
Direto ao assunto
- Resumo rápido
- Por que é “pré” e não um movimento único
- O contexto: a República Velha e os dois Brasis
- Euclides da Cunha e Os Sertões: o Brasil descobre o sertão
- Lima Barreto: o subúrbio, o preconceito e a burocracia
- Monteiro Lobato e o Jeca Tatu: preguiça ou abandono?
- Augusto dos Anjos: o poeta que não cabia em nenhum movimento
- Outros nomes que você precisa conhecer
- A ruptura com o Parnasianismo e a antecipação do Modernismo
- Tabelas de revisão
- Linha do tempo do Pré-Modernismo
- Mapa mental
- SAQ — Perguntas e respostas rápidas
- Questões comentadas
- Dica do professor
- Atenção/cuidado
- Conexão com outras áreas
- Incidência
Resumo rápido
O Pré-Modernismo é o nome que damos ao período da literatura brasileira que vai, aproximadamente, de 1902 a 1922. Ele começa com a publicação de Os Sertões, de Euclides da Cunha, em 1902, e termina com a Semana de Arte Moderna, em 1922, que marca o início oficial do Modernismo no Brasil. Mas atenção: o Pré-Modernismo não é um movimento literário como o Romantismo ou o Parnasianismo, com regras claras, manifestos e um grupo unido em torno de um mesmo programa estético. Ele é, na verdade, um período de transição, um momento em que vários escritores, cada um do seu jeito, começaram a romper com a literatura que dominava o Brasil no fim do século 19 e a abrir caminho para a literatura moderna.
Para entender o Pré-Modernismo, imagine o Brasil do início do século 20. O país tinha acabado de virar República, em 1889, a escravidão tinha sido abolida em 1888, e uma nova ordem política se organizava: a chamada República Velha, dominada pelas oligarquias do café, sobretudo de São Paulo e de Minas Gerais. Era um Brasil que se queria moderno, urbano e europeizado, especialmente na capital, o Rio de Janeiro, que passava por reformas para parecer Paris. Só que esse Brasil de fachada escondia outro Brasil, muito maior e muito mais pobre: o Brasil do sertão, do interior, dos subúrbios, dos trabalhadores, dos ex-escravizados, dos imigrantes pobres e dos sertanejos que mal apareciam nos livros. Os escritores pré-modernistas foram, justamente, os que apontaram a câmera para esse outro Brasil. Por isso, a palavra que melhor define o período é denúncia: denúncia da miséria, da injustiça, do preconceito, do abandono do interior pelo poder público e da distância entre o Brasil oficial e o Brasil real.
Quatro nomes são obrigatórios para qualquer prova, e você precisa saber associar cada um a uma obra e a um tema. Euclides da Cunha é o autor de Os Sertões (1902), o livro que revelou o sertanejo e a Guerra de Canudos ao resto do país, com a frase famosa de que o sertanejo é, antes de tudo, um forte. Lima Barreto é o autor de Triste fim de Policarpo Quaresma (1915) e de Recordações do escrivão Isaías Caminha (1909), romances que denunciam o preconceito racial, a burocracia, o nacionalismo ingênuo e a vida no subúrbio carioca. Monteiro Lobato é o criador do Jeca Tatu, o caipira de Urupês (1918), personagem que virou símbolo do debate sobre o atraso do interior: primeiro apresentado como preguiçoso, depois reinterpretado pelo próprio Lobato como vítima do abandono, da doença e da falta de assistência do Estado. Augusto dos Anjos é o poeta de Eu (1912), uma poesia estranha, sombria e original, que mistura vocabulário científico, imagens de decomposição e uma angústia existencial que não cabia em nenhum movimento da época.
Além desses quatro, outros nomes aparecem com frequência nas provas e nos vestibulares mais tradicionais. Graça Aranha, com Canaã (1902), discute a imigração e o choque cultural no Brasil. Simões Lopes Neto, com os Contos gauchescos (1912), retrata o gaúcho e o pampa com linguagem regional. Valdomiro Silveira e Afonso Arinos também trabalham o regionalismo, o primeiro com os caboclos paulistas e o segundo com o sertão mineiro. E há ainda os poetas que fazem a ponte entre o fim do século 19 e o Modernismo, como Manuel Bandeira e Guilherme de Almeida, que começaram escrevendo dentro de formas tradicionais e depois aderiram à renovação modernista. Não confunda: Bandeira é muito mais lembrado como modernista, mas sua estreia, A cinza das horas (1917), ainda é pré-modernista em vários aspectos, e essa travessia é exatamente o tipo de detalhe que as provas adoram cobrar.
Na hora da prova, o Pré-Modernismo costuma aparecer de três jeitos. O primeiro é a identificação de autor, obra e característica: um trecho de Os Sertões ou de Lima Barreto e a pergunta sobre o que aquele trecho revela do período. O segundo é a comparação: o texto pré-modernista ao lado de um texto parnasiano, para mostrar a ruptura com a arte pela arte, ou ao lado de um texto modernista, para mostrar o que já antecipava a renovação de 1922. O terceiro é a leitura crítica do Brasil: o examinador usa o Pré-Modernismo para discutir temas que continuam atuais, como desigualdade regional, preconceito, reforma agrária, saúde pública no interior e a distância entre o discurso oficial e a vida real das pessoas. Ou seja, estudar Pré-Modernismo não é decorar datas: é entender um Brasil que estava mudando e uma literatura que decidiu contar essa mudança sem enfeite.
Um último aviso antes de mergulhar no conteúdo: não procure no Pré-Modernismo a unidade de um movimento. O que une Euclides da Cunha, Lima Barreto, Monteiro Lobato e Augusto dos Anjos não é um manifesto, e sim uma atitude. Todos eles, cada um à sua maneira, recusaram a literatura decorativa e distante que dominava o Brasil, voltaram os olhos para a realidade brasileira e escreveram com uma linguagem mais próxima da vida real, mesmo quando mantinham formas tradicionais. Essa atitude é a ponte entre o século 19 e o Modernismo, e é por isso que o período se chama “pré”: ele vem antes, prepara, anuncia, mas ainda não é o Modernismo. Entender essa diferença é meio caminho andado para acertar qualquer questão sobre o tema no ENEM e nos vestibulares.
Por que é “pré” e não um movimento único
A primeira coisa que confunde o estudante no Pré-Modernismo é o próprio nome. Afinal, se existe Romantismo, Realismo, Naturalismo, Parnasianismo e Simbolismo, por que o Pré-Modernismo não seria só mais um movimento na lista? A resposta é que os outros movimentos tinham, em geral, um conjunto de características compartilhadas, um modelo de beleza, uma forma de escrever e até um grupo de autores que se reconheciam como parte da mesma escola. O Pré-Modernismo não tem nada disso de forma organizada. Não houve um manifesto pré-modernista, não houve uma revista que reunisse todos esses autores sob uma mesma bandeira e não houve um programa estético comum. O que houve foi um período histórico, entre 1902 e 1922, em que escritores muito diferentes entre si reagiram, cada um do seu jeito, aos mesmos problemas do Brasil.
