
Direto ao assunto
- Resumo rápido
- O que significa “contemporâneo” em literatura?
- O contexto histórico: do pós-guerra ao Brasil de hoje
- As grandes tendências da literatura contemporânea brasileira
- Autores e obras que você precisa conhecer
- Dois romances para entender o Brasil de hoje
- Como a literatura contemporânea cai no Enem e nos vestibulares
- Mapa mental
- SAQ — Perguntas de autoavaliação
- Questões comentadas
- Dica do professor
- Atenção/cuidado
- Conexão com outras áreas
- Incidência
Quando falamos em literatura contemporânea, falamos de uma literatura que ainda está acontecendo. Não é um período fechado, com começo, meio e fim bem definidos, como o Romantismo ou o Parnasianismo. É a produção literária das últimas décadas, que vai aproximadamente de 1945 até os dias de hoje, e que continua se transformando enquanto você lê este artigo. Por isso, estudar literatura contemporânea é um desafio diferente: não basta decorar características de um movimento, porque não há um único movimento. Há muitos caminhos ao mesmo tempo, muitas vozes, muitas formas de escrever — e é justamente essa pluralidade que o Enem e os vestibulares mais gostam de cobrar.
Se a literatura brasileira já foi contada, por muito tempo, quase sempre a partir dos mesmos nomes — homens, brancos, do Sudeste, formados nas elites —, a literatura contemporânea rompeu essa moldura. Entraram em cena, com força, escritoras, escritores negros, indígenas, periféricos, nordestinos, amazônicos, pessoas que escrevem a partir de lugares e experiências que antes quase não apareciam nos livros. Ao mesmo tempo, as formas também se multiplicaram: romance, conto, crônica, poesia falada em praça pública, literatura publicada primeiro na internet e só depois em papel, livros que misturam ficção, memória, reportagem e ensaio. Neste artigo, você vai entender como organizar esse mapa, quem são os principais autores, quais obras aparecem nas provas e como reconhecer, num trecho desconhecido, as marcas da literatura de hoje.
Resumo rápido
- Quando: de 1945 até hoje, com maior ênfase na produção a partir dos anos 1960, 1970 e, sobretudo, das últimas três décadas.
- O que é: a literatura produzida no Brasil (e no mundo) depois da terceira geração do Modernismo, sem um único manifesto ou programa comum.
- Marca central: pluralidade. Não há um estilo dominante: convivem realismo, fantasia, autoficção, poesia experimental, literatura periférica, literatura indígena e literatura de testemunho.
- Temas recorrentes: identidade, memória, violência urbana, desigualdade social, racismo, questão de gênero, ditadura militar, Amazônia, migração, vida nas periferias, relações familiares e busca de sentido na vida contemporânea.
- Autores essenciais: Clarice Lispector e Guimarães Rosa (ponte com o período anterior), Conceição Evaristo, Milton Hatoum, Bernardo Carvalho, Adriana Lisboa, Daniel Munduruku, Eliane Potiguara, Ferréz, Paulo Lins, Cristovão Tezza, Chico Buarque, Itamar Vieira Junior, Ailton Krenak, entre outros.
- Obras-chave: Dois Irmãos (2000), Cidade de Deus (1997), Ponciá Vicêncio (2003), Torto Arado (2019), Ideias para Adiar o Fim do Mundo (2019), Olhos d’Água (2014).
- Como cai na prova: interpretação de trechos; identificação de vozes narrativas, de procedimentos como autoficção e fragmentação; relação entre literatura e contexto social; comparação com períodos anteriores.
- Incidência: Morno — aparece com regularidade no Enem, sobretudo em interpretação, e com força crescente nos vestibulares, que incluem obras contemporâneas em suas listas.
O que significa “contemporâneo” em literatura?
Em literatura, “contemporâneo” não é apenas sinônimo de “recente”. Um livro publicado no ano passado pode dialogar com formas antigas, e um livro de 1960 pode parecer mais atual do que muita coisa escrita hoje. Mesmo assim, os livros didáticos costumam usar um marco prático: a literatura contemporânea começa depois da terceira geração do Modernismo, a chamada Geração de 45, com Guimarães Rosa, Clarice Lispector e João Cabral de Melo Neto. A partir daí, a literatura brasileira entra numa fase em que nenhum grupo consegue impor um programa único, como a Semana de Arte Moderna de 1922 tentou fazer. O que existe é uma convivência de projetos diferentes, às vezes opostos, e é isso que torna o período tão rico — e tão difícil de resumir.
