Sala de estudos

Regência verbal: o que cai no ENEM e nos vestibulares

Aprenda a regência verbal: verbos de dupla regência que mudam de sentido, regências especiais e a crase ligada ao verbo, com tabelas, exemplos e questões comentadas.

Ilustração em estilo de animação 3D de um estudante simpático ligando verbos a complementos com setas coloridas em um grande painel, com livros e lápis ao redor
Ilustração em estilo de animação 3D de um estudante simpático ligando verbos a complementos com setas coloridas em um grande painel, com livros e lápis ao redor
Direto ao assunto
  1. Resumo rápido
  2. O que é regência verbal
  3. Transitividade verbal: o ponto de partida
  4. As preposições exigidas pelos verbos
  5. Verbos de dupla regência com mudança de sentido
  6. Verbos com regência especial: os campeões de erro
  7. A crase ligada à regência verbal
  8. Mapa mental
  9. SAQ — Perguntas e respostas rápidas
  10. Questões comentadas
  11. Dica do professor
  12. Atenção/cuidado
  13. Conexão com outras áreas
  14. Incidência

Regência verbal: o que cai no ENEM e nos vestibulares

Leia estas duas frases com atenção: “O médico assistiu o doente durante toda a noite.” e “O médico assistiu ao jogo do seu time no domingo.” O verbo é o mesmo — assistir —, mas o sentido mudou completamente: na primeira frase, assistir significa ajudar, prestar assistência; na segunda, significa presenciar, ver. E repare em outro detalhe: na primeira, o verbo não pede preposição; na segunda, ele pede a preposição “a”. É exatamente disso que trata a regência verbal: da relação entre o verbo e os seus complementos, das preposições que ele exige e das mudanças de sentido que surgem quando a regência muda. É um dos temas mais cobrados de Língua Portuguesa no ENEM e nos vestibulares, porque aparece em questões de gramática, de interpretação de texto e, principalmente, na correção da sua Redação.

Muita gente acha que regência é apenas decorar listas de verbos. Não é. A regência verbal tem uma lógica: o verbo é o centro da oração e, como um ímã, atrai complementos. Alguns verbos se bastam sozinhos; outros precisam de um complemento sem preposição; outros ainda só ficam completos com uma preposição. E há verbos que, conforme a preposição que recebem, mudam de sentido — os famosos verbos de dupla regência, que são o coração desta matéria e os queridinhos das provas. Quando você entende essa lógica, deixa de decorar e passa a reconhecer padrões, o que torna a resolução das questões muito mais rápida e segura.

Nesta matéria, você vai aprender o que é regência verbal, como identificar a transitividade de um verbo, quais são as preposições mais exigidas, todos os principais verbos de dupla regência com mudança de sentido, os verbos com regência especial que mais caem em prova e a relação entre regência e crase — um dos pontos em que os estudantes mais erram. Ao final, há um mapa mental para revisão, perguntas curtas com respostas, questões comentadas originais no estilo do ENEM e as dicas que fazem a diferença na hora da prova. Prepare-se: depois desta leitura, frases como “cheguei em casa”, “namorar com a Maria” e “prefiro mais isso do que aquilo” nunca mais vão passar despercebidas por você.

Resumo rápido

Regência verbal: é a relação de dependência entre o verbo e os seus complementos. O verbo pode exigir um complemento sem preposição (objeto direto), com preposição (objeto indireto) ou nenhum complemento.

Verbo intransitivo: não precisa de complemento para ter sentido completo. Exemplo: “O bebê dormiu.”

Verbo transitivo direto: exige um objeto direto, sem preposição. Exemplo: “A aluna leu o livro.”

Verbo transitivo indireto: exige um objeto indireto, com preposição. Exemplo: “Todos obedecem às regras da escola.”

Verbo transitivo direto e indireto: exige dois complementos, um sem preposição e outro com preposição. Exemplo: “O professor entregou o gabarito aos alunos.”

Verbo de dupla regência: pode ser usado com duas regências diferentes, e cada regência corresponde a um sentido diferente. Exemplo: “aspirar o perfume” (cheirar, transitivo direto) e “aspirar ao cargo de gerente” (desejar, transitivo indireto).

Regência e crase: a crase só acontece quando há a fusão da preposição “a” exigida pelo verbo (ou por outro termo) com o artigo feminino “a”. Se o verbo não exige a preposição “a”, não há crase. Exemplo: “Cheguei à escola” (chegar exige “a” + artigo “a” = crase), mas “Assisti o filme” não tem crase porque, nesse sentido, assistir não pede preposição.

Como cai na prova: o ENEM e os vestibulares cobram regência em questões que pedem para identificar a construção correta, corrigir um desvio da norma culta, reconhecer a mudança de sentido de um verbo conforme a regência e perceber a relação entre regência e crase. O tema também aparece de forma indireta na interpretação de textos, porque trocar a regência pode trocar o sentido da frase.

O que é regência verbal

A palavra regência vem de “reger”, que significa governar, comandar. Na gramática, um termo rege outro quando exige a sua presença ou determina a forma como ele aparece. Na regência verbal, quem governa é o verbo: é ele quem determina se a oração precisa de um complemento, de qual tipo ele é e se vem acompanhado de preposição. Por isso, estudar regência é, antes de tudo, estudar o comportamento dos verbos.

Observe um exemplo simples. Na frase “Os estudantes precisam de silêncio para estudar”, o verbo “precisar” exige a preposição “de”: ninguém diz “precisam silêncio” na norma culta. Já na frase “Os estudantes querem silêncio para estudar”, o verbo “querer” dispensa qualquer preposição: “querem silêncio”, diretamente. O complemento é o mesmo — “silêncio” —, mas a forma de ligá-lo ao verbo muda conforme o verbo escolhido. Essa é a essência da regência: cada verbo tem as suas exigências, e cabe a quem escreve conhecê-las.