Pense em uma comparação simples. O Parnasianismo, que dominava a poesia brasileira no fim do século 19, defendia a “arte pela arte”: o poema deveria ser belo, perfeito na forma, com rimas ricas, versos medidos e temas nobres, como a Grécia antiga, a beleza feminina idealizada e a natureza decorativa. O poeta parnasiano fugia da realidade imediata, como se a poesia fosse um templo separado do mundo. Augusto dos Anjos faz exatamente o contrário: ele escreve sobre vermes, podridão, cadáveres, bactérias e angústia, com palavras da ciência, em versos que muitas vezes mantêm a forma tradicional do soneto, mas com um conteúdo chocante. Euclides da Cunha faz outra coisa ainda: ele mistura ciência, geografia, história e literatura para explicar uma guerra real, com uma linguagem densa e cheia de termos técnicos. Lima Barreto faz outra: ele usa uma linguagem simples, quase jornalística, para contar a vida de funcionários públicos, de moradores do subúrbio e de um patriota ingênuo que acredita em um Brasil que não existe. Monteiro Lobato faz outra: ele usa o conto e a crônica para discutir o caipira, a agricultura, a saúde e a educação no interior de São Paulo. São projetos literários diferentes, e é justamente essa diversidade que caracteriza o período.
Por isso, os historiadores da literatura preferem dizer que o Pré-Modernismo é um período de transição. Ele tem um pé no século 19 e outro no século 20. Um pé no século 19 porque muitos desses autores ainda usam formas tradicionais: Euclides escreve em uma prosa rebuscada, Augusto dos Anjos usa o soneto, Lima Barreto publica romances com estrutura tradicional. Outro pé no século 20 porque o conteúdo já é novo: o Brasil real, o povo pobre, o interior, o preconceito, a crítica social, a linguagem mais próxima da fala cotidiana. O Modernismo, em 1922, vai radicalizar essa renovação, quebrando também as formas, com versos livres, linguagem coloquial, humor e experimentação. O Pré-Modernismo é o ensaio dessa ruptura: ele rompe com os temas e com a visão de mundo da literatura anterior, mesmo sem romper totalmente com as formas.
Essa ideia de transição aparece o tempo todo nas provas, muitas vezes com outras palavras. Quando a questão diz que o Pré-Modernismo “antecipa” o Modernismo, ela está dizendo que esses autores já faziam, de forma inicial, o que os modernistas fariam com mais força depois: olhar para o Brasil, valorizar o nacional, criticar a cópia da Europa, usar a linguagem brasileira. Quando a questão diz que o período é “heterogêneo” ou “eclético”, ela está dizendo que não há uma unidade de estilo, e sim uma diversidade de propostas. Quando a questão fala em “ruptura com o Parnasianismo”, ela está falando da recusa da arte pela arte e da busca de uma literatura engajada com a realidade. Guarde essas três palavras, porque elas são chaves de resposta: transição, heterogeneidade e ruptura.
Há também uma divisão didática que ajuda muito a organizar o estudo, e que vários livros e cursinhos usam. O Pré-Modernismo costuma ser dividido em duas tendências principais: o regionalismo e a crítica social e urbana. O regionalismo é a literatura que vai para o interior e para as regiões do Brasil para retratar tipos, costumes, paisagens e problemas locais: Euclides no sertão nordestino, Lobato no interior paulista, Simões Lopes Neto no pampa gaúcho, Valdomiro Silveira entre os caboclos. A crítica social e urbana é a literatura que fica na cidade, sobretudo no Rio de Janeiro, então capital do país, para denunciar a burocracia, o preconceito, a miséria dos subúrbios e a hipocrisia das elites: Lima Barreto é o grande nome dessa tendência, e Augusto dos Anjos, mesmo sendo poeta, também se encaixa aqui pela angústia e pela crítica a uma sociedade que esconde a morte, a doença e a miséria sob um verniz de progresso. Essa divisão não é rígida, e um mesmo autor pode aparecer nos dois lados, mas ela é um ótimo mapa mental para começar a estudar.
O contexto: a República Velha e os dois Brasis
Nenhum período literário se entende sem o seu contexto histórico, e no Pré-Modernismo isso é ainda mais verdadeiro, porque a literatura do período é, antes de tudo, uma resposta ao Brasil da época. O Brasil do início do século 20 vivia a chamada República Velha, que vai de 1889 a 1930. A República tinha sido proclamada por um golpe militar, sem participação popular, e o poder ficou nas mãos das oligarquias agrárias, sobretudo dos cafeicultores de São Paulo e dos políticos de Minas Gerais, em um acordo que ficou conhecido como política do café com leite. As eleições eram controladas pelo coronelismo e pelo voto de cabresto, em que o eleitor votava conforme a vontade do coronel local, dono de terras e de empregos. O resultado era um país formalmente republicano, mas na prática dominado por poucos, com a maioria da população, analfabeta e pobre, fora das decisões políticas.
Enquanto isso, a economia brasileira dependia do café, e o governo protegia os interesses dos grandes produtores, com políticas de valorização do produto e com empréstimos externos. A industrialização ainda engatinhava, concentrada em São Paulo e no Rio de Janeiro, e a imigração europeia trazia trabalhadores para as fazendas de café e para as fábricas nascentes. No campo, a estrutura fundiária continuava concentrada: poucos donos de muita terra e muitos trabalhadores sem terra, em relações de trabalho que lembravam, em vários aspectos, a escravidão recém-abolida. No sertão nordestino, a seca castigava periodicamente a população, e o governo federal tratava o problema como uma fatalidade da natureza, não como uma questão de política pública. É nesse Brasil que acontece a Guerra de Canudos, que Euclides da Cunha vai transformar em literatura.
Na capital, o Rio de Janeiro, o contraste era gritante. O prefeito Pereira Passos, entre 1902 e 1906, promoveu uma grande reforma urbana, inspirada em Paris: abriu avenidas largas, derrubou cortiços no centro, construiu prédios elegantes e tentou expulsar do centro a população pobre, que foi empurrada para os morros e para os subúrbios. Ao mesmo tempo, o médico Oswaldo Cruz liderava campanhas sanitárias contra a febre amarela, a varíola e a peste, com medidas autoritárias, como a vacinação obrigatória, que provocou a Revolta da Vacina, em 1904. O Rio queria ser moderno, limpo e europeu, mas essa modernização era feita para poucos e à custa de muitos. Lima Barreto, que morava no subúrbio e trabalhava como funcionário público, viu essa contradição de perto e a transformou em romance. Quando ele descreve o funcionário que pega o trem lotado, o subúrbio sem saneamento e a repartição pública cheia de apadrinhados, ele está descrevendo o Rio real, não o Rio dos cartões-postais.
É por isso que se fala em “dois Brasis” para explicar o Pré-Modernismo. De um lado, o Brasil oficial: urbano, europeizado, letrado, que lia poesia parnasiana, frequentava teatros e salões e se via como parte da civilização europeia. De outro, o Brasil real: sertanejo, caboclo, suburbano, negro, mestiço, pobre, que trabalhava na terra, pegava trem lotado, sofria com a seca e com a doença e não aparecia na literatura oficial. Os pré-modernistas foram os escritores que atravessaram essa fronteira. Euclides foi ao sertão e voltou dizendo que o país não conhecia a si mesmo. Lima Barreto saiu do centro e contou a vida do subúrbio. Lobato saiu da cidade e contou a vida do interior paulista. Augusto dos Anjos, de origem paraibana, trouxe para a poesia o corpo, a doença e a morte que a poesia elegante escondia. Cada um, à sua maneira, disse a mesma coisa: o Brasil é maior, mais pobre e mais complexo do que a literatura oficial mostrava.
