) o destinatário do manual é um especialista em literatura.
Gabarito: A. A linguagem direta e imperativa é uma marca do gênero manual, cuja finalidade é instruir com clareza e evitar acidentes. A escolha se explica pela relação entre gênero, finalidade e destinatário — não pela falta de repertório do autor (B) nem pelo suporte (C).
Dica do professor
Antes de ler as alternativas, faça as sete perguntas de ouro: quem escreveu? Para quem? Com que intenção? Quando? Onde? Em que suporte e gênero? Com que outros textos dialoga? Sublinhe no texto as pistas de cada resposta: o “você” e os imperativos apontam o destinatário; os adjetivos elogiosos e as promessas apontam a persuasão; a data e a fonte no cabeçalho apontam a época; as aspas e as alusões apontam a intertextualidade. Na dúvida entre duas alternativas, escolha a que usa o contexto inteiro — não a que se apoia em uma única palavra. E lembre: no ENEM, a alternativa que ignora o contexto quase sempre é a errada.
Atenção / cuidado
Erros comuns que custam pontos: ler a frase isolada, sem a situação — é assim que a ironia vira elogio e a crítica vira elogio ao criticado. Outro erro é confundir autor com narrador: em contos e poemas, quem fala é uma voz construída pelo texto, não necessariamente o autor real. Não confunda suporte com gênero: o jornal é o suporte, a notícia é o gênero; a rede social é o suporte, o tuíte é o gênero. Não confunda intertextualidade com cópia: dialogar com outro texto — citando, aludindo ou parodiando — é um recurso legítimo, não plágio. E não julgue textos antigos com os valores de hoje sem considerar a época: o anacronismo é uma das armadilhas mais frequentes das questões de interpretação.
Conexão com outras áreas
O tema conversa com a História na análise do contexto histórico de produção dos textos e das mudanças de sentido ao longo do tempo. Conversa com a Sociologia no estudo dos papéis sociais, dos públicos e das instituições que produzem e fazem circular os textos. Conversa com a Filosofia na discussão sobre intenção, sentido e interpretação. Conversa com a Literatura na análise de narradores, eu lírico e intertextualidade em poemas e romances. E conversa diretamente com a Redação: um bom texto dissertativo-argumentativo é, antes de tudo, um texto bem contextualizado — com repertório pertinente ao tema, linguagem adequada ao leitor e argumentos que consideram o momento histórico e social do debate.
Incidência
Incidência: 🔥 Quente. Os fatores de contextualização estão entre as habilidades mais cobradas de Língua Portuguesa no ENEM e nos vestibulares, porque atravessam praticamente todas as questões de interpretação: finalidade, destinatário, intertextualidade, inferência e adequação da linguagem ao contexto aparecem em provas de todos os anos.
Continue estudando na sala de estudo do cliquevestibular, revise os conteúdos de Língua Portuguesa, Redação e Literatura, e acompanhe as novidades do ENEM e dos vestibulares para não perder nenhum tema quente.