Outro ponto importante: o contemporâneo não é um estilo, é um tempo. Dentro dele cabem o romance realista e o romance fantástico, a poesia rigorosa e a poesia falada, o texto intimista e o texto de denúncia. Por isso, desconfie de resumos que tentam definir a literatura contemporânea com uma única palavra, como “fragmentada” ou “experimental”. A fragmentação existe, sim, em muitos autores, mas ela convive com narrativas lineares, com romances de família, com crônicas leves e com poemas líricos tradicionais. Na prova, o que vale é saber reconhecer, em cada texto, qual é o projeto daquele autor, e não aplicar um rótulo geral a todos.
Vale também distinguir dois usos da palavra “contemporâneo” que aparecem nas provas. Às vezes, ela designa todo o período posterior a 1945. Outras vezes, de forma mais restrita, designa apenas a produção das últimas décadas, a partir dos anos 1980 ou 1990, quando se consolidaram a literatura periférica, a literatura indígena contemporânea e a presença forte de escritoras negras. Quando a questão usar o termo, observe o contexto e as datas: se ela falar de Conceição Evaristo ou de Itamar Vieira Junior, está no sentido restrito; se falar de Clarice Lispector ou de João Cabral, está no sentido amplo, de ponte entre o Modernismo e o presente.
O contexto histórico: do pós-guerra ao Brasil de hoje
A literatura contemporânea nasce num Brasil que muda muito rápido. Depois de 1945, com o fim da Segunda Guerra Mundial e do Estado Novo, o país vive a redemocratização, a urbanização acelerada, a industrialização e a chegada da televisão e da cultura de massa. Nos anos 1960, o golpe militar de 1964 impõe a ditadura, a censura e a repressão — e a literatura responde com alegorias, metáforas, textos cifrados e, depois, com relatos de memória e de resistência. A redemocratização dos anos 1980, a Constituição de 1988, a expansão das universidades e, mais recentemente, a internet e as redes sociais transformaram quem escreve, quem publica e quem lê.
Cada uma dessas mudanças deixou marcas na literatura. A ditadura, por exemplo, aparece em romances de memória e em narrativas sobre desaparecidos, exilados e famílias partidas, como em obras de Bernardo Carvalho e de Chico Buarque. A urbanização e a violência das grandes cidades aparecem em Cidade de Deus, de Paulo Lins, e em Capão Pecado, de Ferréz. A luta por direitos, a partir dos anos 1980 e 1990, abre espaço para vozes antes silenciadas: mulheres negras, indígenas, moradores de periferia passam a publicar, a fundar coletivos, a organizar saraus e a disputar o próprio conceito de literatura brasileira. E a Amazônia, com suas queimadas, seus povos e seus conflitos, torna-se um dos grandes temas do presente, em autores como Milton Hatoum e em ensaios de Ailton Krenak.
Para a prova, esse contexto não é um enfeite: ele é uma chave de leitura. Quando o Enem apresenta um trecho de literatura contemporânea, quase sempre quer que o candidato perceba a relação entre o texto e o mundo em que ele foi escrito. Um romance sobre uma família de Manaus não é só uma história de família; é também uma forma de falar da Amazônia, da migração libanesa, da decadência de um ciclo econômico. Um conto de Conceição Evaristo não é só um retrato individual; é uma forma de dar voz a uma experiência coletiva de mulheres negras no Brasil. Aprender a fazer essa ponte entre texto e contexto é metade do caminho para acertar as questões.