A regência não é um capricho dos gramáticos. Ela existe porque os verbos carregam sentidos diferentes e, muitas vezes, precisam de uma “ponte” — a preposição — para ligar o seu sentido ao complemento. Pense na preposição como uma peça de encaixe: alguns verbos encaixam diretamente no complemento, outros precisam de uma peça intermediária. Quando a peça errada é usada, ou quando ela falta, a frase fica inadequada segundo a norma culta, ainda que todo mundo a entenda no dia a dia. E é justamente essa distância entre a fala cotidiana e a norma culta que as provas exploram: no sala de estudo do dia a dia, dizemos “vou chegar em casa”; na prova, o esperado é “vou chegar a casa” — ou melhor, “vou chegar em casa” é tão comum que virou um dos erros mais testados, como veremos adiante.

Transitividade verbal: o ponto de partida

Antes de falar de regência, é preciso dominar a transitividade, porque é ela que classifica o verbo conforme a necessidade de complemento. A pergunta que você deve fazer diante de qualquer verbo é: “Ele precisa de um complemento para o sentido ficar completo? E esse complemento vem com ou sem preposição?” A resposta a essas duas perguntas define a classificação.

Verbos intransitivos são aqueles que têm sentido completo sozinhos, sem nenhum complemento. “O aluno chegou.” “A criança sorriu.” “Os pássaros cantam.” Nenhuma dessas frases pede um complemento: o sentido já está completo. Isso não significa que o verbo intransitivo não possa aparecer acompanhado de outras informações — “O aluno chegou cedo”, “A criança sorriu de alegria” —, mas essas informações são adjuntos adverbiais, que acrescentam circunstâncias (tempo, modo, lugar), e não complementos exigidos pelo verbo. A diferença é fundamental: o complemento é exigido pelo verbo; o adjunto é apenas um acréscimo, que pode ser retirado sem quebrar o sentido da oração.

Verbos transitivos diretos exigem um objeto direto, isto é, um complemento sem preposição. “A professora corrigiu as provas.” “O estudante resolveu o exercício.” “Nós compramos os livros.” Para descobrir o objeto direto, faça a pergunta “o quê?” ou “quem?” ao verbo: corrigiu o quê? As provas. Resolveu o quê? O exercício. Compramos o quê? Os livros. Se a resposta vier sem preposição, é objeto direto, e o verbo é transitivo direto.

Verbos transitivos indiretos exigem um objeto indireto, ou seja, um complemento com preposição obrigatória. “Os alunos obedecem ao professor.” “Ela simpatizou com o colega novo.” “Todos precisam de ajuda.” Aqui, a pergunta ao verbo já traz a preposição: obedecem a quem? Ao professor. Simpatizou com quem? Com o colega novo. Precisam de quê? De ajuda. Sem a preposição, a frase fica errada segundo a norma culta: “obedecem o professor” e “simpatizou o colega” são desvios que as provas adoram cobrar.

Verbos transitivos diretos e indiretos — também chamados de bitransitivos — exigem dois complementos ao mesmo tempo: um objeto direto e um objeto indireto. “A escola entregou os certificados aos formandos.” (entregou o quê? Os certificados; a quem? Aos formandos). “O professor informou a data da prova aos alunos.” (informou o quê? A data; a quem? Aos alunos). “O pai perdoou a dívida ao filho.” (perdoou o quê? A dívida; a quem? Ao filho). Perceba que, nesses casos, retirar qualquer um dos dois complementos deixa a frase incompleta: “A escola entregou os certificados” soa incompleta — entregou a quem? A informação falta.

As preposições exigidas pelos verbos

As preposições são as pontes entre o verbo e o seu complemento. As mais frequentes na regência verbal são “a”, “de”, “em”, “com”, “para” e “por”, mas há outras, como “sobre”, “contra” e “entre”. Cada verbo “escolhe” a sua preposição, e essa escolha faz parte da sua regência: trocar a preposição pode gerar erro ou mudar o sentido.

Veja alguns verbos e as suas preposições clássicas, que valem a pena memorizar porque caem com frequência: “precisar de” (“Preciso de ajuda”), “gostar de” (“Gosto de música”), “depender de” (“O resultado depende de você”), “obedecer a” (“Obedeça às regras”), “assistir a” no sentido de presenciar (“Assisti à palestra”), “chegar a” (“Cheguei à cidade”), “ir a” (“Vou à escola”), “simpatizar com” (“Simpatizei com ela”), “concordar com” (“Concordo com você”), “confiar em” (“Confio em você”), “pensar em” (“Penso em você”), “acreditar em” (“Acredito em você”), “residir em” (“Resido em Salvador”), “morar em” (“Moro em Recife”), “namorar com” — atenção, aqui há uma pegadinha que veremos adiante: na norma culta, “namorar” é transitivo direto, sem preposição (“Namoro a Ana”, e não “namoro com a Ana”).

As preposições também podem se contrair com artigos e pronomes, e é aí que nasce a crase: “a + a = à”, “a + as = às”, “a + aquele = àquele”. Quando o verbo exige a preposição “a” e o complemento é um substantivo feminino determinado pelo artigo “a”, as duas vogais se fundem e o acento grave marca essa fusão. Por isso, dominar a regência é o primeiro passo para dominar a crase — e vice-versa: muitas questões de crase são, no fundo, questões de regência disfarçadas.

Verbos de dupla regência com mudança de sentido

Chegamos ao coração da matéria. Os verbos de dupla regência são aqueles que podem ser usados com duas regências diferentes — e cada regência corresponde a um sentido diferente. Ou seja: mudar a preposição (ou tirá-la) muda o significado do verbo. As provas adoram esses verbos justamente por isso: basta trocar a regência para trocar o sentido, e a questão pode pedir que você identifique o sentido correto em um texto ou que corrija uma construção inadequada. Vamos estudar os principais, um por um, com exemplos completos.

