Antes de se tornar o boêmio e cachaceiro Quincas Berro Dágua, festejado por malandros e prostitutas das velhas ladeiras de Salvador, Joaquim Soares da Cunha foi um pai de família respeitável, “exemplar funcionário da Mesa de Rendas Estadual, de passo medido, barba escanhoada, paletó negro de alpaca, pasta sob o braço”. A virada existencial, que levou a família a renegá-lo, deu-se aos cinquenta anos de idade.
Se um homem teve duas vidas tão contrastadas, nada mais justo que tenha também duas mortes. É esse o duplo óbito que Jorge Amado narra nesta novela deliciosa, que tangencia o fantástico sem perder o olhar aguçado para as particularidades da sociedade baiana.
Publicada originalmente na revista Senhor , em 1959, a novela A morte e a morte de Quincas Berro Dágua se destaca pela prosa inebriante, que ganha uma atmosfera onírica, sem ser possível distinguir o que é fato e o que é delírio etílico. Nesta edição especial em capa dura, os leitores têm acesso a prefácio inédito de Itamar Vieira Jr., posfácio de Affonso Romano de Sant’Anna e ensaio visual do artista plástico baiano Marepe.
“Saí da leitura dessa extraordinária novela […] com a mesma sensação que tive, e que nunca mais se repetiu, ao ler os grandes romances e novelas dos mestres russos do século XIX.” ― Vinicius de Moraes.
A obra “A Morte e a Morte de Quincas Berro d’Água”, escrita por Jorge Amado e publicada em 1951, é uma novela que mergulha na dualidade da vida e da morte de um personagem inesquecível. A história se inicia com o falecimento de Joaquim Soares da Cunha, um ex-funcionário público exemplar, respeitável e pai de família, mas que, ao atingir os cinquenta anos, rompeu com as convenções sociais para abraçar uma vida boêmia nas ruas de Salvador, Bahia. É nessa nova fase que ele adota o célebre apelido de Quincas Berro d’Água, uma alcunha que encapsula sua irreverência e liberdade recém-descoberta.
A narrativa se desenrola a partir de sua primeira “morte” oficial. Enquanto a família, representada pela filha Vanda e seu marido Leonardo, tenta organizar um velório digno e formal para Joaquim Soares da Cunha, o corpo de Quincas exibe um sorriso enigmático que parece zombar de toda a solenidade imposta. Esse sorriso se torna um símbolo da recusa do personagem em ser aprisionado pelas expectativas sociais, mesmo após a morte. O velório, realizado no minúsculo cômodo que serviu de moradia ao boêmio, revela o distanciamento e o constrangimento da família em relação à vida desregrada de Quincas.
Entretanto, a história ganha um novo rumo com a chegada dos amigos boêmios de Quincas: Curió, Negro Pastinha, Cabo Martim e Pé-de-Vento. Fiéis companheiros de farra, eles não aceitam a ideia de um enterro convencional para seu amigo. Ao invés disso, decidem cumprir o desejo de Quincas de ter o mar como seu último destino. Regado a muita cachaça, o velório se transforma em uma aventura noturna, onde o corpo do finado é retirado do caixão para um “último passeio” pelos lugares que ele tanto amava em vida.
O clímax acontece a bordo do barco de Mestre Manuel, onde os amigos, em meio a um temporal, promovem uma festa em alto-mar em homenagem a Quincas. Em um balanço do mar revolto, Quincas Berro d’Água cai na água, encontrando sua verdadeira e desejada morte nas águas da Baía de Todos os Santos. Essa “segunda morte” sela a libertação final do personagem das amarras sociais e o consagra como uma lenda, marcando a vitória de sua identidade autêntica sobre as imposições do mundo burguês.
A obra explora a celebração da liberdade individual contra as convenções sociais e a complexidade da identidade humana.
Jorge Amado (1912-2001) foi um dos mais renomados escritores brasileiros, membro da Academia Brasileira de Letras e um dos maiores representantes do Modernismo, especialmente da Geração de 30. Nascido em Itabuna, Bahia, sua obra é profundamente enraizada na cultura, nos costumes e nos tipos humanos de seu estado natal, retratando com maestria a sensualidade, a alegria, a luta e as desigualdades sociais. Alinhado ao neorrealismo nordestino e, em parte, ao realismo socialista em suas primeiras fases, Amado mais tarde desenvolveu um estilo marcado pelo humor, pela fantasia e por uma visão mais leve e carnavalesca da vida, como se percebe em “A Morte e a Morte de Quincas Berro d’Água” e em obras posteriores como “Gabriela, Cravo e Canela”.