As grandes tendências da literatura contemporânea brasileira
1. A prosa intimista e a autoficção
Uma das tendências mais fortes da literatura atual é a mistura entre vida e ficção. Na chamada autoficção, o autor escreve um romance em que o protagonista se parece muito com ele próprio, usa seu nome ou episódios de sua biografia, mas sem prometer que tudo aquilo aconteceu de verdade. O leitor fica num terreno ambíguo: é ficção ou é memória? Essa ambiguidade é proposital. Autores como Cristovão Tezza, em O Filho Eterno (2007), e Chico Buarque, em Leite Derramado (2009), trabalham nessa fronteira. Em O Filho Eterno, o narrador é um pai que acompanha o nascimento e o crescimento de um filho com síndrome de Down, e o livro mistura relato, reflexão e invenção de um jeito que comove justamente porque não se resolve numa única leitura.
Essa tendência tem parentesco direto com Clarice Lispector e com a prosa intimista da Geração de 45: o foco está na vida interior, no tempo psicológico, nos pequenos acontecimentos do cotidiano que revelam grandes questões. A diferença é que, hoje, essa introspecção convive com referências explícitas ao mundo exterior — à política, à cidade, ao trabalho, à doença, ao envelhecimento — e com uma linguagem mais próxima da fala cotidiana, menos trabalhada poeticamente do que a de Clarice, mas nem por isso menos cuidadosa.
2. A literatura periférica e a literatura marginal
Nos anos 1990 e 2000, surgiu com força a chamada literatura periférica, também chamada de literatura marginal: textos escritos por autores das periferias das grandes cidades, muitas vezes publicados de forma independente, vendidos em saraus e em feiras, e só depois acolhidos pelas grandes editoras. O marco mais conhecido é Cidade de Deus (1997), de Paulo Lins, romance que retrata a favela carioca de mesmo nome desde os anos 1960 até os anos 1980, com uma linguagem rápida, cinematográfica, cheia de gírias e de cortes bruscos. Outro marco é Capão Pecado (2000), de Ferréz, que narra a vida no Capão Redondo, na zona sul de São Paulo, a partir de dentro, sem o olhar de fora do jornalista ou do sociólogo.
O ponto central dessa literatura é o lugar de fala: quem conta a periferia é quem vive nela. Por isso, os textos valorizam a linguagem local, os códigos de conduta, as redes de solidariedade e também a violência, sem romantizar nem demonizar. Nos vestibulares, a literatura periférica costuma aparecer em questões sobre representação social, sobre a diferença entre narrar de dentro e narrar de fora, e sobre a relação entre literatura e denúncia. Atenção: “marginal” aqui não significa “de má qualidade”, como às vezes se pensa. Significa “à margem” do circuito tradicional de publicação — e é justamente essa margem que se tornou um dos centros da literatura brasileira atual.
3. A literatura de autoria negra e feminina
Nenhuma mudança foi tão importante na literatura brasileira recente quanto a entrada em cena, com protagonismo, de escritoras negras. O nome central é Conceição Evaristo, mineira nascida em 1946, autora de Ponciá Vicêncio (2003), Becos da Memória (2006) e Olhos d’Água (2014). Evaristo criou o conceito de “escrevivência”: uma escrita que nasce da vivência, da experiência concreta de ser mulher negra no Brasil, mas que não se reduz a depoimento — é literatura, com elaboração formal, com imagens, com ritmo. Em Ponciá Vicêncio, a protagonista, descendente de pessoas escravizadas, migra do interior de Minas para a cidade grande e carrega, no corpo e na memória, a história de sua família e de seu povo.
Ao lado de Evaristo, é preciso conhecer Carolina Maria de Jesus, cuja obra Quarto de Despejo (1960) — diário de uma catadora de papel na favela do Canindé, em São Paulo — antecipou, décadas antes, muitas das questões da literatura periférica e feminina. E, entre as autoras mais recentes, destacam-se nomes como Djamila Ribeiro, no ensaio, e Ana Maria Gonçalves, autora de Um Defeito de Cor (2006), romance monumental que conta, pela voz de uma mulher africana escravizada, a história do Brasil no século dezenove. Nas provas, essas autoras aparecem em questões sobre identidade, memória, racismo estrutural e sobre a própria história da literatura: quem foi deixado de fora do cânone e por quê.