Para a prova, esse contexto aparece de forma muito prática. Uma questão pode apresentar um trecho de Os Sertões e perguntar sobre a Guerra de Canudos ou sobre a visão do sertanejo. Pode apresentar um trecho de Lima Barreto e perguntar sobre o preconceito racial ou sobre a burocracia na República Velha. Pode apresentar o Jeca Tatu e perguntar sobre o debate entre atraso cultural e abandono do Estado. Pode apresentar um poema de Augusto dos Anjos e perguntar por que ele rompe com o Parnasianismo. Em todos os casos, o raciocínio é o mesmo: identificar o problema social que está por trás do texto. Se você estudar o contexto junto com as obras, e não separado delas, as questões ficam muito mais fáceis, porque o texto deixa de ser um enigma e passa a ser um documento de uma época.
Euclides da Cunha e Os Sertões: o Brasil descobre o sertão
Se há um livro que resume o Pré-Modernismo, é Os Sertões, de Euclides da Cunha, publicado em 1902. Euclides era engenheiro militar, jornalista e escritor. Em 1897, ele foi enviado ao sertão da Bahia como correspondente do jornal O Estado de S. Paulo para cobrir a Guerra de Canudos, o conflito entre o Exército brasileiro e a comunidade liderada por Antônio Conselheiro, no arraial de Canudos, no interior baiano. A guerra terminou com o massacre da população de Canudos, e Euclides, que chegou a Canudos nos últimos dias do conflito, ficou chocado com o que viu: um Exército moderno e bem armado massacrando uma população pobre, sertaneja e mal armada, que o governo tratava como um bando de fanáticos e inimigos da República. O livro que ele escreveu a partir dessa experiência não é apenas um relato de guerra: é uma denúncia, um estudo científico e uma obra literária ao mesmo tempo.
Os Sertões é dividido em três partes, e essa divisão cai muito em prova, então vale a pena decorá-la. A primeira parte, “A terra”, descreve o sertão nordestino: o clima, a seca, a vegetação da caatinga, o solo, os rios intermitentes. Euclides usa a geografia e a geologia para explicar por que o sertão é daquele jeito e por que a seca não é um acidente, mas uma característica da região. A segunda parte, “O homem”, descreve o sertanejo: sua origem, resultado da mistura do branco, do negro e do indígena, sua resistência física, seus costumes, sua religiosidade e sua forma de vida. É nessa parte que aparece a frase mais famosa do livro, e uma das mais famosas da literatura brasileira: “O sertanejo é, antes de tudo, um forte”. A terceira parte, “A luta”, narra a Guerra de Canudos em si, desde a formação do arraial até as quatro expedições militares e o massacre final. A estrutura do livro já é uma tese: para entender a guerra, é preciso entender a terra e o homem, porque o conflito não nasceu do fanatismo, mas das condições de vida do sertão e do desconhecimento do Brasil litorâneo sobre o interior.
O que Euclides denuncia, na prática, é o que ele chama, na introdução do livro, de um crime: o Brasil do litoral, urbano e letrado, não conhecia o Brasil do interior, e por isso tratou os sertanejos como inimigos, quando eles eram, na verdade, brasileiros como os outros, apenas abandonados pelo Estado. A frase de abertura do livro, de que Canudos foi um crime, resume essa denúncia. Euclides mostra que Antônio Conselheiro não era um monstro, mas um líder religioso que atraiu para Canudos milhares de pessoas que fugiam da miséria, da seca e da exploração dos coronéis. Mostra que o arraial tinha organização, comércio, trabalho e regras próprias, e que seus habitantes não queriam derrubar a República, mas apenas viver em paz, longe da fome e da opressão. Mostra, por fim, que o Exército, que deveria representar a civilização e o progresso, praticou atos de extrema violência, como a degola de prisioneiros, que Euclides denuncia com indignação.
Do ponto de vista literário, Os Sertões é uma obra híbrida, e essa é outra característica que as provas adoram. O livro mistura ciência e literatura: Euclides usa dados da geografia, da geologia, da antropologia e da história, com o rigor de um cientista, mas escreve com uma linguagem literária densa, cheia de imagens, metáforas, antíteses e termos técnicos. Ele chama a caatinga de “vegetação torturada”, descreve o sertanejo como “um retrato do homem em luta com a terra” e usa comparações grandiosas, quase épicas, para falar de pessoas simples. Essa mistura é herança do Realismo e do Naturalismo do fim do século 19, que valorizavam a ciência, mas já aponta para algo novo: a preocupação em explicar o Brasil com base na sua realidade, e não em modelos europeus. Por isso, Os Sertões é considerado um marco do Pré-Modernismo: ele rompe com a literatura decorativa e inaugura uma literatura que quer conhecer e denunciar o país real.
Outro ponto que cai muito é a visão de Euclides sobre o sertanejo. No início do livro, influenciado pelas teorias raciais da época, que hoje são consideradas preconceituosas e sem base científica, Euclides chega a descrever o sertanejo com traços deterministas, como produto do meio e da raça. Mas, ao longo do livro, e sobretudo na narrativa da guerra, essa visão se transforma: o sertanejo aparece como forte, resistente, inteligente, conhecedor do terreno, capaz de resistir por meses a um exército muito superior. Essa contradição do próprio Euclides é importante: ela mostra um escritor em transição, entre as ideias do século 19 e uma nova sensibilidade para a dignidade do povo brasileiro. Na prova, quando aparecer um trecho em que o sertanejo é elogiado pela sua força e pela sua resistência, a resposta quase sempre está ligada a essa reabilitação do sertanejo, à denúncia do massacre e à crítica ao desconhecimento do Brasil litorâneo.
Euclides da Cunha escreveu outras obras importantes, como Contrastes e confrontos (1907) e À margem da história (1909), em que ele trata da Amazônia, dos seringueiros e da exploração do trabalho na floresta, antecipando debates que continuam atuais sobre a Amazônia e os trabalhadores da borracha. Mas, para o ENEM e para a maioria dos vestibulares, Os Sertões é o centro do estudo sobre Euclides. Se você souber responder a três perguntas, já está bem preparado: o que foi a Guerra de Canudos, por que Euclides diz que o sertanejo é um forte e por que o livro é considerado uma denúncia. A partir daí, qualquer trecho do livro fica mais fácil de interpretar, porque você já sabe qual é a tese do autor.
Lima Barreto: o subúrbio, o preconceito e a burocracia
Se Euclides da Cunha revelou o sertão, Lima Barreto revelou o subúrbio. Afonso Henriques de Lima Barreto, nascido no Rio de Janeiro em 1881, era filho de um tipógrafo e de uma professora, neto de escravizados, mulato em um país racista, funcionário público de baixo escalão, morador do subúrbio carioca e alcoólatra, internado várias vezes em hospícios. Sua vida pessoal, marcada pelo preconceito e pela pobreza, está diretamente ligada à sua literatura: Lima Barreto escreveu sobre o que viveu, e por isso seus romances têm uma força de denúncia que impressiona até hoje. Ele morreu em 1922, no mesmo ano da Semana de Arte Moderna, sem ter visto sua obra reconhecida como merecia. Só depois de sua morte ele passou a ser considerado um dos maiores escritores brasileiros, e hoje é presença garantida nas listas de vestibulares e no ENEM.