Assistir: presenciar, ajudar ou caber

O verbo assistir tem três usos principais. Com o sentido de presenciar, ver, estar presente, é transitivo indireto e exige a preposição “a”: “Assisti à aula de gramática.” “Os torcedores assistiram ao jogo.” “Ela assistiu à apresentação do coral.” Com o sentido de ajudar, prestar assistência, é transitivo direto, sem preposição: “O enfermeiro assistiu o paciente durante a noite.” “A assistente social assistiu as famílias afetadas pela enchente.” Com o sentido de caber, pertencer como direito, é transitivo indireto e exige a preposição “a”: “Assiste ao aluno o direito de revisar a prova.” “Assiste aos trabalhadores o direito ao descanso semanal.” Repare que, no primeiro e no terceiro usos, a regência é a mesma (com “a”), mas o sentido é diferente: presenciar e caber. O contraste que mais cai em prova é entre presenciar (com “a”) e ajudar (sem preposição).

Aspirar: cheirar ou desejar

Com o sentido de cheirar, sorver, inspirar, aspirar é transitivo direto, sem preposição: “A menina aspirou o perfume da flor.” “O paciente aspirou o ar puro da montanha.” Com o sentido de desejar, pretender, almejar, é transitivo indireto e exige a preposição “a”: “O jovem aspira ao cargo de diretor.” “Ela aspira a uma vaga na universidade.” Um truque para não confundir: se dá para substituir por “cheirar”, não há preposição; se dá para substituir por “desejar”, há a preposição “a”. “Aspiro ao cargo” = desejo o cargo; “Aspiro o perfume” = cheiro o perfume.

Visar: mirar, dar visto ou desejar

Com o sentido de mirar, apontar, visar é transitivo direto: “O atirador visou o alvo.” “O arqueiro visou o centro do alvo.” Com o sentido de dar visto, rubricar, também é transitivo direto: “O diretor visou o documento.” “O professor visou a lista de presença.” Com o sentido de desejar, ter em vista, pretender, é transitivo indireto e exige a preposição “a”: “O projeto visa à melhoria da escola.” “A campanha visa à conscientização dos jovens.” Atenção: no sentido de desejar, a construção correta é “visar a”, e, quando o complemento é feminino com artigo, há crase: “visa à melhoria”.

Proceder: originar-se, comportar-se ou dar início

O verbo proceder tem usos bem distintos. Com o sentido de ter origem, provir, é transitivo indireto e exige a preposição “de”: “Esses alimentos procedem da agricultura familiar.” “A palavra procede do latim.” Com o sentido de comportar-se, agir, é intransitivo: “O aluno procedeu bem durante a prova.” “Ela procedeu com honestidade.” Com o sentido de dar início, realizar, é transitivo indireto e exige a preposição “a”: “A direção procedeu à entrega dos diplomas.” “Os técnicos procederam à revisão do sistema.” Perceba como a preposição denuncia o sentido: “de” indica origem, “a” indica início de uma ação.

Chamar: convocar ou qualificar

Com o sentido de convocar, mandar vir, chamar é transitivo direto: “O professor chamou o aluno.” “A empresa chamou os candidatos aprovados.” Com o sentido de qualificar, dar nome, apelidar, é transitivo direto e indireto, com o predicativo introduzido ou não pela preposição “de”: “Os colegas chamavam o menino de gênio.” “Os colegas chamavam o menino gênio.” As duas formas são aceitas na norma culta, mas a forma com “de” é a mais frequente e a mais segura na prova. Cuidado com a construção “chamar de” no sentido de convocar: “Chamei de João” não significa que convoquei o João, mas que o qualifiquei como João — e essa ambiguidade já rendeu muitas questões de interpretação.

Pagar e perdoar: o objeto direto é a coisa, o indireto é a pessoa

Os verbos pagar e perdoar seguem uma regra elegante e muito cobrada: o objeto direto é a coisa, e o objeto indireto é a pessoa. “Paguei a conta ao vendedor.” (paguei o quê? A conta — objeto direto; a quem? Ao vendedor — objeto indireto). “Perdoei a ofensa ao colega.” (perdoei o quê? A ofensa — objeto direto; a quem? Ao colega — objeto indireto). Quando só há um complemento, a regra se mantém: “Paguei a conta.” (coisa, sem preposição) e “Paguei ao vendedor.” (pessoa, com preposição). O erro clássico é inverter: “Paguei o vendedor” está errado na norma culta quando o sentido é pagar uma quantia ao vendedor; o correto é “Paguei ao vendedor” ou “Paguei a conta ao vendedor”. Da mesma forma, “Perdoou o amigo” é inadequado quando o sentido é perdoar uma ofensa ao amigo: o correto é “Perdoou ao amigo” (ou “Perdoou a ofensa ao amigo”). Essa regra vale também para verbos semelhantes, como “agradecer”: “Agradeço o presente ao professor” (coisa sem preposição, pessoa com preposição).

Querer: desejar ou amar

Com o sentido de desejar, pretender, querer é transitivo direto: “Quero uma vaga na universidade.” “Ela quer um novo emprego.” Com o sentido de amar, ter afeto, estimar, é transitivo indireto e exige a preposição “a”: “Quero muito aos meus pais.” “Ele quer bem aos amigos.” Na prática, o uso com o sentido de amar é mais frequente na expressão “querer bem a alguém”: “Quero bem a você.” Muita gente estranha essa construção porque, na fala cotidiana, dizemos “quero você” com sentido afetivo — mas, na norma culta cobrada em prova, “querer a alguém” é a forma do afeto, e “querer alguém” é a forma do desejo. É um detalhe sutil, mas que já apareceu em vestibulares.

Implicar: envolver ou acarretar

Com o sentido de envolver alguém em alguma situação, comprometer, implicar é transitivo direto e indireto: “O depoimento implicou o suspeito no crime.” (implicou quem? O suspeito — objeto direto; em quê? No crime — objeto indireto com “em”). Com o sentido de acarretar, trazer como consequência, é transitivo direto, sem preposição: “A decisão implica mudanças no calendário.” “O aumento implica novos custos.” Atenção: no sentido de acarretar, a construção “implicar em” é um desvio da norma culta — “A decisão implica em mudanças” está errado segundo a gramática tradicional, embora seja muito comum na fala. Na prova, o correto é “implica mudanças”, sem preposição. Esse é um dos erros mais testados do tema.