4. A literatura indígena contemporânea
A literatura indígena contemporânea é outro marco do período. Não se trata de escrever “sobre” os indígenas, como fizeram muitos autores do Romantismo, que idealizaram o índio como herói nacional, nem de registrar mitos como curiosidade. Trata-se de indígenas que escrevem, em português e em suas línguas, sobre suas próprias histórias, cosmologias e lutas. Daniel Munduruku, do povo Munduruku, é um dos pioneiros, com livros como Histórias de Índio (1996) e O Caráter Educativo do Movimento Indígena Brasileiro. Eliane Potiguara, do povo Potiguara, escreveu Metade Cara, Metade Máscara (2004), que mistura poesia, narrativa e denúncia da violência contra os povos indígenas e contra as mulheres indígenas.
O caso mais conhecido do grande público é Ailton Krenak, do povo Krenak, autor de Ideias para Adiar o Fim do Mundo (2019), A Vida Não É Útil (2020) e Futuro Ancestral (2022). Krenak não escreve romances tradicionais: seus livros reúnem falas, ensaios curtos e reflexões em que ele critica a ideia de “humanidade” que exclui a natureza, os rios, as montanhas e os outros seres, e propõe outra relação com o mundo, aprendida com os povos originários. Em 2024, Krenak tornou-se o primeiro indígena a ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras, um fato histórico que simboliza a mudança em curso. Nas provas, a literatura indígena aparece em questões sobre ponto de vista, sobre a crítica ao progresso e à destruição ambiental e sobre a pluralidade de vozes da literatura brasileira.
5. A poesia contemporânea: do Concretismo à poesia falada
A poesia contemporânea brasileira começa com um movimento de forte impacto: a poesia concreta, dos anos 1950, com Augusto de Campos, Haroldo de Campos e Décio Pignatari. Os concretistas trataram o poema como objeto visual: a disposição das palavras na página, o tamanho das letras, os espaços em branco passaram a fazer parte do sentido. Um poema concreto não se lê apenas em voz alta, de cima para baixo; ele se vê. Essa herança visual reaparece, de outros jeitos, na poesia de hoje, que circula muito em vídeo, em cartazes, em postagens na internet e em apresentações ao vivo.
Outra vertente importante é a chamada poesia marginal, dos anos 1970, com nomes como Ana Cristina Cesar, Paulo Leminski e Chacal. Na época da ditadura, esses poetas publicavam de forma independente, em edições artesanais, com linguagem coloquial, humor, referências à vida cotidiana e uma postura de liberdade diante das formas tradicionais. Ana Cristina Cesar, em livros como A Teus Pés (1982), misturou poesia, carta, diário e fragmento, criando uma escrita íntima e inquieta que influenciou gerações. Paulo Leminski, paranaense, uniu haicai, humor, filosofia oriental e linguagem de rua numa poesia curta e certeira, muito citada até hoje.
Nos últimos anos, ganhou força a poesia falada, apresentada em saraus, em competições de declamação e em vídeos, com forte presença de poetas negros e periféricos. Nessa poesia, o corpo, a voz, o ritmo e a presença do público fazem parte do poema, que muitas vezes denuncia o racismo, a violência policial e a desigualdade. Para a prova, o essencial é perceber que a poesia contemporânea não cabe num único modelo: ela pode ser visual, sonora, corporal, íntima ou de denúncia — e o que une essas formas é a liberdade formal e a proximidade com a vida cotidiana.