O romance mais cobrado de Lima Barreto é Triste fim de Policarpo Quaresma, publicado em livro em 1915, depois de sair em folhetim no Jornal do Commercio. O protagonista, Policarpo Quaresma, é um funcionário público, nacionalista ingênuo e sonhador, que acredita em um Brasil idealizado, dos livros e dos discursos patrióticos, e não no Brasil real. Ele propõe que o tupi-guarani seja declarado língua oficial do Brasil, porque o português seria uma língua emprestada de Portugal; depois, decide se dedicar à agricultura, comprando um sítio no interior, onde descobre que a vida no campo é dominada pelos políticos locais, pelas pragas, pela falta de apoio do governo e pela exploração; por fim, envolve-se em uma revolta política, a Revolta da Armada, e acaba fuzilado pelo próprio governo que ele tanto admirava. A trajetória de Policarpo é uma sátira do nacionalismo ufanista, aquele patriotismo exagerado que exalta o Brasil sem conhecer os seus problemas reais. A mensagem do romance é clara: amar o Brasil de verdade exige conhecer os seus defeitos e lutar contra eles, e não apenas repetir discursos bonitos.
Outro romance fundamental é Recordações do escrivão Isaías Caminha, de 1909, uma sátira do jornalismo e da vida na capital. Isaías é um jovem mulato do interior que vai para o Rio de Janeiro sonhando em se formar e vencer na vida, e descobre que a cor da pele, a origem humilde e a falta de padrinhos pesam mais do que o talento. Ele acaba trabalhando como contínuo em um jornal, onde observa de perto a hipocrisia da imprensa, a bajulação, a corrupção e o preconceito. O romance é, em grande parte, autobiográfico e é uma denúncia direta do racismo brasileiro, que Lima Barreto sentiu na pele. Quando a prova apresenta um trecho desse romance, a chave de leitura quase sempre é o preconceito racial e social, a dificuldade de ascensão do negro e do pobre em uma sociedade que se dizia moderna, mas mantinha as hierarquias da escravidão.
Lima Barreto também escreveu Clara dos Anjos, publicado postumamente em 1948, mas escrito na década de 1920, em que ele conta a história de uma jovem negra e pobre do subúrbio, seduzida e abandonada por um malandro branco, Cassi Jones, que se aproveita da ingenuidade dela e da proteção da família. O romance denuncia o preconceito racial, o machismo e a vulnerabilidade das mulheres pobres, temas que continuam extremamente atuais. E escreveu ainda Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá (1919) e o inacabado O cemitério dos vivos, além de crônicas e contos em que retrata o cotidiano do subúrbio, o carnaval, os funcionários públicos, os botequins e a vida dos pobres no Rio. Para o estudante, o importante é perceber que todos esses livros formam um mesmo projeto: dar voz a quem não tinha voz na literatura oficial, e denunciar, com humor, ironia e indignação, as injustiças da República Velha.
Do ponto de vista da linguagem, Lima Barreto é um dos autores mais importantes do Pré-Modernismo, justamente porque ele rompe com o estilo rebuscado que dominava a literatura da época. Enquanto os parnasianos e muitos prosadores do fim do século 19 escreviam com palavras difíceis, frases longas e referências à cultura europeia, Lima Barreto defendia uma linguagem simples, clara e próxima da fala brasileira. Ele foi criticado por isso em vida: os críticos acadêmicos diziam que ele escrevia mal, que sua linguagem era pobre e descuidada. Hoje, entendemos o contrário: essa simplicidade era uma escolha consciente, uma forma de aproximar a literatura do povo e de criticar a literatura artificial das elites. Essa é uma das antecipações mais claras do Modernismo: os modernistas, em 1922, defenderiam a linguagem coloquial, a fala brasileira e a simplicidade como valores literários. Lima Barreto já fazia isso mais de dez anos antes, e por isso ele é considerado um precursor do Modernismo.
Outro traço marcante de Lima Barreto é o humor e a ironia como instrumentos de crítica. Policarpo Quaresma é um personagem cômico e trágico ao mesmo tempo: rimos de suas ideias ingênuas, mas nos comovemos com o seu fim trágico. A burocracia, os políticos, os jornalistas e os militares aparecem em seus romances como figuras ridículas, movidas por vaidade, interesse e bajulação. Essa sátira é uma arma política: ao rir dos poderosos, Lima Barreto os desmascara. Na prova, quando o texto de Lima Barreto tem tom irônico ou humorístico, desconfie: por trás do riso, há quase sempre uma crítica social, ao preconceito, à burocracia ou ao nacionalismo vazio.
Para fixar Lima Barreto, memorize esta fórmula: subúrbio + preconceito + burocracia + linguagem simples + sátira. Se a questão falar em subúrbio carioca, em funcionário público, em mulato que enfrenta o racismo, em nacionalismo ingênuo ou em linguagem simples contra o rebuscamento, é Lima Barreto. E se a questão comparar Lima Barreto com Machado de Assis, lembre-se de que ambos são grandes críticos da sociedade brasileira, mas com estilos e focos diferentes: Machado, no Realismo, analisa a psicologia e a hipocrisia das elites com ironia refinada; Lima Barreto, no Pré-Modernismo, denuncia a exclusão dos pobres e dos negros com linguagem direta e indignação aberta. Essa comparação é clássica em vestibulares.
Monteiro Lobato e o Jeca Tatu: preguiça ou abandono?
Monteiro Lobato é um caso curioso, porque ele é conhecido por dois públicos completamente diferentes: as crianças, que o conhecem pelo Sítio do Picapau Amarelo, e os vestibulandos, que o conhecem pelo Jeca Tatu. Para o ENEM e para os vestibulares, o que interessa é o Lobato adulto, o escritor de contos e artigos sobre o interior de São Paulo, e o criador de um dos personagens mais debatidos da literatura brasileira. José Bento Monteiro Lobato nasceu em Taubaté, em 1882, formou-se em Direito, foi fazendeiro no Vale do Paraíba, editor, empresário e um dos maiores incentivadores da literatura e da indústria editorial no Brasil. Sua obra pré-modernista está reunida, sobretudo, em Urupês (1918), um livro de contos sobre a vida no interior paulista, e em artigos publicados em jornais, que depois ele reuniu em livros como Problema vital (1918) e Ideias de Jeca Tatu (1919).
O Jeca Tatu nasceu em um artigo de jornal, em 1914, intitulado “Velha praga”, em que Lobato criticava as queimadas e a agricultura rudimentar do caboclo. No conto “Urupês”, que dá nome ao livro, Jeca aparece como um caipira preguiçoso, que vive em um casebre, anda descalço, bebe cachaça, não planta direito, não cuida da terra e passa o dia deitado em uma rede. Nessa primeira versão, Lobato parecia concordar com a ideia de que o atraso do interior era culpa do próprio caipira, de sua preguiça e de sua ignorância. Mas a história não parou aí. Lobato foi criticado, refletiu, entrou em contato com as campanhas sanitárias da época, sobretudo com o trabalho do médico Belisário Penna e com o movimento sanitarista, que mostrava que o interior brasileiro era devastado por doenças como a ancilostomose, conhecida como amarelão, causada por um verme, e pela malária. E então Lobato mudou de ideia publicamente: o Jeca não era preguiçoso por natureza, e sim doente, mal alimentado, sem assistência médica, sem escola e sem apoio do Estado. O famoso texto “Jeca Tatu: a ressurreição”, de 1918, conta essa transformação: Jeca, depois de tratado e orientado, vira um fazendeiro próspero e trabalhador.
Essa mudança de posição de Lobato é um dos pontos mais cobrados sobre o autor, e um dos mais interessantes para pensar o Brasil. Ela mostra que o debate sobre o atraso do interior não é simples: não se trata de culpar o indivíduo, mas de entender as condições sociais, sanitárias e econômicas que produzem a pobreza. Quando a prova apresenta o Jeca Tatu, ela quase sempre quer que o estudante perceba essa virada: da culpa individual para a crítica social, do preconceito contra o caipira para a denúncia do abandono do Estado. E essa virada tem tudo a ver com o Pré-Modernismo: Lobato, como Euclides e Lima Barreto, começou retratando um Brasil que a literatura oficial ignorava, e terminou denunciando as causas estruturais dos problemas desse Brasil.