Preferir: sem “mais” e sem “do que”

O verbo preferir é transitivo direto e indireto e exige a preposição “a” para o segundo termo: “Prefiro café a chá.” “Prefiro estudar à noite a estudar de manhã.” Dois erros são clássicos e aparecem em praticamente todas as listas de pegadinhas: “Prefiro mais café do que chá” está errado duas vezes, porque o verbo preferir já contém a ideia de “mais” e já exige a preposição “a”, e não a expressão “do que”. O correto é “Prefiro café a chá”, sem “mais” e sem “do que”. Da mesma forma, “Prefiro mais estudar do que descansar” deve ser corrigido para “Prefiro estudar a descansar”. Guarde esta regra: preferir nunca aceita “mais” nem “do que”.

Custar: ser difícil ou ter preço

Com o sentido de ser difícil, custoso, penoso, custar é transitivo indireto e exige a preposição “a”: “Custou ao aluno entender a matéria.” “Custou-me aceitar a decisão.” Nessa construção, o sujeito é a oração “entender a matéria” ou “aceitar a decisão”, e o objeto indireto é a pessoa para quem foi difícil (“ao aluno”, “me”). Com o sentido de ter preço, valer, custar é transitivo direto: “O livro custou cinquenta reais.” “A viagem custou uma fortuna.” O erro comum é dizer “Custou para mim entender” ou “Custou eu entender”: o correto, na norma culta, é “Custou-me entender” ou “Custou a mim entender”, com o objeto indireto, e não com o sujeito “eu”.

Lembrar e esquecer: com ou sem pronome, muda a regência

Os verbos lembrar e esquecer são um caso especial de dupla regência, porque a presença do pronome muda a construção. Sem pronome, são transitivos diretos: “Lembrei o seu aniversário.” “Esqueci a chave em casa.” Com pronome (“lembrar-se”, “esquecer-se”), são transitivos indiretos e exigem a preposição “de”: “Lembrei-me do seu aniversário.” “Esqueci-me da chave.” O erro mais comum é misturar as duas construções: “Lembrei-me o seu aniversário” e “Esqueci da chave” (sem pronome, com preposição) são desvios da norma culta. A regra é simples: sem pronome, sem preposição; com pronome, com “de”. Vale a pena decorar esse par, porque ele cai com frequência e é fácil de acertar depois que a regra fica clara.

Informar: dois complementos, duas preposições possíveis

O verbo informar é transitivo direto e indireto: o objeto direto é a informação, e o objeto indireto é a pessoa informada, que pode vir com a preposição “a” ou “de” — e aqui há uma flexibilidade aceita pela norma culta. “Informei a data da prova aos alunos.” “Informei os alunos da data da prova.” Nas duas construções, a informação é o objeto direto e a pessoa é o objeto indireto; o que muda é qual complemento vem primeiro. Outras construções aceitas: “Informei aos alunos que a prova foi adiada.” “Informei os alunos de que a prova foi adiada.” O que não se aceita é misturar as preposições de forma inadequada, como “Informei aos alunos da data” — ou o complemento da pessoa vem com “a” e a informação fica direta, ou a pessoa fica direta e a informação vem com “de”. Essa simetria é o ponto que as provas cobram.

Agradar: agradar alguém ou ser agradável

Com o sentido de contentar, satisfazer alguém, fazer um agrado, agradar é transitivo direto: “O presente agradou a menina.” “A notícia agradou os professores.” Com o sentido de ser agradável, causar prazer, é transitivo indireto e exige a preposição “a”: “A música agradou aos ouvidos.” “O perfume agradou à moça.” Na prática, a distinção é sutil e os gramáticos admitem certa variação, mas a regra tradicional é: quando o sentido é “fazer um agrado, acariciar, mimar”, o verbo é transitivo direto; quando o sentido é “ser do agrado, causar satisfação”, é transitivo indireto. O exemplo mais clássico é “Agradou-me a ideia” (a ideia me foi agradável, transitivo indireto, com o sujeito “a ideia” posposto) contra “Agradou a criança” (fez um agrado à criança, transitivo direto).

VerboRegênciaSentidoExemplo correto
AssistirTransitivo indireto (a)PresenciarAssisti à peça de teatro.
AssistirTransitivo diretoAjudarO médico assistiu o paciente.
AspirarTransitivo diretoCheirarAspirei o perfume da rosa.
AspirarTransitivo indireto (a)DesejarAspiro ao cargo de líder.
VisarTransitivo diretoMirar / dar vistoO guarda visou o documento.
VisarTransitivo indireto (a)DesejarO projeto visa à inclusão.
ProcederTransitivo indireto (de)Originar-seO termo procede do grego.
ProcederTransitivo indireto (a)Dar inícioProcedeu-se à votação.
ChamarTransitivo direto e indireto (de)QualificarChamavam-no de poeta.
PagarDireto (coisa) + indireto (pessoa)QuitarPaguei a conta ao garçom.
PerdoarDireto (coisa) + indireto (pessoa)DesculparPerdoei a falta ao aluno.
QuererTransitivo diretoDesejarQuero uma bolsa de estudos.
QuererTransitivo indireto (a)AmarQuero bem aos meus pais.
ImplicarTransitivo diretoAcarretarA obra implica gastos extras.
PreferirDireto + indireto (a)EscolherPrefiro silêncio a barulho.
CustarTransitivo indireto (a)Ser difícilCustou-me entender a regra.
Lembrar-seTransitivo indireto (de)RecordarLembrei-me da sua visita.
Esquecer-seTransitivo indireto (de)Não recordarEsqueci-me do compromisso.
InformarDireto + indireto (a ou de)ComunicarInformei os alunos da mudança.
AgradarTransitivo indireto (a)Ser agradávelA festa agradou aos convidados.