Autores e obras que você precisa conhecer
| Autor | Obra principal | Ano | O que é preciso saber |
|---|---|---|---|
| Milton Hatoum | Dois Irmãos | 2000 | Romance de família em Manaus; os gêmeos Yaqub e Omar; a Amazônia, a imigração libanesa e a decadência de um mundo. |
| Paulo Lins | Cidade de Deus | 1997 | Retrato da favela carioca ao longo de décadas; linguagem cinematográfica; violência, tráfico e vida comunitária. |
| Conceição Evaristo | Ponciá Vicêncio | 2003 | Escrevivência; trajetória de uma mulher negra entre o interior de Minas e a cidade; memória da escravidão. |
| Conceição Evaristo | Olhos d’Água | 2014 | Contos sobre mulheres negras; violência, afeto, resistência e memória. |
| Itamar Vieira Junior | Torto Arado | 2019 | Romance ambientado no sertão baiano; as irmãs Bibiana e Belonísia; trabalho, terra, religiosidade e herança da escravidão. |
| Bernardo Carvalho | Nove Noites | 2002 | Romance que mistura investigação, memória e ficção a partir da morte de um antropólogo no Xingu. |
| Chico Buarque | Leite Derramado | 2009 | Memória de um velho narrador, Eulálio, que revisita a história do Brasil e da própria família. |
| Cristovão Tezza | O Filho Eterno | 2007 | Autoficção sobre a paternidade de um filho com síndrome de Down; afeto, culpa e aceitação. |
| Ailton Krenak | Ideias para Adiar o Fim do Mundo | 2019 | Ensaios curtos; crítica à ideia de humanidade separada da natureza; futuro ancestral. |
| Daniel Munduruku | Histórias de Índio | 1996 | Literatura indígena contemporânea; narrativas do povo Munduruku para leitores de todas as idades. |
| Ana Cristina Cesar | A Teus Pés | 1982 | Poesia marginal; mistura de poema, carta e diário; escrita íntima e fragmentada. |
| Augusto de Campos | Poesia concreta | anos 1950 | Poema como objeto visual; palavras dispostas na página como parte do sentido. |
Dois romances para entender o Brasil de hoje
Dois Irmãos, de Milton Hatoum, é um bom exemplo de como a literatura contemporânea conta a história do Brasil por dentro de uma família. Ambientado em Manaus, o romance narra a rivalidade entre os gêmeos Yaqub e Omar, filhos de uma família de imigrantes libaneses, e acompanha, ao fundo, a transformação da Amazônia: o ciclo da borracha, a Zona Franca, a chegada da modernização e a decadência de um modo de vida. O narrador, Nael, é filho da empregada da casa, e conta a história a partir de um lugar ambíguo, entre a família e os empregados. Essa posição do narrador é uma das chaves do livro e um tema frequente nas provas: quem narra, de onde narra e o que essa posição permite ver — ou esconde.
Torto Arado, de Itamar Vieira Junior, publicado em 2019 e vencedor do Prêmio Jabuti, tornou-se um dos romances brasileiros mais lidos e cobrados dos últimos anos. Ambientado numa fazenda do sertão baiano, o livro acompanha as irmãs Bibiana e Belonísia, descendentes de pessoas escravizadas, que vivem numa terra em que trabalham mas que não lhes pertence. A narrativa alterna as vozes das irmãs e de uma entidade, Santa Rita Pescadeira, e mistura realismo e elementos do imaginário popular e das religiões de matriz africana. O título vem do arado torto, ferramenta defeituosa que marca um acidente na infância das irmãs e simboliza um Brasil que segue torto: a terra concentrada, o trabalho precário, a herança da escravidão que nunca foi reparada. Se você for ler um único romance contemporâneo antes da prova, este é um ótimo candidato.
Como a literatura contemporânea cai no Enem e nos vestibulares
No Enem, a literatura contemporânea aparece, na maioria das vezes, em questões de interpretação de texto da área de Linguagens. A prova apresenta um trecho — um poema, um conto, um fragmento de romance ou de ensaio — e pede que o candidato identifique o tema, o efeito de sentido de uma imagem, a posição do narrador ou a relação do texto com um problema social. A prova raramente exige que você saiba a data de publicação de um livro ou a biografia completa de um autor; o que ela cobra é leitura atenta. Por isso, treinar com trechos variados vale mais do que decorar listas: leia um poema de Ana Cristina Cesar, um conto de Conceição Evaristo, um trecho de Ailton Krenak e pergunte-se, em cada um, “o que este texto está dizendo sobre o mundo, e como ele diz isso?”
Nos vestibulares com lista de obras obrigatórias, o jogo é diferente. Fuvest, Unicamp e outras universidades já incluíram obras contemporâneas como Torto Arado, Dois Irmãos, Ponciá Vicêncio e Ideias para Adiar o Fim do Mundo em suas listas, e nesses casos a prova pode cobrar enredo, personagens, estrutura narrativa e relações entre as obras. Uma comparação frequente é entre Torto Arado e os romances regionalistas de 1930: o tema da terra e do sertão é parecido, mas o tratamento muda — em Itamar Vieira Junior, quem narra são as mulheres negras, descendentes de escravizados, e não um observador de fora. Outra comparação frequente é entre a literatura indígena contemporânea e o indianismo romântico: no Romantismo, o indígena era idealizado por um autor não indígena; hoje, são os próprios indígenas que escrevem.