Além do Jeca Tatu, Lobato é importante por outros motivos. Ele foi um dos primeiros escritores brasileiros a pensar a literatura como indústria, fundando editoras e defendendo os direitos autorais, a profissionalização do escritor e a criação de um público leitor no Brasil. Ele também foi um polemista: criticou a Semana de Arte Moderna em um artigo famoso, “Paranoia ou mistificação?”, de 1917, sobre a exposição de Anita Malfatti, que é considerado um dos estopins do Modernismo, porque provocou a reação dos modernistas. Ou seja, Lobato é uma figura de transição por excelência: ele antecipa o interesse modernista pelo Brasil interiorano e pela linguagem brasileira, mas mantém posições conservadoras em relação à experimentação estética dos modernistas. Para a prova, essa ambiguidade é ouro: Lobato é pré-modernista pelo tema, o Brasil rural, mas não é modernista pela forma, porque ele defendia uma arte mais tradicional e didática.
Outro aspecto de Lobato que aparece nas provas é a sua defesa da identidade nacional e da modernização do Brasil, com petróleo, siderurgia e educação, temas que ele defenderia com força nas décadas seguintes, até ser preso por suas posições nacionalistas na Era Vargas. Mas, para o recorte do Pré-Modernismo, concentre-se no essencial: Urupês, o Jeca Tatu, a crítica ao caipira que vira denúncia do abandono, o regionalismo paulista e a linguagem que mistura o registro culto com expressões regionais e populares. Se a questão falar em caipira, em interior paulista, em amarelão, em saneamento ou em queimadas, é Monteiro Lobato. E se a questão perguntar se o Jeca é preguiçoso ou doente, a resposta certa, na versão final de Lobato, é: doente e abandonado, não preguiçoso por natureza.
Augusto dos Anjos: o poeta que não cabia em nenhum movimento
Augusto dos Anjos é, talvez, o autor mais estranho e fascinante do Pré-Modernismo. Paraibano, nascido em 1884 no engenho Pau d’Arco, formado em Direito, professor, morreu jovem, em 1914, aos 30 anos, de pneumonia. Publicou em vida um único livro, Eu, em 1912, que reúne poemas escritos desde a juventude. O livro foi um sucesso estranho: chocou os leitores, foi criticado pelos parnasianos, mas conquistou um público fiel, que até hoje lê Augusto dos Anjos com a mesma perplexidade. Sua poesia não se encaixa em nenhum movimento: ela tem forma tradicional, muitas vezes o soneto, com rimas e métrica, como os parnasianos, mas tem um conteúdo que os parnasianos jamais aceitariam: vermes, podridão, cadáveres, bactérias, ossos, sangue, angústia, morte e decomposição. É por isso que Augusto dos Anjos é o exemplo perfeito da heterogeneidade do Pré-Modernismo: ele é, ao mesmo tempo, tradicional na forma e radical no conteúdo.
O poema mais famoso de Augusto dos Anjos é “Versos íntimos”, que começa com os versos “Vês! Ninguém assistiu ao formidável / Enterro de tua última quimera”. O poema fala de um homem que vê seus sonhos morrerem, enterrados sem que ninguém perceba, e conclui com uma imagem sombria: o coração, acostumado a sofrer, acaba se acostumando com a dor, como um verme que se acostuma com a podridão. Outro poema muito cobrado é “Psicologia de um vencido”, em que o eu lírico se descreve como um ser em decomposição, com “vermes” e “bactérias” devorando seu corpo, em uma mistura de ciência e desespero. Há ainda “O morcego”, em que o poeta se compara ao morcego, animal noturno e repulsivo, e “A ideia”, em que ele descreve o pensamento como algo que apodrece. Em todos eles, o vocabulário científico aparece com força: palavras como “carbono”, “amoníaco”, “bactéria”, “protoplasma” e “neurose” convivem com palavras de dor, morte e angústia.
Por que Augusto dos Anjos usa tanto o vocabulário da ciência? Porque ele viveu em uma época em que a ciência, sobretudo a biologia, o evolucionismo e a medicina, estava transformando a visão de mundo das pessoas. A ideia de que o ser humano é um organismo sujeito às mesmas leis da natureza, que nasce, adoece e morre, e que a morte não é um mistério romântico, mas um processo físico de decomposição, aparece em sua poesia com uma força brutal. Ao mesmo tempo, Augusto dos Anjos era um poeta profundamente pessimista, influenciado pelo filósofo alemão Schopenhauer, para quem a vida é sofrimento, e pelo cientificismo do fim do século 19. O resultado é uma poesia que mistura ciência, pessimismo e angústia existencial, em uma combinação que não existia na poesia brasileira até então.
Para a prova, Augusto dos Anjos costuma aparecer em oposição ao Parnasianismo. Enquanto o parnasiano buscava a beleza, a perfeição formal e os temas nobres, Augusto dos Anjos buscava o feio, o repulsivo e o sombrio, usando a mesma forma do soneto para dizer o oposto do que os parnasianos diziam. Essa oposição é a chave de muitas questões: se o texto tem soneto, mas fala de vermes, morte e decomposição, com vocabulário científico, é Augusto dos Anjos, e a característica cobrada é a ruptura com o Parnasianismo, mesmo mantendo a forma tradicional. Outra chave é o expressionismo avant la lettre: a poesia de Augusto dos Anjos é carregada de emoção, de exagero, de imagens fortes, antecipando, em alguns aspectos, a poesia expressionista do século 20. Não é preciso decorar rótulos complicados: basta lembrar que Augusto dos Anjos é o poeta do feio, da morte e da ciência, que usa a forma tradicional para dizer coisas chocantes.
Outros nomes que você precisa conhecer
Além dos quatro grandes, outros autores completam o quadro do Pré-Modernismo e aparecem, com menos frequência, em vestibulares mais tradicionais, como a Fuvest, a Unicamp e a UFRGS. Graça Aranha, com Canaã (1902), publicado no mesmo ano de Os Sertões, conta a história de dois imigrantes alemães, Milkau e Lentz, que chegam ao Espírito Santo e enfrentam o choque cultural, o preconceito, a exploração e a dificuldade de adaptação ao Brasil. O romance discute a imigração, a miscigenação e o futuro do país, com uma visão idealizada do imigrante como agente de progresso, que hoje é criticada, mas que na época representava um debate central: o Brasil deveria se europeizar pela imigração ou valorizar a sua própria população? Graça Aranha, depois, participaria da Semana de Arte Moderna, em 1922, abrindo o evento com a conferência “A emoção estética na arte moderna”, o que mostra, mais uma vez, a travessia do Pré-Modernismo para o Modernismo.
Simões Lopes Neto, gaúcho, é o autor dos Contos gauchescos (1912) e das Lendas do Sul (1913), em que ele retrata o gaúcho, o pampa, as estâncias, as revoluções e os costumes do Rio Grande do Sul, com uma linguagem que mistura o português culto com o falar regional, narrada muitas vezes pelo personagem Blau Nunes, um velho contador de causos. Simões Lopes Neto é o grande nome do regionalismo gaúcho e um exemplo de como o Pré-Modernismo valorizou as culturas regionais brasileiras, contra a centralização cultural do Rio de Janeiro e de São Paulo. Valdomiro Silveira, paulista, fez algo parecido com os caboclos do interior de São Paulo, em contos como Os caboclos (1920), e Afonso Arinos, mineiro, retratou o sertão de Minas Gerais em Pelo sertão (1898), uma obra que, embora anterior a 1902, já antecipa o regionalismo pré-modernista. Esses autores mostram que o regionalismo não foi um fenômeno de um só lugar: ele aconteceu no Sul, no Sudeste e no Nordeste, com sotaques e paisagens diferentes, mas com a mesma preocupação de dar voz ao interior.