Publicada em 1951, “A Morte e a Morte de Quincas Berro d’Água” é uma novela que representa um ponto de virada na carreira de Jorge Amado. Embora preceda a fase de maior popularidade e leveza de suas obras, iniciada de forma mais notória com “Gabriela, Cravo e Canela” em 1958, esta novela já antecipa e incorpora elementos de humor, irreverência e uma certa dose de fantástico que se tornariam marcas registradas do autor. Inserida no contexto do Modernismo – Geração de 30, a obra se destaca por expandir os horizontes do neorrealismo nordestino, introduzindo a fantasia e o absurdo sem, contudo, abandonar a perspectiva sociológica.
Sua importância literária reside na habilidade de Jorge Amado em criticar as normas sociais através da comédia e do inusitado, usando a figura de Quincas para questionar a hipocrisia e as convenções da sociedade burguesa. A novela é um brilhante exemplo de como a literatura pode ser ao mesmo tempo divertida, emocionante e profundamente reflexiva, oferecendo um retrato vívido da cultura baiana e de questões universais como a amizade, a solidão e a busca pela autenticidade.
| Tempo | A narrativa se passa em um curto período após a morte de Quincas, mas com flashes de memória que reconstroem seu passado. |
| Espaço | A cidade de Salvador, Bahia, com seus bairros populares, bares, ruas e o mar, que é um elemento central. |
| Narrador | Terceira pessoa, onisciente, com uma voz que mistura o tom de um contador de histórias popular e um observador irônico. |
| Linguagem | Rica, poética e com um forte apelo à oralidade, permeada por expressões e elementos da cultura baiana. |
“A Morte e a Morte de Quincas Berro d’Água” é uma obra que se filia ao Modernismo brasileiro, especialmente à Geração de 30, mas com características que a colocam em diálogo com o que Jorge Amado desenvolveria em fases posteriores. O autor utiliza o neorrealismo nordestino como pano de fundo para descrever a realidade social de Salvador, mas o transcende com elementos de sátira menipeia, marcada pelo encontro entre o mundo dos mortos e dos vivos e pela crítica social através do riso e do grotesco. A narrativa é rica em humor e fantasia, quebram a rigidez do realismo mais tradicional.
Jorge Amado emprega uma linguagem rica e poética, repleta de regionalismos e referências à cultura popular baiana, como a música e a religião. O uso de apelidos para os personagens (Quincas Berro d’Água, Curió, Negro Pastinha, Cabo Martim, Pé-de-Vento) acentua a desformalização e a autenticidade de seus amigos, contrastando com a formalidade de Joaquim Soares da Cunha. A ironia é um recurso constante, especialmente ao descrever a família de Quincas e suas tentativas de manter as aparências. O duplo, presente no título e na identidade do protagonista, é um tema central, explorando a contradição entre o ser e o parecer.
A novela foi publicada em 1951, no início da década que seria marcada pelo desenvolvimentismo de Juscelino Kubitschek no Brasil. Esse período foi de grande efervescência cultural e um certo otimismo dominante na vida social e política brasileira após o fim da ditadura Vargas em 1945. Esse cenário de “modernização” e esperança talvez tenha influenciado o clima fantástico e cômico da narrativa de Jorge Amado, que, ao mesmo tempo que celebra a vida livre, tece críticas sociais importantes.
A obra faz uma clara crítica social à hipocrisia e às convenções da sociedade burguesa. Quincas Berro d’Água, em sua trajetória de funcionário público a boêmio, personifica a rejeição a uma vida regrada e infeliz em nome das aparências. A família, por sua vez, representa a preocupação excessiva com o status e a reputação, tentando “matar” Quincas duas vezes: primeiro, ao negar sua existência boêmia para os filhos; e segundo, ao tentar impor um velório solene que desfigurava a verdadeira essência do finado. A novela celebra a autenticidade e a liberdade, contrapondo a vida marginal e autêntica de Quincas e seus amigos à rigidez e superficialidade das instituições sociais.
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