Um tipo de questão que cresce a cada ano é a que mistura literatura e outras linguagens: um trecho de romance ao lado de uma notícia, de um gráfico ou de uma fotografia, pedindo que o candidato relacione os dois. Nessas questões, a literatura funciona como uma forma de conhecimento do Brasil, ao lado da História, da Geografia e da Sociologia. Treine esse olhar: ao ler um romance contemporâneo, pergunte-se sempre quais dados da realidade ele ilumina — a concentração fundiária, o racismo, a destruição ambiental, a vida nas periferias — e como ele os ilumina de um jeito que nenhum relatório conseguiria.


Mapa mental
- Literatura contemporânea (1945–hoje)
- Definição
- Não é um movimento único, é um tempo
- Pluralidade de estilos, vozes e formas
- Continua se transformando
- Contexto
- Pós-guerra, urbanização e cultura de massa
- Ditadura militar, censura e resistência
- Redemocratização e expansão das universidades
- Internet e novas formas de publicar e ler
- Tendências
- Prosa intimista e autoficção (Tezza, Chico Buarque)
- Literatura periférica (Paulo Lins, Ferréz)
- Autoria negra e feminina (Conceição Evaristo, Carolina Maria de Jesus)
- Literatura indígena (Daniel Munduruku, Eliane Potiguara, Ailton Krenak)
- Poesia concreta, poesia marginal e poesia falada
- Obras-chave
- Dois Irmãos — Milton Hatoum
- Cidade de Deus — Paulo Lins
- Ponciá Vicêncio e Olhos d’Água — Conceição Evaristo
- Torto Arado — Itamar Vieira Junior
- Ideias para Adiar o Fim do Mundo — Ailton Krenak
- Temas
- Identidade, memória, terra, racismo, gênero
- Violência urbana, periferia, Amazônia
- Ditadura, desigualdade, migração
- Como cai na prova
- Interpretação de trechos
- Narrador, ponto de vista e lugar de fala
- Relação entre texto e contexto social
- Comparação com períodos anteriores
- Definição
SAQ — Perguntas de autoavaliação
- Por que a literatura contemporânea não pode ser definida por um único estilo?
Resposta: Porque ela não é um movimento com manifesto único, mas um período longo em que convivem projetos diferentes — realismo, autoficção, poesia experimental, literatura periférica e literatura indígena, entre outros. - O que é autoficção?
Resposta: É uma narrativa em que o autor mistura elementos de sua própria vida com ficção, sem garantir que tudo aconteceu de verdade, criando uma ambiguidade proposital entre memória e invenção. - O que Conceição Evaristo chama de escrevivência?
Resposta: É uma escrita que nasce da vivência concreta de ser mulher negra no Brasil, transformada em literatura com elaboração formal, e não apenas em depoimento. - Qual é a diferença entre a literatura indígena contemporânea e o indianismo romântico?
Resposta: No indianismo romântico, autores não indígenas idealizavam o indígena como herói nacional; na literatura indígena contemporânea, são os próprios indígenas que escrevem sobre suas histórias, cosmologias e lutas. - O que caracteriza a poesia concreta?
Resposta: O poema é tratado como objeto visual: a disposição das palavras na página, o tamanho das letras e os espaços em branco fazem parte do sentido, e não apenas o conteúdo verbal. - Por que Torto Arado é um romance tão cobrado nos vestibulares recentes?
Resposta: Porque ele condensa temas centrais do Brasil de hoje — terra, herança da escravidão, trabalho precário, protagonismo de mulheres negras — numa narrativa com vozes alternadas e forte elaboração literária. - O que é literatura periférica?
Resposta: É a literatura escrita por autores das periferias, muitas vezes publicada de forma independente, que narra a periferia a partir de dentro, com sua linguagem, seus códigos e suas redes de solidariedade.