Há ainda os poetas de transição, que começaram no fim do século 19 e atravessaram o Pré-Modernismo. Manuel Bandeira, pernambucano, publicou A cinza das horas em 1917, um livro ainda marcado pelo Simbolismo e pelo Parnasianismo, com poemas melancólicos sobre a doença, a tuberculose e a morte, mas que já trazia uma linguagem mais simples e uma emoção mais direta. Depois, Bandeira se tornaria um dos maiores poetas modernistas, com Libertinagem (1930), e essa trajetória é um ótimo exemplo de transição. Guilherme de Almeida, Olegário Mariano e outros poetas do período também fizeram essa travessia. E há, por fim, autores que ficaram à margem do Modernismo, como os poetas parnasianos tardios, que continuaram escrevendo sonetos perfeitos e decorativos até bem depois de 1922, mostrando que a história da literatura não é uma linha reta: o velho e o novo convivem, por muito tempo, lado a lado.
Para o estudante, a lição é simples: não tente decorar todos os nomes secundários com o mesmo peso dos quatro grandes. Priorize Euclides, Lima Barreto, Lobato e Augusto dos Anjos, e saiba reconhecer os outros quando eles aparecerem: Graça Aranha é imigração, Simões Lopes Neto é gaúcho e pampa, Valdomiro Silveira é caboclo paulista, Afonso Arinos é sertão mineiro, Manuel Bandeira é a travessia para o Modernismo. Com esse mapa, você resolve a maioria das questões que citam esses autores, sem precisar ler todas as obras.
A ruptura com o Parnasianismo e a antecipação do Modernismo
A ruptura com o Parnasianismo é o eixo que organiza o estudo do Pré-Modernismo, e vale a pena entendê-la com calma, porque ela aparece em quase todas as questões comparativas. O Parnasianismo, que dominou a poesia brasileira entre 1880 e 1900, defendia a arte pela arte, a perfeição formal, a impessoalidade, o distanciamento da realidade imediata e a busca de temas universais e nobres. O poeta parnasiano era como um ourives, que lapidava o verso até ele ficar perfeito, sem se importar com o que estava acontecendo nas ruas. O Pré-Modernismo rompe com isso em três níveis. Primeiro, no nível dos temas: em vez da Grécia antiga e da beleza idealizada, os pré-modernistas falam do sertão, do subúrbio, do caipira, do preconceito e da doença. Segundo, no nível da linguagem: em vez do vocabulário rebuscado e distante, Lima Barreto e Lobato usam uma linguagem mais simples, regional e próxima da fala, e Augusto dos Anjos usa o vocabulário da ciência, que os parnasianos considerariam feio. Terceiro, no nível da função da literatura: em vez da arte pela arte, os pré-modernistas defendem uma literatura engajada, que denuncia, critica e propõe mudanças, mesmo que isso custe a beleza formal.
Mas a ruptura não foi total, e isso é fundamental. Euclides mantém uma prosa rebuscada, cheia de termos técnicos e imagens grandiosas. Augusto dos Anjos mantém o soneto. Lima Barreto mantém a estrutura do romance tradicional. Lobato mantém uma prosa clara, mas ainda presa a modelos do século 19. Ou seja, o Pré-Modernismo rompe com o conteúdo e com a visão de mundo do Parnasianismo, mas ainda não rompe totalmente com as formas. O Modernismo, em 1922, vai completar essa ruptura, quebrando as formas também: versos livres, sem rima e sem métrica fixa, linguagem coloquial, humor, ironia, fragmentação e experimentação. Por isso, dizemos que o Pré-Modernismo antecipa o Modernismo: ele já tem o conteúdo novo, o Brasil real, a crítica social, a linguagem brasileira, mas ainda não tem a forma nova, que só viria com os modernistas.
Essa antecipação aparece em pontos muito concretos, que você pode usar como argumentos em questões discursivas e como chaves em questões de múltipla escolha. Lima Barreto antecipa a linguagem coloquial e a crítica social dos modernistas. Euclides antecipa o interesse modernista pelo interior e pelo nacional. Lobato antecipa o interesse modernista pelo caipira, pela cultura popular e pela identidade brasileira. Augusto dos Anjos antecipa a liberdade temática e a valorização do feio e do cotidiano, que os modernistas levariam adiante. Graça Aranha antecipa o debate sobre a identidade nacional. Simões Lopes Neto antecipa a valorização do regional e do popular. Quando a questão perguntar “o que o Pré-Modernismo antecipa do Modernismo”, a resposta é quase sempre uma dessas: o tema nacional, a linguagem brasileira, a crítica social ou a valorização do regional e do popular.
Tabelas de revisão
As duas tabelas abaixo resumem o que você precisa saber para a prova. Use-as como material de revisão rápida na véspera do exame, e tente reproduzi-las de memória, sem olhar, como exercício de fixação.
| Autor | Obra principal | Ano | Tema central | Marca do período |
|---|---|---|---|---|
| Euclides da Cunha | Os Sertões | 1902 | Guerra de Canudos e o sertanejo | Denúncia, ciência e literatura, “o sertanejo é, antes de tudo, um forte” |
| Lima Barreto | Triste fim de Policarpo Quaresma | 1915 | Nacionalismo ingênuo e burocracia | Sátira, subúrbio, preconceito, linguagem simples |
| Lima Barreto | Recordações do escrivão Isaías Caminha | 1909 | Racismo e jornalismo | Denúncia do preconceito e da hipocrisia |
| Monteiro Lobato | Urupês (Jeca Tatu) | 1918 | Caipira e interior paulista | Regionalismo, do preconceito à denúncia do abandono |
| Augusto dos Anjos | Eu | 1912 | Morte, decomposição e angústia | Vocabulário científico, soneto com conteúdo chocante |
| Graça Aranha | Canaã | 1902 | Imigração e choque cultural | Debate sobre identidade nacional |
| Simões Lopes Neto | Contos gauchescos | 1912 | Gaúcho e pampa | Regionalismo gaúcho, linguagem regional |
| Aspecto | Parnasianismo | Pré-Modernismo | Modernismo (1922) |
|---|---|---|---|
| Função da literatura | Arte pela arte, beleza formal | Denúncia social e conhecimento do Brasil | Renovação estética e identidade nacional |
| Temas | Antiguidade, beleza ideal, natureza decorativa | Sertão, subúrbio, interior, preconceito, doença | Brasil, cultura popular, cotidiano, linguagem brasileira |
| Linguagem | Rebuscada, culta, distante da fala | Transição: simples em Lima Barreto, regional em Lobato, científica em Augusto dos Anjos | Coloquial, livre, experimental |
| Forma | Soneto perfeito, métrica rígida | Formas tradicionais com conteúdo novo | Verso livre, fragmentação, humor e paródia |
| Visão do Brasil | Distante, europeizada, idealizada | Crítica, denúncia dos dois Brasis | Crítica e celebração do Brasil real e popular |
Linha do tempo do Pré-Modernismo
- 1888 — Abolição da escravidão, que deixa milhares de ex-escravizados sem terra, sem emprego e sem assistência, tema que Lima Barreto denunciaria depois.