Verbos com regência especial: os campeões de erro

Alguns verbos têm uma regência que contraria o uso mais comum na fala cotidiana, e por isso são os campeões de questões. Vamos estudar os principais, com a forma correta, o erro mais frequente e um exemplo para fixar.

Chegar e ir: a preposição é “a”, não “em”

Os verbos chegar e ir, quando indicam destino, exigem a preposição “a”: “Cheguei à escola às sete horas.” “Vou à biblioteca depois do almoço.” “Chegamos ao aeroporto antes do embarque.” O erro mais comum — e um dos mais testados em todas as provas — é usar “em”: “Cheguei na escola”, “Vou na biblioteca”. Na norma culta, “chegar em” e “ir em” são inadequados quando indicam lugar de destino. Atenção, porém, a um detalhe: quando o verbo chegar indica o lugar onde se está, e não o destino, o uso de “em” é aceitável em outros contextos? Não: a regra tradicional é clara — chegar pede “a” para destino. E quando há crase, ela é obrigatória se o destino for feminino com artigo: “Cheguei à praia”, “Vou à feira”. Se o destino for masculino, não há crase, mas a preposição continua: “Cheguei ao mercado”, “Vou ao cinema”. Se o destino for um lugar que não admite artigo, como “casa” no sentido de lar, não há artigo e, portanto, não há crase: “Cheguei a casa”, “Vou a casa” — embora, na fala, “cheguei em casa” seja quase universal, a forma culta é com “a”.

Obedecer e desobedecer: pedem “a”

Os verbos obedecer e desobedecer são transitivos indiretos e exigem a preposição “a”: “Obedeça às normas do edital.” “Os alunos obedeceram ao professor.” “Não desobedeça às ordens.” O erro clássico é tratá-los como transitivos diretos: “Obedeça o professor”, “Desobedeceu as regras”. Na prova, a forma com “a” é a esperada. Um macete: obedecer e desobedecer se comportam como “assistir” no sentido de presenciar — ambos pedem “a” e, com substantivo feminino, geram crase.

Simpatizar e antipatizar: pedem “com”

Os verbos simpatizar e antipatizar são transitivos indiretos e exigem a preposição “com”: “Simpatizei com a nova colega.” “Antipatizei com o personagem do livro.” O erro comum é usar “a” ou nenhum complemento com preposição: “Simpatizei a colega” está errado na norma culta. A preposição “com” indica companhia e afinidade, e é ela que completa o sentido desses verbos.

Namorar: transitivo direto, sem preposição

Esta é uma das pegadinhas mais famosas da gramática brasileira. Na norma culta, o verbo namorar é transitivo direto, sem preposição: “Namoro a Ana há dois anos.” “Ele namora a colega de classe.” A construção “namorar com alguém”, tão comum na fala, é considerada inadequada pela gramática tradicional e é cobrada em prova justamente por isso. O mesmo vale para “noivar” em alguns contextos e para o verbo “casar” quando usado como transitivo direto (“Casou a filha com o rapaz” é diferente de “Casou-se com o rapaz”, que é pronominal). Guarde: namorar não pede preposição.

Morar, residir e situar-se: pedem “em”

Os verbos morar, residir e situar-se exigem a preposição “em”: “Moro em Belo Horizonte.” “Ela reside em Curitiba.” “A escola situa-se no centro da cidade.” O erro comum é usar “a” ou “em” de forma trocada, ou omitir a preposição: “Moro Belo Horizonte” está errado, assim como “Resido a Curitiba”. Note que “morar” é intransitivo com adjunto adverbial de lugar, mas, na prática das provas, a construção esperada é sempre com “em”. E cuidado com a redundância: “Moro em São Paulo, capital” não precisa de mais nada; “Resido na cidade de São Paulo” já traz a preposição contraída com o artigo.

A crase ligada à regência verbal

A crase é a fusão de duas vogais “a”: a preposição “a” com o artigo definido feminino “a” (ou “as”), com o “a” inicial dos pronomes demonstrativos “aquele”, “aquela”, “aquilo”, ou com o “a” do pronome relativo “a qual”. O acento grave marca essa fusão. E por que a crase depende da regência? Porque, para haver crase, é preciso que o verbo (ou outro termo regente) exija a preposição “a”. Se o verbo não exige “a”, não há preposição para fundir com o artigo, e, portanto, não há crase.

Veja o passo a passo para decidir se há crase em uma frase com verbo. Primeiro, pergunte se o verbo exige a preposição “a”. Segundo, pergunte se o complemento é um substantivo feminino determinado pelo artigo “a”. Se as duas respostas forem “sim”, há crase. “Assisti à aula.” O verbo assistir, no sentido de presenciar, exige “a”; “aula” é feminino e vem com o artigo “a”; logo, “a + a = à”. “Cheguei à escola.” O verbo chegar exige “a”; “escola” é feminina com artigo; logo, crase. “Vou à feira.” O verbo ir exige “a”; “feira” é feminina com artigo; logo, crase.

Agora veja os casos em que não há crase, mesmo com um “a” na frase. “Assisti a aula.” Aqui, assistir está sem preposição? Não — neste exemplo, a construção está incompleta segundo a norma culta, mas o ponto é outro: se o verbo não exigisse “a”, não haveria crase. Um exemplo melhor: “Entreguei o livro a Maria.” O verbo entregar exige “a” para a pessoa, mas “Maria” é nome próprio de pessoa que, em geral, não admite artigo, então não há fusão e não há crase: “a Maria”, sem acento. “Cheguei a casa.” O verbo chegar exige “a”, mas “casa” no sentido de lar não admite artigo, então não há crase. “Vou a São Paulo.” O verbo ir exige “a”, mas “São Paulo” não admite artigo, então não há crase. E, no caso oposto, “Assisti o filme”: assistir, no sentido de presenciar, exige “a”, mas “filme” é masculino e não admite o artigo “a”, então não há crase — a forma correta, aliás, seria “Assisti ao filme”, com a preposição “a” contraída com o artigo masculino “o”.