Questões comentadas
As questões a seguir são originais, criadas no estilo do Enem para treinar o conteúdo deste artigo. Nenhuma delas foi copiada de provas reais.
Questão 1. Leia o trecho inventado, inspirado na literatura contemporânea:
“Minha avó dizia que a terra não era nossa, mas era a gente que acordava antes do sol para cuidar dela. Eu cresci ouvindo essa frase e só entendi o que ela queria dizer quando precisei explicar, já adulta, por que minha família trabalhava tanto e tinha tão pouco.”
A voz narrativa desse trecho se aproxima da literatura contemporânea brasileira sobretudo porque:
a) idealiza o campo como um paraíso perdido, sem conflitos, como no Romantismo.
b) apresenta uma narradora que revisita a memória familiar para discutir terra, trabalho e herança histórica.
c) usa versos medidos e rimas ricas para celebrar a natureza, como no Parnasianismo.
d) descreve a cidade grande como o único espaço possível para a vida moderna.
e) defende que a literatura deve se afastar de qualquer tema social.
Gabarito: B. Comentário: a narradora parte de uma memória familiar para refletir sobre terra e trabalho, procedimento central em romances contemporâneos como Torto Arado. Não há idealização romântica nem forma fixa parnasiana, e o texto se aproxima, e não se afasta, de temas sociais.
Questão 2. Uma escritora afirma que sua escrita nasce da sua vivência como mulher negra, mas que ela trabalha cada frase, cada imagem e cada ritmo até que o texto se torne literatura, e não apenas relato pessoal. Esse conceito, criado por Conceição Evaristo, é chamado de:
a) poesia concreta.
b) indianismo.
c) escrevivência.
d) regionalismo.
e) realismo fantástico.
Gabarito: C. Comentário: escrevivência é o termo de Evaristo para uma escrita nascida da vivência, com elaboração literária. Poesia concreta diz respeito à forma visual do poema; indianismo, ao Romantismo; regionalismo, à geração de 1930.
Questão 3. Sobre a poesia concreta, é correto afirmar que:
a) ela trata o poema apenas como texto para ser lido em voz alta, sem importância para o aspecto visual.
b) ela usa a disposição das palavras na página, os espaços e o tamanho das letras como parte do sentido do poema.
c) ela proíbe qualquer experimentação formal e exige o uso do soneto.
d) ela surgiu no século dezenove, junto com o Romantismo.
e) ela se caracteriza por longas narrativas em prosa sobre a vida no campo.
Gabarito: B. Comentário: a marca do Concretismo é justamente o poema como objeto visual, em que forma e conteúdo se constroem juntos. As demais alternativas contradizem a definição do movimento ou trocam seu período histórico.
Questão 4. Um autor indígena escreve, em primeira pessoa, sobre a relação de seu povo com o rio, criticando a ideia de que a natureza existe apenas para ser explorada. Esse texto se diferencia do indianismo romântico principalmente porque:
a) ele é escrito por um autor indígena, a partir de sua própria cosmologia, e não por um observador de fora que idealiza o indígena.
b) ele evita qualquer referência à natureza.
c) ele usa obrigatoriamente versos de dez sílabas.
d) ele defende a destruição ambiental como progresso.
e) ele se passa necessariamente no século dezenove.
Gabarito: A. Comentário: a diferença central é o lugar de fala: na literatura indígena contemporânea, quem escreve é o próprio indígena, com sua visão de mundo. As demais alternativas contradizem o conteúdo do texto descrito.
Questão 5. Um romance contemporâneo mistura episódios da vida do autor com invenção, usa um narrador que se parece muito com o escritor, mas não garante que os fatos narrados aconteceram de verdade. Esse procedimento é chamado de:
a) autoficção.
b) poesia concreta.
c) crônica jornalística.
d) romance histórico documental.
e) literatura de cordel.
Gabarito: A. Comentário: autoficção é a mistura proposital entre autobiografia e ficção, sem compromisso documental. As demais alternativas descrevem outros gêneros e procedimentos, que não se definem por essa ambiguidade.