- 1889 — Proclamação da República, que inaugura a República Velha, dominada pelas oligarquias do café.
- 1896–1897 — Guerra de Canudos, no interior da Bahia, com o massacre da comunidade liderada por Antônio Conselheiro.
- 1898 — Afonso Arinos publica Pelo sertão, antecipando o regionalismo pré-modernista.
- 1902 — Euclides da Cunha publica Os Sertões e Graça Aranha publica Canaã: o marco inicial do Pré-Modernismo.
- 1904 — Revolta da Vacina, no Rio de Janeiro, contra as medidas sanitárias autoritárias de Oswaldo Cruz e as reformas de Pereira Passos.
- 1909 — Lima Barreto publica Recordações do escrivão Isaías Caminha, denunciando o racismo e a hipocrisia da imprensa.
- 1912 — Augusto dos Anjos publica Eu e Simões Lopes Neto publica os Contos gauchescos.
- 1914 — Monteiro Lobato publica o artigo “Velha praga”, em que nasce o Jeca Tatu, e morre Augusto dos Anjos, aos 30 anos.
- 1915 — Lima Barreto publica em livro Triste fim de Policarpo Quaresma, sátira do nacionalismo ufanista.
- 1917 — Manuel Bandeira publica A cinza das horas e Lobato critica a exposição de Anita Malfatti, em um episódio que ajuda a precipitar o Modernismo.
- 1918 — Monteiro Lobato publica Urupês e revê a figura do Jeca Tatu, agora como vítima do abandono e da doença.
- 1922 — Semana de Arte Moderna, em São Paulo, marca o início oficial do Modernismo e o fim do período pré-modernista; morre Lima Barreto.


Mapa mental
Para revisar o Pré-Modernismo em cinco minutos, siga este mapa mental, do centro para as pontas. No centro, escreva PRÉ-MODERNISMO (1902–1922). Dele, saem quatro ramos principais. O primeiro ramo é o que é: período de transição, heterogêneo, sem manifesto único, entre o Parnasianismo e o Modernismo. O segundo ramo é o contexto: República Velha, oligarquias do café, coronelismo, dois Brasis, reformas do Rio, Guerra de Canudos e Revolta da Vacina. O terceiro ramo é os autores: Euclides e o sertão, Lima Barreto e o subúrbio, Lobato e o Jeca Tatu, Augusto dos Anjos e a poesia da morte, mais Graça Aranha e Simões Lopes Neto no regionalismo. O quarto ramo é as marcas: denúncia social, regionalismo, ruptura com a arte pela arte, linguagem em transição e antecipação do Modernismo. Se você conseguir expandir cada ramo com um exemplo, uma obra e uma característica, você já domina o tema. Um exercício útil é desenhar esse mapa à mão, sem consultar o artigo, e depois conferir o que faltou: o que faltar é o que você precisa revisar.
SAQ — Perguntas e respostas rápidas
1. O que é o Pré-Modernismo?
É o período da literatura brasileira entre 1902 e 1922, de transição entre o Parnasianismo e o Modernismo, marcado pela denúncia social e pelo retrato do Brasil real, sem ser um movimento único com manifesto.
2. Por que o Pré-Modernismo não é considerado um movimento único?
Porque não teve manifesto, programa estético comum nem unidade de estilo: Euclides, Lima Barreto, Lobato e Augusto dos Anjos escreveram de jeitos muito diferentes, unidos apenas pela atitude de romper com a arte pela arte e olhar para a realidade brasileira.
3. Quais são os marcos inicial e final do Pré-Modernismo?
O marco inicial é a publicação de Os Sertões, de Euclides da Cunha, em 1902, e o marco final é a Semana de Arte Moderna, em 1922, que inaugura o Modernismo no Brasil.
4. O que Euclides da Cunha quis dizer com “o sertanejo é, antes de tudo, um forte”?
Que o sertanejo, apesar da pobreza e do abandono, é resistente, adaptado ao sertão e capaz de enfrentar a seca e a guerra, contrariando a visão preconceituosa de que ele seria fraco ou fanático.
5. Qual é a crítica central de Triste fim de Policarpo Quaresma?
A sátira do nacionalismo ufanista: Policarpo ama um Brasil idealizado, dos discursos, e não o Brasil real, e por isso suas propostas patrióticas fracassam e ele termina fuzilado pelo governo que admirava.
6. Por que Monteiro Lobato mudou a visão sobre o Jeca Tatu?
Porque percebeu, com o movimento sanitarista, que o caipira não era preguiçoso por natureza, e sim doente, com amarelão e outras enfermidades, mal alimentado e abandonado pelo Estado, sem escola e sem assistência médica.
7. Por que Augusto dos Anjos rompe com o Parnasianismo mesmo usando o soneto?
Porque mantém a forma tradicional, mas usa um conteúdo oposto ao parnasiano: em vez da beleza ideal, ele escreve sobre vermes, decomposição, morte e angústia, com vocabulário científico, chocando os leitores da época.
Questões comentadas
As questões abaixo são originais, criadas no estilo do ENEM, para treino. Elas não reproduzem nenhuma questão real de prova.
Questão 1. Leia o trecho adaptado, criado para este exercício, no espírito de Os Sertões: “O homem do sertão, magro e queimado pelo sol, conhece cada pedra do caminho e resiste onde o soldado da cidade desanima. Não é a terra que o vence, e sim o abandono de quem deveria conhecê-lo.” Com base no Pré-Modernismo, o trecho revela, principalmente: a) a defesa da arte pela arte e do distanciamento da realidade; b) a reabilitação do sertanejo como forte e a denúncia do desconhecimento do Brasil litorâneo sobre o interior; c) a exaltação do progresso urbano e das reformas da capital; d) a idealização romântica do sertanejo como herói sem defeitos; e) a defesa da imigração europeia como solução para o sertão.
Gabarito: B. O trecho retoma a tese central de Euclides da Cunha: o sertanejo é forte e resistente, e o problema não está nele, mas no abandono e na ignorância do Brasil oficial sobre o interior. A alternativa A descreve o Parnasianismo, não o Pré-Modernismo. A C fala do Rio de Janeiro, não do sertão. A D confunde reabilitação com idealização romântica: Euclides não idealiza o sertanejo, ele o descreve com rigor e denuncia o massacre. A E trata de outro tema, o de Graça Aranha, não o de Euclides.
Questão 2. Um estudante afirma que Lima Barreto escreveu com linguagem simples porque não dominava a norma culta. Essa afirmação está: a) correta, pois Lima Barreto era um escritor sem formação; b) correta, pois a simplicidade era um defeito reconhecido pelo próprio autor; c) incorreta, pois a simplicidade era uma escolha consciente, de aproximação com o povo e de crítica à literatura rebuscada das elites; d) incorreta, pois Lima Barreto escrevia com linguagem rebuscada, como os parnasianos; e) correta, pois os modernistas também criticavam a linguagem de Lima Barreto.
Gabarito: C. Lima Barreto defendia deliberadamente uma linguagem clara e próxima da fala brasileira, como forma de democratizar a literatura e criticar o artificialismo da época. Essa escolha antecipa a linguagem coloquial dos modernistas. As demais alternativas invertem o sentido da sua obra ou confundem sua posição com a dos parnasianos.