Outro caso clássico: “Prefiro café a chá.” O verbo preferir exige “a”, mas “chá” é masculino, então não há crase. “Prefiro a praia à piscina.” Aqui, preferir exige “a” e “piscina” é feminina com artigo, então há crase. E atenção ao verbo “chegar” com horas: “Cheguei às sete horas” tem crase porque o verbo chegar exige “a” e “as sete horas” é uma expressão feminina determinada. Por outro lado, “Cheguei a tempo” não tem crase, porque “tempo” é masculino. A regra é sempre a mesma: preposição “a” exigida pelo verbo + palavra feminina com artigo = crase. Sem um dos dois elementos, sem crase.

VerboPreposição exigidaErro comumForma correta
Chegar / ir (destino)aCheguei na escolaCheguei à escola
Obedecer / desobedeceraObedeça o professorObedeça ao professor
Simpatizar / antipatizarcomSimpatizei a colegaSimpatizei com a colega
NamorarnenhumaNamoro com a AnaNamoro a Ana
Morar / residiremMoro a São PauloMoro em São Paulo
Preferira (sem “mais” e sem “do que”)Prefiro mais café do que cháPrefiro café a chá
Implicar (acarretar)nenhumaImplica em mudançasImplica mudanças
Lembrar / esquecer (sem pronome)nenhumaEsqueci da chaveEsqueci a chave
Lembrar-se / esquecer-sedeLembrei-me o aniversárioLembrei-me do aniversário
Assistir (presenciar)aAssisti o jogoAssisti ao jogo
Aspirar (desejar)aAspiro o cargoAspiro ao cargo
Precisar / gostar / dependerdePreciso ajudaPreciso de ajuda
Pagar (pessoa)aPaguei o vendedorPaguei ao vendedor
Informara ou de (sem misturar)Informei aos alunos da dataInformei os alunos da data
Atender (pedido)aAtendeu o pedidoAtendeu ao pedido
Ilustração em estilo de animação 3D de um diagrama com um verbo no centro e preposições ao redor ligadas por setas coloridas, com um estudante apontando para o diagrama
Ilustração em estilo de animação 3D de um diagrama com um verbo no centro e preposições ao redor ligadas por setas coloridas, com um estudante apontando para o diagrama
Ilustração em estilo de animação 3D comparando o mesmo verbo com dois sentidos: de um lado um estudante assistindo a um filme no cinema, do outro o mesmo estudante ajudando um doente na cama
Ilustração em estilo de animação 3D comparando o mesmo verbo com dois sentidos: de um lado um estudante assistindo a um filme no cinema, do outro o mesmo estudante ajudando um doente na cama

Mapa mental

  • Regência verbal: relação entre o verbo e os seus complementos
    • Verbo intransitivo: sem complemento (“O bebê dormiu.”)
    • Verbo transitivo direto: objeto direto, sem preposição (“Leu o livro.”)
    • Verbo transitivo indireto: objeto indireto, com preposição (“Obedece ao professor.”)
    • Verbo transitivo direto e indireto: dois complementos (“Entregou o livro ao aluno.”)
  • Dupla regência com mudança de sentido
    • Assistir: presenciar (a) / ajudar (sem preposição) / caber como direito (a)
    • Aspirar: cheirar (sem preposição) / desejar (a)
    • Visar: mirar ou dar visto (sem preposição) / desejar (a)
    • Proceder: originar-se (de) / comportar-se (intransitivo) / dar início (a)
    • Chamar: convocar (sem preposição) / qualificar (de)
    • Pagar e perdoar: coisa sem preposição, pessoa com “a”
    • Querer: desejar (sem preposição) / amar (a)
    • Implicar: envolver (em) / acarretar (sem preposição)
    • Preferir: sempre com “a”, nunca com “mais” nem “do que”
    • Custar: ser difícil (a) / ter preço (sem preposição)
    • Lembrar e esquecer: sem pronome, sem preposição; com pronome, com “de”
    • Informar: informação direta + pessoa com “a” ou “de”, sem misturar
    • Agradar: fazer agrado (sem preposição) / ser agradável (a)
  • Regência especial
    • Chegar e ir (destino): “a”, nunca “em”
    • Obedecer e desobedecer: “a”
    • Simpatizar e antipatizar: “com”
    • Namorar: sem preposição
    • Morar e residir: “em”
    • Atender: pedido com “a”, pessoa sem preposição
  • Crase e regência
    • Crase = preposição “a” exigida pelo verbo + artigo feminino “a”
    • Sem preposição exigida, sem crase
    • Sem artigo feminino, sem crase
    • Exemplos: “Cheguei à escola”, “Assisti à aula”, “Obedeceu às regras”
  • Erros que mais caem em prova
    • “Cheguei na escola” → “Cheguei à escola”
    • “Prefiro mais isso do que aquilo” → “Prefiro isso a aquilo”
    • “Namorar com alguém” → “Namorar alguém”
    • “Implica em mudanças” → “Implica mudanças”
    • “Esqueci da chave” (sem pronome) → “Esqueci a chave”

SAQ — Perguntas e respostas rápidas

1. O que é regência verbal? É a relação de dependência entre o verbo e os seus complementos: o verbo determina se precisa de complemento e se esse complemento vem com ou sem preposição.

2. Como identificar um objeto direto? Pergunte “o quê?” ou “quem?” ao verbo. Se a resposta vier sem preposição, é objeto direto, e o verbo é transitivo direto. Exemplo: “Leu o quê? O livro.”

3. Qual é a diferença entre “assistir o doente” e “assistir ao jogo”? “Assistir o doente” significa ajudar, prestar assistência, e o verbo é transitivo direto. “Assistir ao jogo” significa presenciar, e o verbo é transitivo indireto, com a preposição “a”.

