“A Causa Secreta” de Machado de Assis é um conto que explora as profundezas da natureza humana, revelando a complexa psicologia de um personagem sádico por meio dos olhos de um jovem médico. A narrativa se inicia com os personagens principais – Garcia, Fortunato e Maria Luísa – em um silêncio carregado, após uma conversa sobre algo perturbador, o que imediatamente estabelece um clima de mistério e tensão.
O enredo, então, retrocede para apresentar Garcia, um estudante de medicina com grande acuidade para decifrar caracteres, e seu primeiro contato com Fortunato. Este último, um capitalista de aparência comum, mostra sinais de uma curiosidade mórbida e um desinteresse singular pelo sofrimento alheio, mesmo quando pratica atos de aparente bondade, como socorrer um ferido. Garcia é atraído por essa contradição, percebendo em Fortunato uma personalidade enigmática que o instiga a buscar o “segredo de um organismo”.
A trama se adensa quando Garcia se torna amigo de Fortunato e conhece sua esposa, Maria Luísa, uma mulher frágil e solitária por quem Garcia desenvolve um amor secreto. A convivência permite ao médico observar a dinâmica peculiar do casal e, mais importante, testemunhar a verdadeira índole de Fortunato. A dedicação de Fortunato na casa de saúde que ele e Garcia fundam é notável, mas logo se revela um palco para a manifestação de seu sadismo, inicialmente através da tortura de animais em nome da “ciência”.
O clímax da revelação ocorre com a cena chocante da tortura de um rato, onde Fortunato, com uma serenidade assustadora, inflige dor extrema à criatura, obtendo um “vasto prazer, quieto e profundo”, que Garcia compara a uma “pura sensação estética”. A morte lenta e dolorosa de Maria Luísa por tísica, observada por Fortunato com a mesma frieza analítica e ausência de empatia, sela a compreensão de Garcia sobre a “causa secreta” do homem: um egoísmo aspérrimo, faminto de sensações que só a dor alheia pode proporcionar, culminando no deleite silencioso de Fortunato ao presenciar o desespero e o choro de Garcia sobre o corpo da falecida.
Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908) é amplamente considerado o maior escritor da literatura brasileira. Nascido no Rio de Janeiro, filho de um pintor de paredes e uma lavadeira, sua origem humilde não o impediu de ascender social e intelectualmente. Autodidata em grande parte, trabalhou como tipógrafo, revisor e jornalista antes de se dedicar integralmente à literatura. Foi um dos fundadores e o primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras. Sua obra, que abrange romances, contos, peças teatrais e poemas, é um marco do Realismo brasileiro, caracterizada por uma profunda análise psicológica, crítica social, ironia fina e pessimismo filosófico. Machado de Assis inovou na forma e no conteúdo, com narradores frequentemente céticos e distanciados, explorando a complexidade das relações humanas e as instituições de sua época.
“A Causa Secreta” é um dos contos mais célebres e impactantes de Machado de Assis. Publicado originalmente na Gazeta de Notícias, em 1º de agosto de 1885, o conto foi posteriormente incluído na coletânea Várias Histórias, lançada em 1896. A obra é um primor da prosa machadiana, exemplificando a maestria do autor na construção de personagens complexos e na sondagem da psique humana. Situa-se no período realista de Machado, revelando características marcantes desse movimento literário, como o foco na realidade social e psicológica, a objetividade na descrição e a crítica velada aos valores e comportamentos da sociedade burguesa do século XIX. O conto é uma leitura essencial para compreender a profundidade e a originalidade do estilo de Machado de Assis.