Questão 6. Compare as duas situações: em 1930, um romance regionalista denuncia a miséria do sertão a partir do olhar de um narrador externo; hoje, um romance como Torto Arado narra a vida no campo a partir das vozes de mulheres negras descendentes de pessoas escravizadas. A principal mudança entre os dois momentos está:
a) no abandono total de qualquer tema social pela literatura atual.
b) na mudança do lugar de fala: quem narra passa a ser quem vive a experiência narrada, e não apenas um observador externo.
c) na volta obrigatória às formas fixas, como o soneto.
d) na proibição de narradores em primeira pessoa.
e) na ausência de qualquer relação entre literatura e História.
Gabarito: B. Comentário: a literatura contemporânea ampliou quem pode narrar: protagonistas e narradoras que antes apareciam apenas como personagens passam a contar suas próprias histórias. As demais alternativas descrevem movimentos opostos ao que de fato aconteceu.
Dica do professor
Não tente decorar a literatura contemporânea como uma lista de nomes: leia um livro inteiro. Comece por Torto Arado, de Itamar Vieira Junior, ou por Olhos d’Água, de Conceição Evaristo — são leituras acessíveis, envolventes e que aparecem com frequência nas provas. Enquanto lê, anote: quem narra? De onde essa pessoa fala? Qual problema social aparece por trás da história individual? Com essas três perguntas respondidas para dois ou três livros, você resolve a maioria das questões sobre literatura contemporânea, porque o Enem cobra exatamente esse olhar: texto, narrador e contexto juntos.
Atenção/cuidado
- Não reduza o contemporâneo a um estilo só: fragmentação, experimentalismo e linguagem coloquial existem, mas convivem com narrativas lineares e poemas líricos tradicionais. Observe cada texto, não aplique um rótulo geral.
- Não confunda literatura periférica com apologia da violência: romances como Cidade de Deus retratam a violência, mas também a vida comunitária, o afeto e a solidariedade. A denúncia não é celebração.
- Não trate a literatura indígena como mito antigo: ela é produção atual, escrita por autores indígenas vivos, sobre problemas do presente, como a destruição ambiental e a luta pela terra.
- Não confunda autoficção com autobiografia: na autoficção, o autor mistura vida e invenção e não garante a veracidade dos fatos. Cobrar “o que realmente aconteceu” é perder o procedimento literário.
- Cuidado com as datas: Clarice Lispector e Guimarães Rosa são pontes entre o Modernismo e o contemporâneo, mas pertencem à Geração de 45. Não os classifique como autores “de hoje” sem essa ressalva.
Conexão com outras áreas
A literatura contemporânea dialoga com a História: a ditadura militar, a redemocratização e a Constituição de 1988 explicam boa parte da produção das últimas décadas. Dialoga com a Geografia: a Amazônia de Milton Hatoum, o sertão baiano de Itamar Vieira Junior e as periferias de Paulo Lins e de Ferréz são espaços reais, com economia, clima e conflitos próprios. Dialoga com a Sociologia: racismo, desigualdade, gênero e luta pela terra são temas sociológicos que a literatura trata por dentro, pela experiência das personagens. E dialoga com as Artes: a poesia concreta conversa com as artes visuais, e a poesia falada conversa com a música e com a performance. Para situar o caminho até aqui, vale reler as matérias sobre a terceira geração do Modernismo e a poesia concreta, além do Pré-Modernismo, que preparou o terreno para 1922.
Para continuar estudando Literatura, veja também: todas as matérias de Literatura, gêneros literários, Romantismo: primeira geração, Simbolismo, Realismo e Naturalismo: Machado de Assis e Aluísio Azevedo, Arcadismo, Parnasianismo, Modernismo: primeira geração e Modernismo: segunda geração, além da página do Enem, com dicas e conteúdos para a prova.
Incidência
Morno. A literatura contemporânea aparece com regularidade no Enem, sobretudo em questões de interpretação de trechos de autores como Conceição Evaristo, Ailton Krenak e Itamar Vieira Junior, e com força crescente nos vestibulares, que incluem obras contemporâneas em suas listas obrigatórias. Não é o tema mais frequente da Literatura, mas é um dos que mais crescem — e um dos que mais recompensam quem lê as obras, em vez de apenas decorar resumos.