4. Por que “prefiro mais café do que chá” está errado? Porque o verbo preferir já contém a ideia de “mais” e já exige a preposição “a” para o segundo termo. O correto é “Prefiro café a chá”.

5. Qual é a regra de pagar e perdoar? O objeto direto é a coisa, sem preposição, e o objeto indireto é a pessoa, com a preposição “a”. Exemplo: “Paguei a conta ao vendedor.” “Perdoei a ofensa ao colega.”

6. Quando lembrar e esquecer pedem a preposição “de”? Somente quando vêm acompanhados de pronome: “Lembrei-me do aniversário.” “Esqueci-me da chave.” Sem pronome, não há preposição: “Lembrei o aniversário.” “Esqueci a chave.”

7. Por que há crase em “Cheguei à escola”? Porque o verbo chegar exige a preposição “a” e “escola” é um substantivo feminino determinado pelo artigo “a”. A fusão das duas vogais “a” gera a crase: “a + a = à”.

8. Qual é a regência correta de “chegar”, “namorar” e “obedecer”? Chegar (destino) pede “a”: “Cheguei à escola.” Namorar não pede preposição: “Namoro a Ana.” Obedecer pede “a”: “Obedeça ao professor.”

Questões comentadas

Questão 1. Leia o trecho de um texto fictício sobre a rotina de uma estudante: “Marina chegou na escola antes do sinal, assistiu a aula de gramática com atenção e, ao final do dia, preferiu mais revisar os verbos do que descansar.” Segundo a norma culta, o trecho apresenta desvios de regência verbal em:

a) “chegou na escola” e “preferiu mais revisar os verbos do que descansar”.

b) “assistiu a aula de gramática” e “preferiu mais revisar os verbos do que descansar”.

c) “chegou na escola”, “assistiu a aula de gramática” e “preferiu mais revisar os verbos do que descansar”.

d) apenas “preferiu mais revisar os verbos do que descansar”.

e) apenas “chegou na escola”.

Gabarito: A. O verbo chegar, indicando destino, exige a preposição “a”: o correto é “chegou à escola”. O verbo preferir exige a preposição “a” e dispensa “mais” e “do que”: o correto é “preferiu revisar os verbos a descansar”. A alternativa B está errada porque “assistiu a aula” não é o desvio apontado aqui: no sentido de presenciar, assistir exige “a”, e a forma sem crase seria apenas uma questão de acentuação, não o desvio central — além disso, a alternativa B deixa de fora o erro de “chegou na escola”. A alternativa C está errada pelo mesmo motivo: inclui “assistiu a aula” como desvio de regência, quando a regência com “a” está correta. A alternativa D está errada porque ignora o erro de “chegou na escola”. A alternativa E está errada porque ignora o erro de preferir.

Questão 2. Considere as frases: I. “O enfermeiro assistiu o paciente durante toda a madrugada.” II. “A turma assistiu ao documentário sobre o cerrado.” III. “Assiste ao estudante o direito de pedir revisão da nota.” Assinale a alternativa correta sobre o verbo assistir:

a) Nas três frases, assistir tem o mesmo sentido e a mesma regência.

b) Em I, assistir significa ajudar; em II, significa presenciar; em III, significa caber como direito.

c) Em I, assistir significa presenciar; em II, significa ajudar; em III, significa desejar.

d) Em I e II, assistir é transitivo indireto; em III, é transitivo direto.

e) Em I, assistir é transitivo indireto; em II e III, é transitivo direto.

Gabarito: B. Em I, sem preposição, assistir significa ajudar, prestar assistência ao paciente. Em II, com a preposição “a”, significa presenciar o documentário. Em III, com a preposição “a”, significa caber como direito: o direito assiste ao estudante. A alternativa A está errada porque os sentidos e as regências são diferentes. A alternativa C está errada porque inverte os sentidos de I e II e inventa o sentido de desejar para III. A alternativa D está errada porque, em I, assistir é transitivo direto, e não indireto. A alternativa E está errada porque inverte as classificações de I e II.

Questão 3. Assinale a alternativa em que todas as frases estão de acordo com a norma culta quanto à regência verbal:

a) “Preciso de ajuda.” / “Obedeça o regulamento.” / “Namoro com a Júlia.”

b) “Preciso ajuda.” / “Obedeça ao regulamento.” / “Namoro a Júlia.”

c) “Preciso de ajuda.” / “Obedeça ao regulamento.” / “Namoro a Júlia.”

d) “Preciso de ajuda.” / “Obedeça o regulamento.” / “Namoro a Júlia.”

e) “Preciso ajuda.” / “Obedeça ao regulamento.” / “Namoro com a Júlia.”

Gabarito: C. “Precisar de” exige a preposição “de”; “obedecer” exige a preposição “a”; “namorar” é transitivo direto, sem preposição. A alternativa A está errada porque “obedeça o regulamento” deveria ser “obedeça ao regulamento” e “namoro com a Júlia” deveria ser “namoro a Júlia”. A alternativa B está errada porque “preciso ajuda” deveria ser “preciso de ajuda”. A alternativa D está errada porque “obedeça o regulamento” deveria ser “obedeça ao regulamento”. A alternativa E está errada porque “preciso ajuda” deveria ser “preciso de ajuda” e “namoro com a Júlia” deveria ser “namoro a Júlia”.

Questão 4. Leia a frase: “A reforma do prédio implica em gastos extras e vai custar para os moradores entenderem o novo regulamento.” Segundo a norma culta, a reescrita correta da frase é:

a) “A reforma do prédio implica gastos extras e vai custar aos moradores entenderem o novo regulamento.”

b) “A reforma do prédio implica em gastos extras e vai custar aos moradores entender o novo regulamento.”

c) “A reforma do prédio implica gastos extras e vai custar para os moradores entender o novo regulamento.”

d) “A reforma do prédio implica em gastos extras e vai custar para os moradores entenderem o novo regulamento.”

e) “A reforma do prédio implica gastos extras e vai custar os moradores entender o novo regulamento.”