| Tempo | A narrativa se desenvolve de forma cronológica, com um recuo inicial no tempo (flashback) para apresentar o passado dos personagens e a evolução da relação entre Garcia e Fortunato. Acompanha os acontecimentos de 1860 (primeiros encontros) até a morte de Maria Luísa anos depois (1861 para Garcia se formar, e a história avança de “tempos depois”). |
| Espaço | A história se passa no Rio de Janeiro do século XIX, com menção a diversos locais como Catumbi (onde morava Fortunato), a Rua de D. Manuel (onde morava Garcia), a Santa Casa, o Teatro de São Januário, o Largo da Carioca e a Rua de Mata-cavalos. A casa de saúde e a residência de Fortunato são os principais cenários dos eventos. |
| Narrador | O narrador é em terceira pessoa, onisciente e onipresente. Ele tem acesso aos pensamentos e sentimentos de Garcia, e também aprofunda a descrição dos atos de Fortunato, revelando ao leitor o seu “segredo”. Este narrador possui um tom irônico e analítico, típico de Machado de Assis, guiando a interpretação do leitor sobre a psicologia dos personagens. |
| Linguagem | A linguagem é formal, culta e de grande riqueza vocabular, com construções sintáticas complexas. Há um uso sofisticado da ironia e de figuras de linguagem. O estilo é conciso e preciso, com uma capacidade notável de descrever estados psicológicos e morais de forma sutil, mas profunda. |
Machado de Assis demonstra em “A Causa Secreta” seu domínio exemplar do estilo realista, caracterizado pela análise psicológica profunda e pela observação minuciosa do comportamento humano. O conto é um estudo de caráter, focando na complexidade da psique de Fortunato. A ironia machadiana permeia toda a obra, desde a aparente bondade de Fortunato até a descrição de seu “vasto prazer” diante da dor alheia.
O autor emprega o narrador onisciente para dissecar as motivações dos personagens, especialmente Garcia, que atua como o principal instrumento de percepção e revelação do “segredo” de Fortunato. Há um uso magistral do contraste, evidente na oposição entre a sensibilidade de Garcia e a frieza sádica de Fortunato, e entre a fragilidade de Maria Luísa e a crueldade do marido.
O conto também se vale do subentendido e do não-dito para construir a tensão e o mistério, permitindo que o leitor, junto com Garcia, desvende gradualmente a verdadeira natureza de Fortunato. A cena da tortura do rato é um exemplo visceral do simbolismo, representando a essência da perversidade que Fortunato esconde. Machado utiliza uma linguagem precisa e elegante, evitando sentimentalismos e focando na objetividade da observação, o que intensifica o impacto das revelações sobre a maldade humana.
“A Causa Secreta” é um produto do Realismo brasileiro, movimento literário que floresceu na segunda metade do século XIX. Neste período, a sociedade brasileira passava por transformações significativas, como o fim da escravidão e a Proclamação da República, embora a elite mantivesse seus privilégios e padrões de comportamento. Machado de Assis, com sua perspicácia inigualável, utiliza o conto para tecer críticas sociais sutis, mas incisivas.
A figura de Fortunato, um capitalista, reflete a emergência de uma burguesia que, embora pudesse apresentar uma fachada de respeitabilidade e caridade (como a fundação da casa de saúde), escondia uma moralidade duvidosa e práticas cruéis. A indiferença de Fortunato e seu prazer com o sofrimento alheio podem ser vistos como uma metáfora para a insensibilidade e a hipocrisia de uma sociedade que priorizava a aparência e o lucro sobre a ética e a compaixão.
A submissão de Maria Luísa e sua “solidão moral” também podem ser interpretadas como uma crítica à condição feminina da época, muitas vezes relegada a um papel secundário e sujeita aos desmandos masculinos. Machado de Assis não faz denúncias abertas, mas, através da análise psicológica de seus personagens, expõe as fissuras e contradições da alma humana e da sociedade de seu tempo, convidando o leitor a uma reflexão profunda sobre a verdadeira natureza da bondade e da maldade.
Título: A Causa Secreta
Autor: Machado de Assis
Gênero: Conto
Ano de Publicação Original: 1885 (em Gazeta de Notícias)
Publicação em Coletânea: 1896 (em Várias Histórias)
Movimento Literário: Realismo
Confira um resumo em vídeo sobre esta obra:
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