Questão 3. Sobre o Jeca Tatu, de Monteiro Lobato, é correto afirmar que: a) ele sempre foi apresentado como um herói trabalhador e próspero; b) ele passou de símbolo da preguiça do caipira a símbolo do abandono do Estado, da doença e da falta de assistência; c) ele é um personagem do sertão nordestino, criado para denunciar a Guerra de Canudos; d) ele representa o imigrante europeu que enriqueceu no interior de São Paulo; e) ele foi criado por Euclides da Cunha, em Os Sertões.
Gabarito: B. A trajetória do Jeca Tatu é justamente essa virada: de preguiçoso, na primeira versão, a doente e abandonado, na revisão de Lobato, depois do contato com o movimento sanitarista. A A ignora a primeira versão. A C confunde Lobato com Euclides e o interior paulista com o sertão nordestino. A D confunde Jeca com o imigrante de Canaã. A E troca o autor.
Questão 4. Um poema apresenta, em forma de soneto, imagens de vermes, bactérias e decomposição, com palavras da ciência e um tom de angústia diante da morte. Esse poema se aproxima, principalmente, de: a) um soneto parnasiano, pela busca da beleza ideal e dos temas nobres; b) um poema romântico, pela idealização da natureza e do amor; c) um poema de Augusto dos Anjos, pela ruptura temática com o Parnasianismo, mantendo a forma tradicional; d) um poema modernista de versos livres, pela experimentação formal; e) um poema simbolista, pela sugestão vaga e musical, sem imagens concretas.
Gabarito: C. A combinação de forma tradicional, o soneto, com conteúdo chocante, científico e sombrio é a marca de Augusto dos Anjos. A A descreve o Parnasianismo, mas o conteúdo do poema é o oposto do parnasiano. A B e a E descrevem outros movimentos. A D exigiria verso livre, que não aparece no enunciado.
Questão 5. O Pré-Modernismo é chamado de período de transição porque: a) seus autores escreveram manifestos modernistas antes de 1922; b) ele rompeu totalmente, na forma e no conteúdo, com toda a literatura anterior; c) ele manteve os temas parnasianos, mudando apenas a linguagem; d) ele rompeu com os temas e a visão de mundo da literatura anterior, mas manteve, em grande parte, as formas tradicionais, preparando a renovação modernista; e) ele ignorou a realidade brasileira e se concentrou apenas na experimentação estética.
Gabarito: D. A transição está justamente nessa combinação: conteúdo novo, o Brasil real e a denúncia social, com formas ainda tradicionais, como o soneto e o romance clássico. A A é falsa, pois não houve manifesto pré-modernista. A B exagera, pois a ruptura formal só viria com o Modernismo. A C inverte o processo. A E descreve o oposto do Pré-Modernismo.
Questão 6. Em um debate sobre o Brasil atual, um aluno cita o Pré-Modernismo para falar da distância entre o discurso oficial e a vida das pessoas no interior e nas periferias. Essa citação é adequada porque o período: a) defendia a arte pela arte e se recusava a falar de política; b) retratou apenas a vida das elites urbanas e europeizadas; c) denunciou, com autores como Euclides, Lima Barreto e Lobato, o abandono do interior, o preconceito e a desigualdade, temas que continuam atuais; d) propôs a cópia da literatura europeia como solução para os problemas brasileiros; e) tratou apenas de temas universais, sem relação com o Brasil.
Gabarito: C. A atualidade do Pré-Modernismo está na denúncia dos dois Brasis, do abandono do interior e do preconceito, temas que persistem. As demais alternativas descrevem o Parnasianismo, a literatura oficial ou o oposto do projeto pré-modernista.
Dica do professor
Na véspera da prova, não tente reler tudo: faça o teste dos quatro nomes. Pegue uma folha em branco e escreva, de memória, para cada autor, uma obra, um tema e uma característica. Euclides: Os Sertões, Canudos, o sertanejo é um forte. Lima Barreto: Policarpo Quaresma, nacionalismo ingênuo, linguagem simples e sátira. Lobato: Urupês, Jeca Tatu, doente e abandonado, não preguiçoso. Augusto dos Anjos: Eu, morte e decomposição, vocabulário científico no soneto. Se você acertar esses quatro, sem olhar, você já garante a maioria das questões de Pré-Modernismo. Depois, revise apenas a tabela comparativa com o Parnasianismo e o Modernismo, porque as questões comparativas são as que mais derrubam quem só decorou nomes soltos. E, se sobrar tempo, leia um poema de Augusto dos Anjos e um trecho de Lima Barreto: sentir a linguagem dos autores vale mais do que decorar mais dez datas.
Atenção/cuidado
Cuidado com quatro confusões clássicas. Primeira: não chame o Pré-Modernismo de movimento único com manifesto, porque ele não teve manifesto nem unidade de estilo, e essa é uma das características mais cobradas. Segunda: não confunda Monteiro Lobato com modernista: ele antecipou temas modernistas, mas criticou a Semana de Arte Moderna e manteve uma estética mais tradicional. Terceira: não reduza o Jeca Tatu à preguiça: a versão final de Lobato diz que ele era doente e abandonado, e a prova cobra justamente essa virada. Quarta: não confunda Augusto dos Anjos com parnasiano só porque ele usa o soneto: a forma é tradicional, mas o conteúdo é o oposto do Parnasianismo, e é essa contradição que define o poeta. Um cuidado extra: Os Sertões não é um romance, e sim uma obra híbrida de ensaio, história e narrativa, e Triste fim de Policarpo Quaresma não é um elogio ao patriotismo, e sim uma sátira do nacionalismo ingênuo. Trocar o sinal dessas obras, elogiando o que elas criticam, é o erro mais comum nas questões de interpretação.
Conexão com outras áreas
O Pré-Modernismo conversa diretamente com a História do Brasil, sobretudo com a República Velha, o coronelismo, a Guerra de Canudos, a Revolta da Vacina e as reformas urbanas do Rio de Janeiro. Conversa com a Geografia, quando Euclides descreve o sertão, a seca e a caatinga, e quando Lobato discute a agricultura e o interior paulista. Conversa com a Sociologia, quando Lima Barreto denuncia o racismo, a burocracia e a exclusão social, e quando o debate sobre o Jeca Tatu coloca em questão a relação entre pobreza, saúde e Estado. Conversa com a Biologia e com a saúde pública, quando o movimento sanitarista explica o amarelão e a malária no interior, e quando Augusto dos Anjos usa o vocabulário da ciência para falar do corpo e da morte. E conversa com a própria Literatura, porque o Pré-Modernismo só se entende em comparação com o Parnasianismo, com o Naturalismo e com o Modernismo, em uma linha de continuidade e ruptura que atravessa toda a história literária brasileira. Para revisar, vale a pena reler também os artigos sobre Arcadismo, prosa romântica e Realismo e Naturalismo, e praticar a interpretação de texto, que é a habilidade mais cobrada quando o Pré-Modernismo aparece no ENEM e nos vestibulares.
Incidência
Incidência: Morno. O Pré-Modernismo não é o tema mais cobrado da Literatura, como o Modernismo ou o Romantismo, mas aparece com regularidade no ENEM e nos vestibulares, quase sempre por meio de um dos quatro grandes autores, e muitas vezes em questões comparativas com o Parnasianismo ou com o Modernismo. Por isso, ele vale o investimento de uma revisão concentrada: com poucas horas de estudo, você cobre um tema que pode render questões em Literatura, em História e em interpretação de texto. Priorize os quatro autores, as quatro obras principais e a ideia de transição, e revise este artigo na véspera da prova usando as tabelas, a linha do tempo e o mapa mental.