Gabarito: A. No sentido de acarretar, implicar é transitivo direto, sem preposição: “implica gastos extras”. No sentido de ser difícil, custar é transitivo indireto, com a preposição “a”: “custar aos moradores”. A alternativa B está errada porque mantém “implica em”. A alternativa C está errada porque mantém “custar para os moradores”. A alternativa D está errada porque mantém os dois desvios. A alternativa E está errada porque “custar os moradores” dispensa a preposição exigida pelo verbo no sentido de ser difícil.

Questão 5. Assinale a alternativa em que a crase está corretamente empregada, considerando a regência do verbo:

a) “Vou à São Paulo na próxima semana.”

b) “Cheguei à casa depois do almoço.”

c) “Assisti à aula de gramática e obedeci às regras da escola.”

d) “Entreguei o presente à Maria na festa de aniversário.”

e) “Prefiro a praia à piscina, mas cheguei à tempo da aula.”

Gabarito: C. Assistir, no sentido de presenciar, exige “a”, e “aula” é feminina com artigo, logo há crase: “assistir à aula”. Obedecer exige “a”, e “regras” é feminino com artigo, logo há crase: “obedecer às regras”. A alternativa A está errada porque “São Paulo” não admite artigo, então não há crase: “Vou a São Paulo”. A alternativa B está errada porque “casa”, no sentido de lar e sem determinação, não admite artigo, então não há crase: “Cheguei a casa”. A alternativa D está errada porque “Maria”, nome próprio de pessoa, em geral não admite artigo, então não há crase: “a Maria”. A alternativa E está errada porque “tempo” é masculino, então não há crase em “a tempo”.

Dica do professor

Monte a sua tabela pessoal de verbos problemáticos e revise-a por cinco minutos todos os dias durante uma semana. Escreva, à mão, vinte frases com os verbos que você mais erra — chegar, preferir, assistir, implicar, namorar, obedecer, lembrar, esquecer, pagar, perdoar —, sempre na forma correta, e leia cada frase em voz alta. A regência verbal se fixa pelo uso, não pela leitura passiva: quando você escreve “Cheguei à escola” dez vezes, a forma errada “Cheguei na escola” passa a soar estranha. Na véspera da prova, releia apenas a sua tabela e os exemplos desta matéria. E, na hora de resolver a questão, faça sempre a pergunta mágica: “Qual é o sentido do verbo aqui?” Se o sentido for presenciar, assistir pede “a”; se for ajudar, não pede. Se o sentido for desejar, aspirar pede “a”; se for cheirar, não pede. O sentido manda na regência — e quem pergunta pelo sentido acerta a questão.

Atenção/cuidado

Cuidado com quatro armadilhas que derrubam até bons estudantes. Primeira: não confunda a fala cotidiana com a norma culta cobrada em prova. “Cheguei em casa”, “namoro com a Ana” e “implica em mudanças” são formas compreensíveis e frequentes no dia a dia, mas são consideradas inadequadas pela gramática tradicional e, por isso, aparecem como erros nas questões. Segunda: não decore a regência sem o sentido. Dizer que “assistir é transitivo indireto” sem dizer em qual sentido é meia informação — e meia informação erra questão. Terceira: não misture as construções de lembrar e esquecer. Sem pronome, sem preposição; com pronome, com “de”. “Lembrei-me o aniversário” e “Esqueci da chave” são as misturas mais comuns. Quarta: não use “mais” nem “do que” com preferir. “Prefiro mais isso do que aquilo” é o erro mais fácil de identificar — e o mais fácil de evitar, depois que você aprende a regra. Por fim, atenção à crase: ela só existe quando o verbo exige a preposição “a” e o complemento é feminino com artigo. Sem um desses dois elementos, não há acento grave.

Conexão com outras áreas

A regência verbal conecta-se diretamente com a análise sintática, porque a transitividade do verbo determina os termos da oração: objeto direto, objeto indireto e adjuntos. Quem domina a regência analisa períodos complexos com muito mais segurança, como mostra a matéria de análise sintática de períodos complexos. Ela também se conecta com a interpretação de texto: trocar a regência de um verbo pode trocar o sentido de uma frase inteira, e o ENEM explora essa sensibilidade em questões de leitura. Na Redação, a regência correta é um dos critérios de correção da competência que avalia o domínio da norma culta: um texto com desvios de regência perde pontos, mesmo com bons argumentos. Na Literatura, a regência ajuda a perceber o estilo de um autor: escritores clássicos usam regências que hoje soam formais, e reconhecer essas construções faz parte da leitura de obras do passado. E, fora da prova, a regência verbal é uma ferramenta de clareza: quem rege bem os verbos escreve frases mais precisas, evita ambiguidades e se comunica melhor em qualquer área, do direito à medicina, da engenharia às ciências humanas. Estudar regência, portanto, não é apenas passar no vestibular: é aprender a dizer exatamente o que se quer dizer.

Incidência

🔥 Quente. A regência verbal é um dos temas mais recorrentes de Língua Portuguesa no ENEM e nos vestibulares, aparecendo tanto em questões diretas de gramática quanto em questões de interpretação e de crase, além de ser cobrada indiretamente na correção da Redação. Os verbos de dupla regência — assistir, aspirar, visar, proceder, chamar, pagar, perdoar, querer, implicar, preferir, custar, lembrar, esquecer, informar e agradar — e os verbos de regência especial — chegar, ir, obedecer, simpatizar, namorar e morar — formam o núcleo do que você precisa dominar. Estude com as tabelas desta matéria, revise o mapa mental na véspera da prova e pratique com as questões comentadas. Com esse repertório, a regência verbal deixa de ser um problema e vira uma fonte segura de acertos. Bons estudos, e até a próxima matéria da sala de estudo do Clique Vestibular!